Por AD Luna
Desculpa, academia.
Mas ainda não me convenceram de que trocar “pessoas” por “corpos” é uma boa.
Para a comunicação pública — fora dos departamentos de humanas — acho péssimo.
Soa biologizante (que ironia), desumanizante (às vezes lembra cadáver) e, em muitos casos, acaba reintroduzindo um dualismo que me parece problemático. Pessoa envolve vivência, vida, afetos, história, emoções, sentimentos.
E uma pessoa, para existir, precisa de um corpo — mas não se reduz a ele. Pessoa já pressupõe um corpo situado no mundo, enquanto “corpo”, isoladamente, não dá conta disso.
Quando “corpos” não dão conta da experiência humana
Há muitos anos, em uma viagem de ônibus para tocar em Fortaleza, vi na estrada um acidente horrível. Um caminhão carregado de chapas de aço se chocou com um carro de passeio, no qual havia uma família.
Não vou entrar em detalhes sobre o estado em que ficaram os corpos dessas pessoas. Mas o que mais me tocou e me fez pensar foram as malas espalhadas.
Porque, por trás daquilo, havia pessoas. Uma família, com laços de amor, carinho, cuidados mútuos. O simbolismo das malas abertas, roupas espalhadas, representava, para mim, mais vida do que os corpos despedaçados.
Mais do que corpos: história, vínculos e sentido
Elas, em algum momento, pensei, decidiram viajar juntas. Passar um fim de semana, encontrar parentes, compartilhar tempo.
E toda uma história , que está muito além de corpos destroçados, se encerrou ali.
Por que “pessoa” ainda faz mais sentido
Enfim, pode até ser que eu mude de opinião. Mas, hoje, o tal do “corpo” ainda me soa muito estranho.
Para além de qualquer formulação teórica, “pessoa” continua sendo uma palavra que carrega aquilo que realmente importa: vida, experiência e significado.

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