Políticos populistas "hackearam" modelo jornalístico predominante

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O jornalismo precisa sair de sua crosta de aversão ao risco e chamar para si a responsabilidade de extrair significado do trabalho que faz. A época em que era ético promover pseudo-eventos e escândalos fabricados na capa que todos veem, a pretexto de “retratar a realidade”,  lavando as mãos das consequências ao criticá-los nas páginas internas que ninguém vai ler,  já passou. De fato, nunca existiu

Por Carlos Orsi *
Jornalista e editor da Revista Questão de Ciência

Abra-se qualquer texto analítico sobre a recente ascensão do populismo autoritário e xenófobo, na Europa ou nos Estados Unidos, e será quase inevitável encontrar menções ao papel da mídia como cúmplice ou, ao menos, “inocente útil” nesse processo. E a referência não é às mídias sociais, com seus algoritmos que, inadvertidamente, empurram propaganda fascista para gente que procura tutorial de churrasco, mas ao chamado jornalismo responsável, com suas tradições arraigadas de busca pela objetividade, neutralidade e imparcialidade.

No livro “Politics of Fear”, a linguista austríaca Ruth Wodak afirma que os escândalos protagonizados por figuras populistas jogam o sistema jornalístico numa “no-win situation”, uma situação para qual é impossível encontrar uma boa saída.

Usando, como exemplo, a divulgação de uma caricatura antissemita por um político direitista austríaco, a pesquisadora comenta: “se [os jornalistas] não reportam a afirmação ou insinuação racista (…) pode-se imaginar que concordam com ela. Se escrevem a respeito, reproduzem a fala preconceituosa, disseminando-a. Se entrevistam o político, dão a ele mais tempo no ar e a oportunidade de fazer uma inversão vítima-culpado”, manobra em que o autor de uma ofensa, quando criticado, se apresenta como “vítima” dos críticos e mártir da liberdade de expressão.

“Politics of Fear” é uma obra que merece leitura por quem se importa em pensar o Brasil: embora seu objeto explícito seja a situação da União Europeia, a análise estrutural que faz da ação e da linguagem populista de direita, na Europa, sugere, fortemente, que há método – ainda que instintivo – na loucura que, hoje, toma conta de Brasília.

A constatação de que o jornalismo-padrão, que honestamente almeja a ser sério e confiável, contém bugs estruturais que a escória política aprendeu a usar e subverter não é nova. Já aparecia, por exemplo, em “The Image”, clássico de 1961 do historiador americano Daniel Boorstin (1914-2004).

Comentando a carreira do grande populista de direita americano do século 20, o senador Joseph McCarthy (1908-1957), Boorstin escreve que “a sorte política do senador McCarthy foi promovida por jornalistas que se consideravam seus inimigos, tanto quanto pelos poucos que eram seus amigos”.

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Sobre os jornais da época em que o senador promovia sua infame “caça aos comunistas”, o historiador nota que os editores “ao mesmo tempo em que o atacavam nas páginas internas de opinião, construíam seu mito nas manchetes da primeira página. Jornalistas eram seus mais fortes aliados”. Para Boorstin, os repórteres que cobriam McCarthy eram vítimas de “objetividade indiscriminada”.

Muito do debate contemporâneo em torno do fenômeno das fake news é enquadrado pela grande mídia corporativa, de modo um tanto quanto preguiçoso e autoindulgente, como uma questão de método, processo e profissionalização.

Nesse registro, a sociedade estaria livre das notícias falsas se as pessoas voltassem a depositar plena confiança no jornalismo profissional, produzido segundo os cânones da busca de objetividade e imparcialidade. O que tanto Wodak quanto Boorstin mostram, no entanto, é que esses cânones escondem alçapões, túneis e fragilidades estruturais que gente inescrupulosa não hesita em explorar. A frase de efeito “a cura para o mau jornalismo é o bom jornalismo” perde muito de seu charme blasé quando constatamos que o “bom jornalismo” se presta muito bem ao papel de vetor de mentiras e preconceitos. 

De narrativas a fatos

“Antes de 1830, objetividade não era uma questão”, escreve o professor de Jornalismo da Universidade de Columbia, Michael Schudson, em sua história da imprensa dos Estados Unidos, “Discovering the News”. “O público esperava que os jornais apresentassem um ponto de vista partidarizado, não neutro”. 

Durante boa parte do século 19, os jornais dos Estados Unidos prosperaram e se notabilizaram por tomar partido em disputas políticas, pela promoção de polêmicas ruidosas e  por publicar “boas histórias” — isto é, narrativas emocionadas, divertidas e intrigantes de se ler, mas não necessariamente verdadeiras. Um exemplo benigno dessa tendência é a infame “Fraude Lunar” do New York Sun, que apareceu em 1835, sobre a descoberta de homens alados na Lua.

