Influenciadores digitais pautam política e comportamentos

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

Os chamados influenciadores (ou influencers, em inglês) se tornaram as figuras mais proeminentes das redes sociais e das plataformas de conteúdo, como o YouTube. Se redes como o Twitter, Facebook e Instagram fossem nações, os influenciadores seriam seus mais notáveis embaixadores

Texto de Denis Pacheco, com reportagem de Gabriel Guerra e Matheus Souza
Jornal da USP

Quando chegou ao Brasil, a Internet surgiu como uma espécie de “terra de ninguém”. Apesar do sentido aparentemente depreciativo da expressão, a então chamada “rede mundial de computadores” era um território descentralizado e não dominado por buscadores de conteúdo. Sites possuíam endereços virtuais difíceis de se memorizar, e as primeiras formas de se comunicar em tempo real envolviam a criação de personas virtuais, incluindo aí nicknames que mascaravam as identidades reais dos usuários.

Quase 30 anos depois, o cenário atual não poderia ser mais diferente. O que era anárquico se tornou por demais regrado, o que pode ser positivo, por exemplo, quando se discute mais ativamente a importância da privacidade e proteção de dados na rede, ou  ou insuficiente em função do avanço indiscriminado das notícias falsas (as fake news, em inglês), que explora brechas nos termos de responsabilidade elaborados pelas grandes plataformas privadas.

Com a introdução de redes sociais como o Facebook, que atualmente tem uma base de 127 milhões de usuários mensais no Brasil, a utilização de nomes reais associados à fotos de perfil mudou para sempre a forma como nos apresentamos e nos comportamos na Internet. E a partir dessa mudança, começaram a surgir figuras que hoje disputam nossa atenção e rivalizam até mesmo com o poder das grandes emissoras.

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Os chamados influenciadores (ou influencers, em inglês) se tornaram as figuras mais proeminentes das redes sociais e das plataformas de conteúdo, como o YouTube. Se redes como o Twitter, Facebook e Instagram fossem nações, os influenciadores seriam seus mais notáveis embaixadores.

De onde vieram os influenciadores?

Pablo Ortellado, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH-USP, colunista da Folha de S. Paulo – Foto: Reprodução/Twitter

“A gente considera influenciador, no discurso ‘comum’, como uma pessoa que tem um grande número de seguidores e influencia pessoas”, explica Pablo Ortellado, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP e coordenador do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai).

Para ele, a teoria por trás dos influenciadores começou lá atrás, com a ideia, ainda na época dos meios de comunicação de massa, de que as pessoas não se informavam diretamente com a fonte primária, mas em sistema de duas escalas. “Uma pessoa tinha muita influência em uma determinada comunidade, se informava, formava uma opinião e distribuía entre as pessoas sobre quem ela tinha ascendência”, esclarece.

Armados com diferentes tipos de retórica, os influenciadores se distinguem não apenas pela plataforma ou canal no qual se fazem mais presentes, mas também pelos diferentes usos de linguagem que utilizam para atingir seus públicos. “Tem influenciador que tem linguagens muito simples, que simplesmente se apoia no seu carisma. Outros são influenciadores que se estabelecem porque eles têm algum conhecimento técnico, como esses da área de ciências. Não tem uma regra geral”, classifica Ortellado.

Para Elizabeth Nicolau Saad Corrêa, professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e pesquisadora nas áreas de comunicação e jornalismo digital, existem dois tipos de influenciadores em ação nas redes. “De um lado a gente tem o ‘influencer efetivo’, que é aquela pessoa que tem um conjunto de competências e habilidades num determinado tema e que por conta desse conjunto ela ganha legitimidade para falar sobre ele”, explica ela.

Na sequência, de acordo com a professora, o segundo tipo de influenciador é um fenômeno característico que nasce nas brechas das redes sociais. “São aqueles que são alavancados por meio de quantidade de likes e de ampliação de seguidores, algumas vezes por meio de compra de seguidores”, pontua ao deixar claro que, para enquadrar pessoas nessa categoria, é necessária uma análise cuidadosa.

Ambos os docentes defendem que a presença de influenciadores não é uma novidade, mas seu poder de influência tem se manifestado cada vez mais no campo político. “Acho que a grande novidade é que a situação política atual, pela sua gravidade, está empurrando algumas pessoas que eram influenciadores de outros campos, do entretenimento, da música, se colocarem em questões políticas”, opina Ortellado.

E os diferentes espectros políticos evocam diferenças na linguagem dos influenciadores. Para o professor, os influenciadores de direita exploram mais sentimentos de indignação. “Isso não é regra, mas muitos deles tendem a ser mais raivosos, como o Nando Moura, tendem a explorar mais esse sentimento. Ou isso ou um humor muito ácido, caso do Danilo Gentili”. Já os influenciadores de esquerda apelam para o discurso de solidariedade e empatia.

