A multiplicação das notícias falsas na internet

Imagem de S. Hermann & F. Richter por Pixabay

Esta é a continuação da reportagem Influenciadores digitais pautam política e comportamentos

Texto de Denis Pacheco, com reportagem de Gabriel Guerra e Matheus Souza
Jornal da USP

Hoje mais do que nunca, a credibilidade dos influenciadores digitais tem se estabelecido através da sinceridade com a qual eles se manifestam em seus perfis. Expondo suas próprias dúvidas sobre questões complexas ou espinhosas e se posicionando diante do que consideram injustiças ou mazelas, como o avanço das fake news.

Durante a entrevista no programa Roda Viva, Felipe Neto falou sobre as ferramentas que podem impedir ou diminuir a disseminação de fake news nas redes sociais. Para ele, “a arma mais utilizada é o WhatsApp”, que pertence ao Facebook, mas é um comunicador instantâneo distinto da rede social.

Não é incomum que as definições sobre essas diferentes plataformas sejam confundidas. E o fato de não existir uma definição clara que classifique e separe redes sociais de comunicadores instantâneos tem sido explorado por diversos atores políticos, tanto em campanhas eleitorais, quanto na disseminação de notícias falsas contra adversários ou causas consideradas injustificadas por um grupo ou outro.

Para Caio Machado, advogado formado da USP, com mestrado em Direito Digital pela Universidade Sorbonne, na França, e mestrado em Ciências Aplicadas à Internet na Universidade de Oxford, na Inglaterra, as notícias falsas tomaram novas proporções atualmente graças aos avanços tecnológicos e ao contexto político mundial, com a ascensão de Donald Trump nos EUA em 2016.

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Machado, que é pesquisador do Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo (LAUT), uma associação sem fins lucrativos com integrantes de diversas universidades brasileiras, reforça que era esperado que, em 2018, a desinformação se tornasse uma arma durante as eleições no País.

Nesse cenário, ele enxerga os influenciadores como parte natural desse ecossistema. “Os influencers surgiram com a Internet, nós criamos esses canais em que pessoas conseguem ter a mesma projeção de emissoras ou até mais. E isso não é necessariamente ruim, isso quer dizer que surgiram novas formas de comunicação, pessoas que conseguem digerir e organizar conteúdo, essa explosão de conteúdo”, contextualiza.

Para Machado, o ato dos influenciadores participarem cada vez mais do debate político sinaliza que eles estão exercendo sua cidadania. Entretanto, existe um tipo específico de influenciador que, para o pesquisador, exige nossa vigilância: os ocupantes de cargos públicos.

“Eu vejo problema quando ocupantes de cargos públicos se tornam influencers. No caso do presidente Bolsonaro, (em seu perfil) ele está comentando políticas públicas, e está soltando conteúdo que é do interesse público, mas que se mistura com a sua opinião. Aí temos uma confusão entre público e privado que contamina o debate público”, ilustra o pesquisador ao reforçar que, nesse caso específico, é difícil separar o que é a opinião do presidente e o que é a posição oficial do governo como um todo. Fato que acontece também com o presidente americano Donald Trump, muito ativo no Twitter.

Em ambas as campanhas eleitorais, tanto nos EUA em 2016, quanto no Brasil em 2018, o uso de fake news como forma de descaracterização de adversários foi denunciado, lá pelo escândalo envolvendo a empresa Cambridge Analytica, e aqui por uma reportagem da jornalista Patrícia Campos Mello, na Folha de S. Paulo.

No mar de notícias falsas e uso de bots (programas de computador criados para rodar pela Internet realizando tarefas repetitivas e automatizadas), influenciadores à esquerda e a à direita se moveram como peças um tabuleiro que disputavam a atenção dos eleitores.

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

Os chamados “influencers contratados”, de acordo com Machado, não apenas podem disseminar fake news, como também “criam teorias da conspiração”. Combater esse tipo de prática envolve um trabalho investigativo minucioso. “E até agora não temos resposta adequada das autoridades quanto a isso”.

E ter respostas adequadas das autoridades é fundamental neste momento crítico, época em que a internet e as redes sociais estão cada vez mais contaminadas pelo avanço das fake news, difundidas também por auto proclamados jornalistas que ganham indesejada e irresponsável repercussão em um país em que há mais smartphones do que habitantes.

Quem vigia os vigilantes?

