Governo despreza ciência em protocolo de uso da cloroquina

Imagem de Arek Socha por Pixabay


Por Cesar Baima*
Revista Questão de Ciência

Governo joga a ciência pela janela com protocolo de cloroquina

Sob pressão do presidente Jair Bolsonaro, o Ministério da Saúde, encabeçado interinamente pelo general Eduardo Pazuello, decidiu jogar a ciência pela janela com a publicação, nesta quarta-feira, 20 de maio, de um protocolo que libera o uso de cloroquina (CQ) ou hidroxicloroquina (HCQ), em associação com o antibiótico azitromicina, para o tratamento da COVID-19.
O ministério, em documento sem assinatura ou responsável técnico assinalado, apresenta uma lista de critérios diagnósticos para casos leves, moderados e graves da COVID-19, e estabelece as dosagens dos medicamentos a utilizar em cada fase da doença. Ao longo do texto, no entanto, o próprio órgão reconhece não haver estudo que comprove os benefícios da cloroquina ou hidroxicloroquina no tratamento da COVID-19, jogando para médicos e pacientes a responsabilidade de prescrever e receber, via termo de ciência e consentimento, as medicações.
A insistência de Bolsonaro no uso da cloroquina para tratar a COVID-19, a despeito da ausência de qualquer embasamento científico, insistência que lhe custou já, num intervalo de menos de um mês, dois ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, é mais um forte indício de que o governo federal está perdido no enfrentamento da pandemia, e deposita suas esperanças em uma solução “mágica”.
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Contramão da ciência

Nesta mesma semana, foram divulgadas duas notas técnicas assinadas por diversos especialistas e sociedades médicas apontando a falta de sustentabilidade científica e os riscos da administração de CQ e HCQ em pacientes leves, moderados ou graves de COVID-19, e do uso profilático (preventivo) desses medicamentos.

A primeira – que tem entre seus autores a microbiologista Natália Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência, que publica a revista da instituição – compila os muitos estudos já feitos em torno do tema até agora, num texto que cobre desde os sinais tênues de possíveis benefícios da cloroquina contra a COVID-19, que apareceram em estudos de má qualidade e altamente preliminares, até os mais recentes trabalhos, de boa qualidade e caráter mais definitivo, que mostram que os sinais iniciais não passavam de ilusão.
Assim, o grupo de especialistas destaca que, se no início da pandemia, a incerteza e a falta de opções justificavam o uso exploratório de CQ e HCQ na luta contra a doença, agora, com o acúmulo de evidências, a plausibilidade do tratamento não existe mais. “Pelo contrário, vários [estudos] indicaram potenciais malefícios. Assim, hoje, em vista de algumas claras certezas, não é mais ético fazer uso rotineiro da medicação fora de estudos clínicos”, afirmam os cientistas.
A nota prossegue: “Em uma situação de emergência global de saúde pública, como a Pandemia causada pelo SARS-CoV-2, cabe ao Poder Público garantir o bem-estar da população de forma responsável e embasada em conhecimento produzido pela ciência, e não a submeter ao risco adicional de um tratamento sem garantias de segurança e eficácia sob a chancela de uma política nacional de saúde”.
No caso do uso preventivo, a nota cita estudos com pacientes que fazem uso contínuo de CQ ou HCQ, para controle dos sintomas de doenças autoimunes. Se essas drogas têm algum poder de prevenir ou amenizar a COVID-19, seria de se esperar que esses pacientes, que tomam a medicação continuamente e há tempos, estivessem protegidos, ou evoluíssem menos para estados graves. Mas nenhum desses benefícios foi observado.
Já o segundo texto, fruto de consenso da Associação de Medicina Intensiva Brasileira, da Sociedade Brasileira de Infectologia e da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, lista em suas “Diretrizes para o Tratamento Farmacológico da COVID-19” recomendações para o não uso de CQ e HCQ, associadas ou não à azitromicina (AZ), em pacientes da doença, dadas que “as evidências disponíveis não sugerem benefício clinicamente significativo do tratamento”. Ainda de acordo com o documento, “houve entendimento de que o risco de eventos adversos cardiovasculares é moderado, em especial de arritmias, sendo potencializado com a associação de HCQ/CQ com AZ”.
O protocolo do Ministério da Saúde repudia a ciência para atender a um apelo populista criado pelo próprio presidente: qualquer que seja a real dimensão do "clamor popular" pela cloroquina, ele não deriva de uma compreensão serena da ciência -- que, na verdade, aponta na direção oposta -- e só existe porque Bolsonaro o engendrou. 
*Cesar Baima é jornalista e editor-assistente da Revista Questão de Ciência

NOTA DA REDAÇÃO - ATUALIZAÇÃO

Pesquisa com 96 mil pacientes não encontra benefício de uso de cloroquina contra covid-19 e detecta risco de arritmia cardíaca


Nesta sexta-feira, 22 de maio, a revista The Lancet publicou pesquisa científica com 96 mil pacientes, a qual mostra que que a hidroxicloroquina e a cloroquina não apresentam benefícios contra a Covid-19. Os resultados também apontam que não há melhora na recuperação dos infectados, mas um risco maior de morte e piora cardíaca durante a hospitalização pelo Sars CoV-2.
Alguns detalhes sobre o estudo

96.032 pacientes internados foram observados;
Idade média de 53,8 anos e 46,3% eram mulheres;
Pacientes são de 671 hospitais em 6 continentes;
14.888 pacientes receberam 4 tipos de tratamentos diferentes com a cloroquina e a hidroxicloroquina;

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As hospitalizações ocorreram entre 20 de dezembro de 2019 e 14 de abril de 2020.

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O simples fato de vivermos no século XXI já nos faz beneficiários da ciência e dos seus frutos, mesmo que a gente não se dê conta dessa verdade. Os objetos que nos dão conforto, que nos dão prazer, que nos transportam, que nos emocionam, que nos informam (até este livro) só existem da forma como existem por conta dos conhecimentos científicos. O cidadão que ignora fatos científicos básicos pode se tornar presa fácil de curandeiros e charlatões, gente que mente para os outros e, não raro, para si mesma.

Comentários

  1. Eu li o estudo americado publicado na FAMA sobre a HCQ. Fui direto na fonte que tratou desse assunto, sem passar por algum jornalista para interpretar o relatado para mim. Eu vi que se tratou de uma análise de dados, e não uma avaliação paciente a paciente, com as condições clinicas semelhantes, tais como obesidade, problemas cardíacos, idade, tempo de detecção da doença, etc... Isso não quer dizer que pelo fato do estudo não ter levado em consideração as condições dos pacientes, o resultado seria positivo para a HCQ, mas também não se pode concluir que não é. Eu particularmente prefiro um estudo preliminar que avaliou paciente a paciente, a um estudo avançado que só olha o banco de dados.

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  2. O Presidente tem inúmeros erros,todos sabemos o desprezo dele com a população,entretanto eu tento comprar hidróxido cloloquina e não encontro em lugar algum.Ele aumenta o imunológico e gostaria de tomar, mas a sacanagem não deixa vender.Um remédio que antes a gente encontrava até nos postos de saúde

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