Jornalismo e falsa controvérsia: quando nem sempre é correto ouvir os dois lados

Cena do filme "Criação", sobre a vida de Charles Darwin. Foto: Divulgação

AD Luna
ad.luna@gmail.com

Em agosto de 2016, entrevistei o escritor e jornalista especializado em divulgação científica Carlos Orsi, para o programa Interdependente - música e conhecimento. 

Aproveitando que, no momento, assuntos como a introdução do ensino de criacionismo em escolas voltou a ser especulado, republico aqui trecho editado de pergunta e resposta que podem servir para possíveis debates no meio jornalístico e entre o público em geral. 

A pergunta - que reeditei - foi a seguinte: Como jornalistas, sabemos que existe o princípio de "se ouvir os dois lados". Porém já li que, por exemplo, juntar numa mesma reportagem cientista falando sobre evolução e um evangélico fundamentalista defendendo o criacionismo pode ser exemplo de mau uso desse recurso. Poderia explicar por que isso seria um erro?

A resposta de Carlos Orsi

A questão dos dois lados em assuntos científicos é realmente complicada. Mas dá pra explicar isso por uma questão bem simples: ciência não é uma questão de opinião. Não importa se eu ache que a aceleração da gravidade na superfície da Terra é 9,8 m/s (metros por segundo) ao quadrado ou se ache que é 15,7 m/s ao quadrado. Você pode medir isso e descobrir qual é a aceleração real e as opiniões contrárias estão simplesmente erradas.

Então, não tem por que ouvir a opinião contrária. Existe uma medida objetiva de qual é a realidade e quando você tem isso, opiniões contrárias desinformam. Existem fatos científicos que são afirmados tanto pelo consenso dos cientistas que trabalham numa determinada área quanto por medições, que podem ser realizadas por qualquer pessoa, medições, verificações.

Por exemplo, verificação de fatos históricos: se você tem a opinião de que nunca existiu alguém chamado Napoleão Bonaparte que foi imperador da França, você pode consultar documentos históricos, do início do século 19, e vai ver que realmente existiu um cara com ta nome, que se tornou imperador daquele país.


Opiniões contrárias a isso simplesmente desinformam. E, ao desinformar, elas vão contra o espírito do jornalismo, que é levar a verdade ou a coisa mais próxima da verdade possível ao leitor. Não faz sentido você apresentar a ele um ponto de vista que é sabidamente ou comprovadamente falso. O número de pontos de vista falso é infinitamente superior aos verdadeiros. Pra cada verdade que existe, há milhares, milhões de mentiras. Então, se você for citar a verdade e citar todas as mentiras que se opõem a elas, seu texto não vai terminar nunca. 

No caso do jornalismo científico, especificamente, isso é especialmente capcioso porque, por um lado, existem verdades científicas, princípios científicos, como Teoria da Evolução, que estão estabelecidos sobre bases tão ou mais sólidas quanto à existência de Napoleão Bonaparte, o fato de que as plantas têm folhas verdes, ou coisas do tipo, mas que não tão obviamente verdadeiros para quem não estudou aquele assunto.

Evolução, de repente, é uma caso desses, a eficácia das vacinas. Para o público em geral, pode haver impressão de que existe uma controvérsia e que, portanto, caberia aos jornalistas dar igual espaço aos dois lados. Como no caso de controvérsias sobre políticas econômicas ou (no caso de eleições) qual o melhor candidato para determinado cargo.

Mas uma controvérsia pública não significa que ela seja "real". A responsabilidade profissional do jornalista é identificar onde a controvérsia é real - e a honestidade intelectual requer que se apresente o outro lado - e onde a controvérsia é falsa, fabricada e apresentação do outro lado presta um desserviço ao leitor.

Acho que existem muitos casos, diria a maioria dos casos, no jornalismo científico, ou na divulgação científica, de controvérsias fabricadas - que, na verdade, não existem, são artificiais. O jornalista que está realmente interessante em oferecer a melhor aproximação possível da verdade para o seu leitor tem que enxergar isso e saber evitar essa busca por um outro lado que, no fim, dá um destaque para uma falsidade.

A respeito da oposição entre religião e ciência no que se refere às origens da vida, este artigo do site Universo Racionalista é bem esclarecedor: Por que o debate Criacionismo X Evolução não faz sentido?

Livros de Carlos Orsi sobre ciência e ceticismo

"O livro da astrologia: Um guia para céticos, curiosos e indecisos" 


Por que a astrologia atrai tantas críticas, ao mesmo tempo em que tem defensores tão apaixonados? Qual a história dessa arte, o que a torna tão atraente, e por que os cientistas têm tanta certeza de que ela não funciona? As respostas você encontra aqui! (Texto da Amazon)

"Pura picaretagem"

O poder da mente pode mesmo fazer com que coisas se concretizem? Pode aliviar males ou até mesmo curar problemas de saúde? É possível enriquecer ou se tornar famoso pensando positivo? Você certamente já ouviu alguém dizer sim a alguma dessas perguntas.

Com as surpreendentes descobertas da Física Quântica, muitos "picaretas" passaram a afirmar que ela justificaria diversos pressupostos esotéricos ou religiosos.

Inúmeros livros começaram a circular com títulos como cura quântica, ativismo quântico, metafísica quântica ou coisas do tipo. Mas o que seria, realmente, a Física Quântica e que tipos de fenômenos ela poderia explicar? Isso é o que Daniel Bezerra e Carlos Orsi buscam responder neste livro.


Aqui você vai conhecer um pouco mais sobre a verdadeira Física Quântica e aprender a se proteger das mais criativas picaretagens! O quantum nos concedeu maravilhas científico-tecnológicas, mas cada um desses avanços foi resultado dos esforços de cientistas e engenheiros trabalhando com os pés firmemente fincados no "paradigma científico-materialista", e não do poder de seus pensamentos. (Texto da Amazon)

Comentários

  1. E sobre a questão dos paradigmas? É justo ouvir o lado "oposto"? Ou a "crença" que a matéria é a última verdade eterna permanece?

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