O anti-intelectualismo nos Estados Unidos e no mundo



Por Camilo Gomes Jr.
Publicado no Bule Voador, em julho de 2011

"O anti-intelectualismo tem sido uma linha contínua a serpentear através de nossa vida política e cultural, alimentada pela falsa noção de que democracia significa que ‘minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento’" -  Isaac Asimov

Como nossa formação educacional valoriza o intelectualismo?

Em 1963, era lançado nos Estados Unidos um livro que ficaria famoso, inclusive por ganhar no ano seguinte o cobiçado Prêmio Pulitzer na categoria Obra Não Ficcional. Trata-se de Anti-Intellectualism in American Life (trad. brasileira: O anti-intelectualismo nos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967), do historiador da Universidade de Columbia Richard Hofstadter (1916 – 1970). Hofstadter, é bom lembrar, no que foi talvez seu único pecadilho como historiador, foi o responsável por disseminar em outra obra sua o termo “darwinismo social” (que não fora por ele cunhado), vinculando-o a qualquer aplicação da teoria de Darwin ao campo das ciências humanas e sociais.

Seu argumento neste caso até encontrava uma justificação na primeira metade do século XX, sobretudo em face da extrapolação da teoria monística de Ernst Haeckel por parte da “ciência” nazista, a qual Hofstadter infelizmente já conhecia; porém, nos tempos atuais, só serve de munição (de festim mas barulhenta) para os críticos da psicologia evolucionista ou da adoção do paradigma evolucionista na sociologia, na antropologia, na ciência política, nas ciências jurídicas etc.

De fato, embora Hofstadter chegasse a reconhecer nessa obra sobre o “darwinismo social” que a teoria de Darwin, propriamente dita, era completamente neutra do ponto de vista político-ideológico, a verdade é que pecou por não enfatizar a distinção entre esta e as extrapolações delirantes que Spencer, Haeckel e outros dela fizeram.

Em todo caso, se tais críticas podem ser legitimamente levantas contra Social Darwinism in American Thought, 1860 – 1915 (“O darwinismo social no pensamento americano, de 1860 a 1915”. Filadélfia: University of Pennsylvania Press, 1944), o mesmo não se pode dizer da obra premiada, mencionada acima, em que o historiador investiga o fenômeno do anti-intelectualismo na cultura de seu país.

Em Anti-Intellectualism in American Life, Hofstadter destaca que, em especial na primeira metade do século XX, o vírus da aversão ao traço da intelectualidade começou a se disseminar na cultura americana, sobretudo impulsionado pelo pensamento religioso, o discurso político e a influência dos empresários sobre a sociedade e o Estado.


Foi nessa época que, segundo ele, passaram a integrar a cultura americana:

1) a superestima dos atletas colegiais e universitários (e a política das bolsas e dos créditos facilitados para os estudantes que iam bem nos esportes, mesmo que nas salas de aula fossem um desastre);

2) a distinção acentuada entre o estudante-atleta (popular) e o nerd risível e desajeitado (impopular);

3) a ideia (propagada sobretudo por políticos e militares conservadores) de que literatura e filosofia eram coisas de mulheres ou de gays, e de que homens (“machos de verdade”) deveriam se ocupar com atividades práticas e esportivas;

4) a supervaloração do conhecimento especializado, prático, monofocalizado, substituindo uma formação mais pluralista, em que, independentemente de um estudante ter afinidade com matemática e física e ser um candidato potencial a um curso de Engenharia, p. ex., teria também uma sólida formação colegial em humanidades (como ainda é comum em outras culturas, onde médicos ou cientistas da computação conseguem discorrer com propriedade sobre filosofia, literatura, política e artes);

5) uma exagerada desconfiança da ciência, motivada sobretudo pelo discurso religioso fundamentalista.

Hofstadter também chama a atenção para um outro fator interessante nessa conjuntura. A valoração, à primeira vista contraditória nesse contexto, de indivíduos geniais no campo das ciências e da tecnologia mas que, esclarecendo o aparente paradoxo, eram valorizados apenas se ou enquanto fossem politicamente neutros, do tipo que estuda, trabalha e fica sempre “na sua”.

Na verdade, a Segunda Guerra e a Guerra Fria impunham uma corrida desatinada pelo progresso científico-tecnológico; porém, dentro do país, temia-se que a ênfase nos conteúdos de humanidades poderia inspirar uma postura politicamente crítica e contestadora, já que a literatura, as artes e a filosofia sempre foram famosas por esse caráter questionador da ordem estabelecida.

Eis o que, aliás, pode explicar parte do que motivou o país a abrir os braços de forma tão acolhedora (como ainda o faz) aos gênios vindos de fora — afinal, estes são perfeitos nesse cenário, visto que trazem o tão necessário conhecimento, mas não detêm direitos políticos, como o de votar. Por fim, em seu livro, Hofstadter também destaca que os intelectuais americanos, diante dessa forte onda de aversão a tudo o que representavam, optaram não pelo enfrentamento, mas pela clausura.

