![]() |
| O presidente americano Donald Trump. Imagem de Maret Hosemann por Pixabay |
Por Carlos Orsi
Revista Questão de Ciência
Durante as eleições presidenciais americanas de 2016, sites dedicados a publicar informações falsas disfarçadas de notícia – “fake news”, no sentido estrito – corresponderam a não mais do que 6% da “dieta noticiosa” dos cidadãos dos Estados Unidos. E a maior parte dos consumidores desse conteúdo distorcido provavelmente já estava radicalizada e polarizada antes de ter contato com as notícias falsas: apenas 20% do público respondeu por quase 60% do tráfego dos sites de desinformação.
Esses dados, obtidos a partir de pesquisas de opinião pública e do rastreamento – anônimo e consentido – do comportamento online de mais de 2 mil americanos entre outubro e novembro de 2016, foram apresentados no início de março em artigo publicado no periódico Nature Human Behaviour. O texto aponta que a amostra não é perfeitamente representativa, já que pessoas com nível educacional mais alto (ensino médio ou superior) estão sobrerrepresentadas.
“Estes resultados sugerem que a especulação disseminada de que existe uma prevalência de exposição a websites indignos de confiança é exagerada”, escrevem os autores, vinculados a instituições dos Estados Unidos e do Reino Unido. Eles também apontam que as chamadas “câmaras de eco” – comunidades que consomem apenas, ou majoritariamente, conteúdo que confirma e reafirma seus próprios preconceitos – parecem ser “profundas” (seus membros de fato consomem muito desse conteúdo) mas também “estreitas” (congregam uma fração pequena do público).
MAIS
Se os dados apresentados contrariam o senso comum de que as notícias falsas têm moldado o pensamento de parcelas significativas da opinião pública, eles vêm a confirmar outras impressões intuitivas, como a de que redes sociais – com destaque especialíssimo para o Facebook – são a “porta de entrada” por excelência dos sites de conteúdo falso: análise estatística mostrou que, para um americano de inclinação conservadora, ser um “usuário pesado” do Facebook correlacionou-se a um aumento do consumo de “fake news”, no período eleitoral, de mais de 70%.
Outra intuição confirmada pelo estudo foi de que a leitura de “fake news” segue linhas de afinidade ideológica ou, nas palavras dos autores, “esses websites (...) foram consumidos por um subconjunto de americanos com forte preferência por informação pró-atitudinal”, isto é, que reforça as atitudes e opiniões prévias do usuário.
Esse apetite “pró-atitudinal” mostrou-se maior entre conservadores: 57% dos apoiadores de Donald Trump, na amostra, visitaram pelo menos um site de notícias falsas no período do estudo, ante 28% dos apoiadores de Hillary Clinton.
Em termos da composição da “dieta informativa”, “fake news” de caráter conservador perfizeram quase 5% do consumo online total de notícias da amostra, enquanto as de caráter “liberal” (no sentido americano), menos de 1%. Quando o público foi dividido por preferência política, apoiadores de Trump tinham 11% de notícias falsas de viés conservador na “dieta”; apoiadores de Hillary, por sua vez, consumiram 1,1% de notícias falsas “liberais”. Ambos os grupos também consumiram quantidades mínimas de “fake news” alinhadas ao campo oposto.
O trabalho não avaliou a credibilidade conferida às notícias falsas – se o público analisado leva a sério o que lê nos sites de baixa credibilidade, ou se os frequenta só “pela farra”. Estudo publicado em Cognition, no ano passado, sugeria que a dificuldade ou a pouca disposição para pensar de forma analítica é mais relevante para a aceitação de informações veiculadas via “fake news” do que o alinhamento político.
Outra conclusão sugerida pelo estudo é a de que, ao menos no contexto da política americana, o trabalho das agências de fact-checking não chega a quem realmente precisa. Na amostra analisada, apenas 3% das pessoas que leram uma notícia falsa tiveram acesso a um fact-checking específico sobre a mentira lida. No geral, menos da metade do público exposto a “fake news” acessa também sites de checagem de fatos.
Embora o estudo indique que o consumo de notícias falsas é um efeito, e não uma causa, da polarização política, os autores deixam em aberto a possibilidade de que indivíduos polarizados, ao compartilhar e replicar conteúdo falso, amplifiquem o impacto e a visibilidade desse material.
Essa hipótese é reforçada por um artigo publicado na Science em 2018, mostrando que os principais impulsionadores de notícias falsas no Twitter são seres humanos, não robôs.

Comentários
Postar um comentário
Olá! Comentários com xingamentos não serão aceitos.