Para Elizabeth, “desde junho de 2013, (percebemos) essa característica da audiência de buscar identificação com determinados perfis na rede, essa identificação em cima de uma similaridades de valores, ou o ‘vou atrás de quem pensa igual a mim'”.

O biólogo britânico Richard Dawkins. Foto: Getty 

Memes como discurso e arma política

De 2013, quando o País enfrentou uma grave crise política que culminou no impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016, até 2018, quando a eleição presidencial dividiu dramaticamente o Brasil, a presença dos influenciadores se fez notar cada vez mais.

Em canais do Youtube, páginas do Facebook ou perfis no Twitter, os influenciadores disseminam opiniões pessoais e memes – fragmentos de texto, imagem, vídeos, GIFs relacionados ao humor, que se espalham rapidamente pela rede. O termo é uma referência a um conceito que nasceu a partir de uma teoria ampla de informações culturais criada por Richard Dawkins no livro O Gene Egoísta, de 1976.

Preocupado em entender como esses memes foram utilizados entre 2013 e 2016, o pesquisador Felipe Guaré, da EACH, mapeou em sua dissertação de mestrado, orientada pelo professor Jorge Alberto Silva Machado, as principais matrizes discursivas encontradas especificamente em memes conservadores coletados no Facebook durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, contendo a imagem da ex-presidente.

Para ele, a utilização de memes com humor com intuito político foi marcante o suficiente não só para impactar no destino político do Brasil, como também para acentuar nossa nova relação com a Internet e seus influenciadores.

“O humor é uma ferramenta comunicacional poderosa, que possui inerente a si uma gratificante recompensa ao ouvinte que absorve determinada informação: o riso. Ao abordar temas complexos, ou até temas de baixa motivação, através do riso um indivíduo pode conseguir para si a atenção que ele necessita para que sua mensagem passe adiante”, ilustra Guaré, que, além de pesquisador, é designer gráfico e cartunista.

Na opinião dele, o humor faz uso e reforça estereótipos, além de frequentemente ter um alvo que é vítima de um infortúnio. “Todos estes elementos são úteis em um debate político”, defende.

Apesar da popularização conferida por seu uso na Internet, os memes não são uma fruto exclusivo das redes: para Guaré, um jingle bem utilizado e repetido à exaustão pode ser considerado um meme. “Memes sempre foram utilizados e sempre o serão. O que está mudando é o entendimento de quais são os ambientes mais propícios para que a replicação de um determinado meme ocorra”, acrescenta.

Felipe Neto no programa Roda Viva. Imagem: Reprodução YouTube

Felipe Neto: Do YouTube para o mundo

Não por acaso, foi através do humor que Felipe Neto Rodrigues Vieira, mais conhecido como Felipe Neto, se tornou um dos mais famosos influenciadores do Brasil. A partir de seu canal no YouTube, que em 2020 conta com mais de 38 milhões de inscritos, o carioca foi alçado a uma fama que ultrapassou as barreiras da plataforma.

Em maio deste ano, Felipe foi o entrevistado do programa Roda Vida, na TV Cultura. Na televisão, ele se manifestou não apenas sobre sua trajetória, mas também sobre seus posicionamentos políticos. Para o youtuber, parte de suas declarações polêmicas do passado que hoje ele considera equivocadas foi motivada “por falta de estudo, profundidade, por elitismo”.

Para Ortellado, esse tipo de afirmação ousada é um sinal de que Felipe Neto “está amadurecendo, envelhecendo, se interessando por política”. Entretanto, o professor destaca que o youtuber mantém uma “vida dupla” em diferentes plataformas. “Uma coisa é o Felipe Neto no YouTube, que é um influenciador na área de entretenimento. E outra coisa é o Felipe Neto no Twitter, onde ele mantém uma postura mais política, mais crítica”.


“Ele começa no YouTube com uma audiência muito jovem, quase que pré adolescente, e esses seguidores foram envelhecendo junto com o próprio Felipe. E a partir de um dado momento na rede, acho que por sentir-se socialmente sensibilizado, se colocar no papel do outro, ele passa a utilizar de ferramentas formais de pesquisa e entendimento da sua audiência”, argumenta a professora Elizabeth.

Fato é que a entrevista de Felipe Neto causou incômodo entre analistas políticos tradicionais da grande imprensa e mesmo da academia, por julgar que o influenciador palpitava em uma seara para a qual não teria competência, no entanto, essa crítica denota incompreensão do espaço político que as mídias sociais abrem para os cidadãos, para o bem ou para o mal.

Nesse sentido, para Ortellado, é possível que esse tipo de mudança aconteça com diversas outras personalidades da Internet. “Acho que isso é uma coisa que pode acontecer também com a Anitta, e outros influenciadores que não vêm da política e estão migrando, manter uma espécie de vida dupla”, teoriza.

Leia a continuação parte desta reportagem: A multiplicação das notícias falsas na internet


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