Como pensar a liberdade individual em tempos de pandemia?


Imagem de Alexandre FUKUGAVA por Pixabay


Destacamos aqui parte do artigo "Pandemia evidencia falta de alfabetização em saúde no mundo", da Revista Questão de Ciência, no qual a jornalista Ruth Helena Bellinghini trata da questão da liberdade individual


Por Ruth Helena Bellinghini*


Em epidemias como a da COVID-19, conceitos como liberdade individual, direitos humanos, responsabilidade social são postos à prova. No artigo "Personal and Social Responsibility for Health", Daniel Wikler, educador em saúde e professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Harvard, afirma que “se a pessoa corre riscos, mas os aceita como preço a ser pago pelo que considera prioridade, a saúde pública não deve intervir. É o caso do hipertenso que, mesmo sabendo de sua condição, decide não controlar o uso de sal, ou do diabético que não resiste a um bolo de chocolate".


Mas, para Paakari e Okan, esse princípio não se aplica a casos como a pandemia da COVID-19, em que comportamentos irracionais que ignoram as recomendações da saúde pública, que podem ser motivados por falta de compreensão dos riscos ou outras prioridades, comprometem toda a comunidade, como ocorre com as vacinas.
Pessoas que ignoram as determinações da saúde pública, que se reúnem em aglomerações e não usam máscaras, por exemplo, beneficiam-se dos que se comportam com responsabilidade e criam um ambiente em que o vírus circula menos, tendo assim uma falsa sensação de invulnerabilidade. Mas o risco, relativamente baixo, de infectarem-se depende de outras pessoas que sigam as recomendações sanitárias coletivamente. É essa recusa de contribuir para o bem comum que torna seu comportamento injusto e perigoso, especialmente para os grupos de alto risco e profissionais da saúde.
De acordo com os autores, a alfabetização em saúde permite que as pessoas entendam as razões que estão por trás das recomendações da saúde e avaliem as consequências de seus atos. O problema é que responsabilidade social e pensar no coletivo, e não apenas no individual, também deveria ser uma ferramenta da alfabetização em saúde.

Falta de solidariedade e responsabilidade de quem produz e dissemina notícias falsas
Esses são conceitos em que o Brasil também falha. “Não sou grupo de risco”, “Só vou fazer uma caminhada”, “É só um almoço de família” são alguns dos “argumentos” bastante comuns entre os que rompem o distanciamento social, isso sem contar os negacionistas que insistem em dizer que a COVID-19 não é doença grave, que a pandemia é uma invenção da mídia, que o número de mortos é superdimensionado. Solidariedade e responsabilidade também deveriam estar na agenda daqueles que produzem e disseminam fake news, ainda que involuntariamente.
Nos últimos dias. algumas redes sociais foram invadidas por muita gente “denunciando” a existência de um novo “golpe”, com pessoas que se identificam como sendo do Ibope, mas que na verdade queriam uma amostra de sangue. A “denúncia” ganhou as redes e começaram a aparecer as especulações, que também se disseminaram rapidamente. A de que seria um golpe para promover assaltos, a de que, na verdade, trata-se de pessoas que estavam transmitindo HIV através do furo no dedo para obter uma gota de sangue e, mais mirabolante ainda, que no falso teste era injetada uma substância para que, depois, a pessoa se tornasse vítima de traficantes de órgãos para transplante. Em várias cidades, as pessoas abordadas chamaram a polícia, que chegou a prender os pesquisadores.
Tratava-se, na verdade, de pesquisa coordenada pela Universidade Federal de Pelotas e patrocinada pela Ministério da Saúde, que vai testar 33.250 pessoas em 133 cidades brasileiras, para projetar qual a porcentagem de brasileiros que já exposta ao SARS-CoV-2, já que não há testes em quantidade suficiente para testar a maior parte da população. Com a confusão, pesquisadores foram detidos, alguns ficaram aterrorizados com a possibilidade de serem agredidos pela população, mais de 300 testes foram perdidos, por terem sido mal acondicionados. O Ministério da Saúde afirma que comunicou todas as secretarias de saúde sobre a pesquisa e que estas alegam que informaram as prefeituras que, por sua vez, afirmam não saber de nada. A pesquisa, que começou em Pelotas, tem sido amplamente divulgada pela mídia, jornais, TV, rádio e sites de notícias há semanas.
Do outro lado, o público apavorado teria se beneficiado de uma pequena dose de alfabetização de saúde. O teste usa uma lanceta descartável, como a que é usada diariamente por diabéticos que monitoram suas taxas de açúcar no sangue. Elas não servem para injetar nada, só para perfurar a pele e obter uma gotinha de sangue.

*Ruth Helena Bellinghini é jornalista, especializada em ciências e saúde e editora-assistente da Revista Questão de Ciência. Foi bolsista do Marine Biological Lab (Mass., EUA) na área de Embriologia e Knight Fellow (2002-2003) do Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde seguiu programas nas áreas de Genética,  Bioquímica e Câncer, entre outros

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O simples fato de vivermos no século XXI já nos faz beneficiários da ciência e dos seus frutos, mesmo que a gente não se dê conta dessa verdade. Os objetos que nos dão conforto, que nos dão prazer, que nos transportam, que nos emocionam, que nos informam (até este livro) só existem da forma como existem por conta dos conhecimentos científicos. O cidadão que ignora fatos científicos básicos pode se tornar presa fácil de curandeiros e charlatões, gente que mente para os outros e, não raro, para si mesma.

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