Trancaram-se em seus departamentos e escritórios, e acabaram embarcando na moda da especialização insulada de seu conhecimento, em sua masturbação mental de rebuscamentos orgásticos prescindíveis, o que teve apenas o efeito drástico de afastá-los da comunidade leiga, numa espécie de divórcio, uma separação definitiva.

Pois bem! Praticamente 50 anos se passaram desde a publicação do livro de Richard Hofstadter. E o que mudou desde então lá, na terra de Obama? Segundo alguns analistas que resolvem voltar-se para essa incômoda questão, a resposta é: muito pouco.

A propósito, uns chegam mesmo a declarar que a coisa só fez piorar nessa passagem de milênio. Segundo um estudo da respeitada Associated Press-Ipsos, publicado em agosto de 2007, 1 em cada 4 americanos adultos não haviam lido um único livro no prazo de um ano inteiro.

E, dentre os que haviam lido alguma coisa, verificou-se que se tratavam majoritariamente de mulheres e idosos, sendo que as obras mais lidas, por sua vez, eram livros de temática religiosa (sobretudo confessional, não teológica) ou best-sellers — leia-se: livros como Crepúsculo, de Stephenie Meyer, que, apesar do sucesso popular, não são exatamente o que se poderiam chamar de grandes obras literárias.

Por falar em Crepúsculo, cuja (terrível) adaptação para a telona foi um sucesso de público, o cinema e a TV foram grandes aliados nessa tácita (ou, às vezes, anunciada) campanha de disseminação da aversão ao intelectualismo.

Ao longo das últimas décadas, foram produzidos um sem-número de filmes e séries em que o intelectual, o estudante aplicado e genial, é considerado o tão desprezado “loser” [perdedor] (que, só numa cultura de superexaltação do Rambo-interior, poderia ser entendido como um terrível xingamento), ao passo que o obtuso jogador do time da escola é o garanhão que todos invejam, aquele que todos querem ser.

Mas, enfim, quais as implicações dessa cultura do anti-intelectualismo no que diz respeito à postura das pessoas diante da necessidade de mudanças sociais?

Bem, quem acompanhou a crise financeira de 2008 nos EUA, para citar um exemplo, pôde testemunhar o momento em que, no Congresso, republicanos (como esperado) e democratas (para a surpresa de muitos), atendendo ao pedido do então presidente Bush, após pronunciamentos que chegaram ao ridículo de cenas de choro comovido em rede nacional e lamentações do tipo “não sei o que será do povo americano se esse projeto não for aprovado”, deram seu “Sim” ao socorro de 700 bilhões de dólares provenientes dos cofres públicos aos grandes bancos privados.

Naquele momento, parecia haver um enorme consenso, a despeito de algumas vozes dissonantes aqui, ali e acolá, de que o Estado precisava salvar o sistema financeiro dos Estados Unidos e… garantir os empregos dos cidadãos americanos (ninguém parece ter se dado conta de que a onda de desempregos continuou crescendo, mesmo depois da aprovação da ajuda aos bancos; quer dizer, ninguém, exceto os próprios desempregados).

Por outro lado, quando Barack Obama anunciou a proposta de reforma do sistema de saúde nos EUA único país desenvolvido do planeta que não oferece um amplo sistema com cobertura para todos os seus cidadãos, os quais são obrigados a pagar por planos de saúde privados, por mais que se pudessem fazer críticas a esse ou àquele ponto da reforma que se propunha, o que não fez nenhum sentido foi o coro de vozes que se ouviu de costa a costa.

O espantalho do socialismo

Milhões de americanos pobres, sem condição de acesso a bons tratamentos, sobretudo em casos de doenças mais sérias, aceitaram como verdade inquestionável as palavras de vários políticos republicanos que, defendendo os interesses dos planos de saúde privados, vieram a público dar o grande alerta: Obama estava querendo implantar o “socialismo” nos Estados Unidos! Foi o que bastou dizer para que o resto do mundo, boquiaberto, pudesse testemunhar uma multidão de cidadãos americanos protestando nas ruas contra seus próprios interesses.

O espantalho do “socialismo” havia convencido a toda aquela gente, com sua cara feia, amedrontadora, embora essas mesmas pessoas aparentemente não tenham se dado conta de que o “socialismo”, como disse Bill Maher, já existe há tempos nos EUA só que ele existe no tratamento do Estado para com os ricos de lá, como foi no caso do quebra-quebra dos grandes bancos, em 2008.

Ou seja, num país em que 45 milhões de americanos não têm nenhum plano de saúde e estão nas mãos de seu deus imaginário, se o Estado oferece uma saída, usando o dinheiro público, isso seria “socialismo”; no entanto, se bancos privados estão prestes a ficar no vermelho por conta do próprio jogo financeiro global, caso o Estado os socorra com centenas de bilhões de dólares do mesmo Tesouro Nacional, isso não é “socialismo”, mas sim a defesa dos interesses do “povo americano”. A quem esse discurso convence? Pelo visto… à maioria dos que vivem naquele país.