Na primeira semana de junho deste ano, um projeto de lei contra as fake news (PL 2.630/20) foi retirado da pauta de votação do Senado por ser considerado confuso e colocar em risco a liberdade de expressão. A proposta pretende transformar em crime o uso de contas falsas nas redes sociais ou de robôs sem o conhecimento das plataformas.

Uma das medidas descritas no PL estipulava que contas nas redes sociais tivessem verificação da identidade de seu responsável, exigindo cópias de documentos e até comprovante de endereço. Para Machado, “a medida é ineficaz, pois não percebe e não entende a dinâmica geral da Internet, o que é um erro do passado”.

Em 2017, o pesquisador lembra que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já havia passado uma resolução proibindo as fake news e uso de bots durante a campanha. Entretanto, “a lei da época não entendia o fenômeno e não sabia como combatê-lo. O novo PL vai fazer a mesma coisa”, sinaliza ele.

Sobre as plataformas e sua responsabilidade diante desse cenário, o advogado argumenta que o problema é primeiramente político. “Passamos a responsabilidade para as plataformas, mas nós não conseguimos ainda definir o que é fake news, o que é rede social, ou mesmo definir o que é desinformação”, afirma.

Mas se não são as plataformas, os influenciadores e nem os ocupantes de cargos públicos que definem o que é e o que não é verdade, quem define?

“A nossa previsão legal é que isso é responsabilidade do Judiciário”, postula Machado ao defender que a questão talvez seja maior do que dar uma definição sobre o que é verdade e o que é mentira. “O nosso grande problema é como a comunicação está sendo usada, se está sendo usada para enganar, sabotar a campanha, difamar alguém”, finaliza.

Ainda assim, especialistas acreditam que são as plataformas que, a priori, podem coibir a disseminação de fake news e retirar discursos ou perfis que incitem crimes do ar.

“Influencer é um fenômeno que já existia, mas eles eram pessoas proeminentes numa comunidade, você não tinha acesso direto, se você não tivesse contato com essa pessoa, ela não te influenciava. O que as mídias sociais fizeram é que agora esses influenciadores estão ali, ainda que você não conheça, não frequente, que não faça parte do seu bairro, sua escola ou local de trabalho. Agora você consegue achá-los sem ter um contato direto”, reitera Pablo Ortellado, ao reforçar que foram as plataformas de mídia social que mudaram nosso acesso aos influenciadores e os empoderaram. Ortellado é professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP e coordenador do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai)

Para ler mais sobre o assunto

Para quem estiver interessado em se aprofundar nas questões relacionadas às relações políticas no ambiente das redes sociais, o Jornal da USP indica a leitura de dois textos. 

Em Ativismo Político em tempos de Internet (disponível aqui), publicado pela Plataforma Democrática, Sérgio Fausto e Bernardo Sorj, organizadores do documento, dizem que o desafio do ciberativismo é potencializar seu lado virtuoso.

Dentre as conclusões, os pesquisadores refletem: 

“O mundo virtual é certamente mais democrático, na medida em que criou um espaço mais amplo de expressão e circulação de opiniões, reduzindo os custos de transação comunicacional, facilitando a comunicação e mobilização dos cidadãos. Ao fundir a comunicação on-line/off-line: o novo tecido do ativismo político com a comunicação pessoal subjetiva, deu lugar à profusão de mensagens curtas, onde predominam estados emocionais individuais, o mal-estar e a denúncia, marginalizando o debate informado e construtivo de uma agenda positiva. 

Se diminuiu o peso relativo dos meios tradicionais, também surgiram no mundo virtual influências de poder real mais nocivas, protegidas pelo anonimato, pela dependência de estruturas de redes sociais orientadas por interesses econômicos privados e pela capacidade do Estado (e de empresas) de obter um volume de informação sobre seus cidadãos que causaria inveja em qualquer regime totalitário. 

Em resumo, o que temos com os novos meios de comunicação é uma enorme expansão do espaço público ao mesmo tempo em que se perde em substância e especificidade. Ambas as tendências convivem e competem entre si. Construir um espaço público virtual capaz de neutralizar os usos nocivos e potencializar seu lado virtuoso é o grande desafio do ciberativismo que, como mostramos aqui, depende de um esforço de criar soluções que reúnam o mundo online e o off-line, a representação e a participação direta”.

Confira também o trabalho Sobrevivendo nas redes – Guia do Cidadão (disponível aqui), dos autores Bernardo Sorj, Francisco Brito Cruz, Maike Wile dos Santo, Marcio Moretto Ribeiro e Pablo Ortellado.

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