"Fake news" contra judeus marcaram Alemanha já no século 19

Cidadãos lendo o jornal antissemita Der Stürmer,  na Alemanha em 1935. Foto: Wikipedia

Por Antonio Carlos Quinto
Jornal da USP

Até mesmo histórias de que judeus matavam crianças para usarem seu sangue no preparo do pão da páscoa judaica eram disseminadas

A ruptura familiar causada pela imigração de judeus fugitivos do nazismo, no século 20, atingiu a família da historiadora Miriam Bettina Paulina Bergel Oelsner. Nos anos iniciais do regime nazista seus pais abandonaram a Alemanha e chegaram ao Brasil em 1935, anos antes da eliminação em massa de judeus. “Não conheci meus avós e o restante da família se dispersou!”, conta a historiadora, que teve a avó materna e demais familiares mortos nas câmaras de gás em Auschwitz, em 1942.

A situação vivida por Miriam, que é filha única, foi uma das principais motivações para ela empreender um estudo na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP sobre o antissemitismo na Alemanha dos séculos 19 e 20, e como os judeus que lá estavam se defenderam. A tese de doutorado A gênese do nacional-socialismo na Alemanha do século 19 e a autodefesa judaica foi orientada pela professora Anita Waingort Novinsky.

Na pesquisa, a historiadora analisa, por exemplo, como a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) expôs o país a uma forte “humilhação”, situação explorada pela ultradireita que defendia valores do início do século 19. O estudo mostra o empenho de alguns alemães em tornar a Alemanha um Estado laico e menos desigual, na “Era das Revoluções”, em 1848, quando seus combatentes, judeus e não judeus foram perseguidos pelo exército de Otto von Bismarck, um dos idealizadores do 2º Reich (1871-1918) que levou à criação de um estado único, ou a unificação da Alemanha em 1871.

A culpa dos judeus
A historiadora conta que, após a unificação, deputados judeus participaram da redação da Nova Constituição, da criação do marco alemão (DM) e do Banco Central, o Deutsche Bank. “Mas, por volta de 1873, houve um forte desequilíbrio na economia alemã, cuja culpa foi atribuída aos judeus, vítimas iguais da crise”, diz a pesquisadora.

Para alimentar ainda mais a onda antissemita, o deputado judeu Edouard Lásker descobriu graves falcatruas de Bismarck em grandes obras, como as ferrovias. Miriam ressalta que, a partir de 1878, Bismarck não escondeu seu antissemitismo, juntamente com alguns acadêmicos, que publicaram livros difamatórios contra os judeus, além de outros antissemitas, como o Papa Pio IX. “Até mesmo histórias de que judeus matavam crianças para usarem seu sangue no preparo do pão da páscoa judaica eram disseminadas”, enfatiza Miriam. Enquanto isso, acadêmicos não judeus como o historiador Theodor Mommsen (Prêmio Nobel de Literatura de 1902) mobilizaram 20 mil pessoas em defesa dos judeus. “Mas eles perceberam que era praticamente impossível combater aquele preconceito milenar”, conta a pesquisadora.

A tese da historiadora remonta a períodos do século 18, quando o antissemitismo já se formava. Segundo Miriam, isso se deu após a morte do filósofo judeu alemão Moses Mendelssohn (1729–1786), o pai do Iluminismo judaico na Alemanha. “Já naquela época, judeus começaram a sair dos guetos e participavam da sociedade alemã”, conta, o que fomentou o preconceito antijudaico.

Mais tarde, no ano de 1893, quando o antissemitismo atingiu níveis alarmantes, líderes da comunidade judaica criaram uma associação de autodefesa, a Central Verein deutscher Staatsbürger jüdischen Glaubens (Associação Central dos Cidadãos Alemães de Fé Judaica), ou o CV, que vigorou até 1938, sofrendo um fim compulsório durante a estarrecedora “Noite dos Cristais Quebrados”, após 45 anos de atuação permanente. “Esta associação se difundiu por toda a Alemanha”, conta a historiadora, ressaltando que “foi o primeiro órgão de defesa dos judeus”. Nessa mesma época, de intenso antissemitismo, surgiu outro grupo de defesa judaico, a partir da injustiça cometida contra o capitão judeu Alfred Dreyfus, em Paris. Seu fundador, o jornalista Theodor Herzl, de Viena, pai do Sionismo Político moderno, lutou pela criação de um “Lar Nacional Judaico”, que veio a se concretizar em 1948, mais de 50 anos depois, após a morte de 6 milhões de judeus durante a Segunda Guerra, com a criação do Estado de Israel.

O historiador David Bankier, falecido em 2010, foi um grande incentivador de Miriam na realização de sua tese. “Foi ele quem me recomendou uma consulta aos arquivos recuperados do CV encontrados em Moscou, após a Queda do Muro de Berlim”, lembra a pesquisadora. Bankier, que foi diretor do Memorial do Holocausto, o Yad Vashem em Jerusalém, e que chegou a ministrar aulas no Centro de Estudos Judaicos (CEJ) da USP, ao estudar os “arquivos de Moscou” por meio das pesquisas feitas pelo também historiador Avraham Barkai, compreendeu que o papel desempenhado pelo CV foi muito mais importante do que ele mesmo supunha.

Para a historiadora, a existência do CV e também do Sionismo de Theodor Herzl é a prova contundente de que os judeus não foram para o cadafalso como carneiros. “Eu sempre quis estudar a história da Alemanha anterior ao período nazista, matéria pouco conhecida, na busca das origens do nacional-socialismo”, justifica a historiadora. Miriam iniciou sua tese em 2012 e a concluiu em 2017, recebendo a recomendação de publicá-la em livro pela banca examinadora.

Mais informações: oelsner@usp.br, com Miriam Oelsner

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