Ora, mas como o americano médio pode não enxergar os absurdos diante de seus olhos? Como pode não ver que são a maior economia do planeta (ao menos, por enquanto) e, ainda assim, são o único país que ainda não cuida de todos os seus cidadãos doentes? Será que eles não veem como as coisas são em outros países do antigo “primeiro mundo”? Será que não olham para a Europa? Quer dizer… Será que eles ao menos sabem como é o mundo além-mar?

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Nível alarmante de desinformação política

Segundo o historiador e jornalista investigativo Rick Shenkman, autor de Just How Stupid Are We?: Facing the truth about the American voter [“Quão estúpidos nós somos, exatamente?: Enfrentando a verdade sobre o eleitor americano”, Basic Books, 2008], embora os americanos hoje frequentem a escola e concluam ao menos o ensino médio como nunca antes na história do país, há alguma coisa errada com sua formação.

O nível de desinformação política ou sobre a realidade social de muitos de seus próprios compatriotas não é senão alarmante. E quando o assunto se volta para o mundo fora dos EUA, aí é que a ignorância geral impera de verdade. Para Shenkman, esse é um quadro simplesmente desastroso para uma democracia que se pretenda saudável.

Em seu livro, Shenkman cita que, p. ex., de cada 5 eleitores americanos, apenas 2 sabem quais são os três poderes em que se divide o Estado; apenas 1 em cada 7 sabe onde fica o Iraque num mapa-múndi, e apenas 1 em cada 5 americanos na faixa etária dos 18 aos 34 anos se mantém informado sobre acontecimentos correntes. Porém, metade da população americana sabe, p. ex., os nomes de pelo menos 2 personagens dos Simpsons.

Esse desnível no tipo de informação assimilada e ignorada explicaria por que, para citar mais um exemplo, o americano médio acreditava que a maioria das nações desenvolvidas havia apoiado a invasão do Iraque, que Saddam Hussein estava envolvido com os atentados do 11 de setembro de 2001 e que uma economia em crescimento se diagnostica pelo número de empregos disponíveis, não pelo aumento da produtividade.

Bem, eis uma entrevista do autor, discutindo sobre algumas das questões levantadas em seu livro (OBS.: Infelizmente, o vídeo não tem legendas em português):


Lamentavelmente, há muito deixou de ser um problema só dos americanos a questão do anti-intelectualismo, da aversão culturalmente disseminada por uma formação mais plural, ampliadora do conhecimento acumulado, que não torne o estudante de exatas num ignorante dos conteúdos de humanidades, nem faça dos “piolhos de livros” que estão nesta outra área arrogantes autossuficientes, que desprezam o conhecimento científico no campo das biológicas e exatas.

Hoje, a pergunta vale para todos: quantos outros países, em especial na América Latina, podem se gabar de que dão aos estudantes do ensino básico uma educação decente nos conteúdos filosóficos (incluindo filosofia política, moral e da ciência) e noções básicas de direito, despertando nestes uma consciência política crítica e oferecendo-lhes uma formação minimamente humanística que os inspire a olhar para os problemas a serem enfrentados dentro e fora de sua própria sociedade?

Por que nosso conhecimento acadêmico encontra-se também tão insulado, tão bitolado? Por que ainda temos juristas com PhD no currículo que parecem não fazer a menor ideia, p. ex., de que há estudos em genética demonstrando que a homossexualidade humana não é uma “escolha” que alguém resolveu fazer numa bela manhã de sol?

Por que nossas provas de vestibular, em especial as redações, são motivos de piada aqui e no exterior? Por que os estudantes brasileiros demonstram um dos piores desempenhos em interpretação de textos e elaboração de discursos decentemente articulados, dentre os estudantes de economias em desenvolvimento?

Por que nosso conhecimento de geografia, história e filosofia não fica a dever em nada ao fiasco americano? Por que nosso índice de consumo de livros e jornais é proporcionalmente bem menor do que os de vizinhos como Argentina, Uruguai e Chile? Por que as pessoas nestes países sul-americanos leem 5 ou 6 vezes mais livros por ano do que os brasileiros o fazem no mesmo período?

Brasil valoriza ou não a formação intelectual?

Enfim, o problema dos Estados Unidos, tal como diagnosticado pela primeira vez por Richard Hofstadter e reafirmado por outros analistas desde então, foi exposto aqui, creio que com bastante clareza, apesar da brevidade.

As implicações que tal realidade traz para uma sociedade que exige mudanças, no que diz respeito à forma como as pessoas desempenham seu papel de agentes políticos numa atmosfera de ignorância não raro voluntária, foram também aqui destacadas, espero que de forma a deixar bem evidente o problema.

Agora, ciente de que é sempre mais fácil analisar aquilo com que não estamos diretamente e emocionalmente relacionados, gostaria de encerrar este texto convidando os leitores para uma reflexão que nos é mais dura, mais difícil, ou seja, a de avaliarmos como e até que ponto o Brasil se encaixa nesse cenário e quais as consequências disso em nossa própria realidade.

Como o Brasil valoriza ou não a formação intelectual em seu sistema educacional e como nossa cultura vê esse que nos deveria ser um item básico de consumo?

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