Outro exemplo: em 1890, o Chicago Tribune publicou o primeiro relato conhecido do “truque da corda indiano”. Imortalizado depois em filmes, anedotas e espetáculos diversos, trata-se de um número de mágica em que um faquir sobre por uma corda até uma nuvem no céu, e desaparece. Segundo o historiador Peter Lamont, o “truque”, na verdade, não passa de uma lorota inventada pelo jornalista John Wilkie para incrementar a circulação do Tribune. O que não impediu que gerações de antropólogos e místicos ocidentais visitassem a Índia em busca do “segredo”.

Mas nem tudo na era do “jornalismo amarelo”, como essa imprensa sensacionalista e descompromissada com os fatos era chamada, resumia-se a diversão inocente. Ilustrações (sem base na realidade) mostrando autoridades cubanas a assediar mulheres americanas, publicadas pelo Morning Journal de William Randolph Hearst, ajudaram a desencadear a Guerra Hispano-Americana de 1898.

Schudson aponta o início da era do “jornalismo baseado em informação”, em contraponto ao “jornalismo baseado em narrativas”, então vigente, a partir do padrão adotado pelo New York Times em 1896.

O modelo emergiu de uma confluência de fatores tanto mercadológicos como éticos: um jornal que quisesse ser lido e levado a sério pela elite conservadora da cidade precisaria de uma imagem “limpa”, distinta da “imprensa amarela”, trazer o máximo possível de informação correta (boa o suficiente para que os leitores a usassem em suas transações de mercado financeiro)  e ser neutra o bastante para não ofender a sensibilidade dos leitores: o New York Times almejava ser o jornal de todos os novaiorquinos ricos, não apenas dos ricos desta ou daquela facção.

Velho e Novo Testamento

Parece óbvio que um modelo de jornalismo que construa suas histórias em torno dos fatos — e não distorça os fatos para criar “boas” histórias — e que almeje à meta (provavelmente impossível e, no limite, indesejável) da neutralidade política absoluta é muito superior, do ponto de vista do interesse público, a um que não vê nada de errado em publicar mentiras e fomentar guerras. Mas, como os casos descritos por Ruth Wodak e Daniel Boorstin mostram, não se trata de um modelo livre de problemas.

Todo jornalista que já parou mais do que quinze minutos para refletir sobre que merda de profissão é esta sabe que o modelo é falho e que as falhas são perigosas, mas a maioria busca refúgio no pensamento de que ruim com ele, pior sem ele. Ou, numa paráfrase da famosa boutade de Winston Churchill sobre democracia, “o pior sistema, salvo todas as alternativas”. Se a alternativa é o retorno às fraudes lunares e à incitação ao ódio, sem dúvida. Mas será essa a única alternativa, mesmo?

Em um influente ensaio intitulado Old testament and new testament journalism, o professor de Jornalismo da Universidade de Nova York Jay Risen distinge entre o estilo de jornalismo apaixonado, fortemente partidarizado e sensacionalista que dominava a imprensa nos Estados Unidos até o início do século 20, e que ele chama de “jornalismo Velho Testamento”, e o “jornalismo Novo Testamento”atual, que se quer neutro e objetivo.

Risen é um dos pais do movimento do “jornalismo cívico” dos anos 90, que via na mídia o papel de estimular debates sobre decisões políticas e as consequências de políticas públicas, não só informar com o máximo de neutralidade possível. Ele se refere, ironicamente, ao modelo New York Times de jornalismo como view from nowhere, algo como “olhando de um ponto de vista inexistente”.

No ensaio, ele acusa o jornalismo “Novo Testamento” de ser, no geral, burocrático e covarde:

“O estilo novo testamento tem aversão ao risco, porque a franquia do entregador de notícias é tão valiosa. A missão não é mobilizar a opinião pública, mas preservar a confiança ou, dizendo de outro modo, proteger a marca. Audiências tendem a estabilizar-se. As autoridades aprendem a regulamentar sua relação com os jornalistas. O profissionalismo no jornalismo se encadeia com o profissionalismo na política e outros campos. Daí, a lista de telefones de especialistas confiáveis”.

A despeito disso, Rosen reconhece que o estilo “Novo Testamento” tem momentos heróicos, principalmente no campo do jornalismo investigativo. Mas, afinal, quantas reportagens investigativas são publicadas, para cada manchete preguiçosa produzida no melhor (pior?) estilo da “objetividade indiscriminada”, que os canalhas exploram tão bem?

A verdade é que a “aversão a risco” a que o professor de Jornalismo se refere manifesta-se de diversos modos — às vezes é um sinal saudável de humildade e ceticismo, como quando o jornalista decide voltar a checar uma informação.

Na maior parte das vezes, no entanto, assume a forma de uma espécie de reação reflexa que flerta com a pusilanimidade, como quando o repórter procura, em sua “agenda telefônica de especialistas confiáveis”, alguém que possa fornecer “aspas” – uma declaração ou frase de efeito – que lhe permita dizer o que gostaria, mas sem se responsabilizar por isso. Ou quando evita chamar declarações sabidamente falsas de erros ou mentiras; quando não contesta o entrevistado que diz uma asneira evidente; ou quando oferece espaço a celerados para que reiterem os ataques a suas vítimas, em nome do “respeito ao outro lado”.

Em seu ensaio clássico “The Public and Its Problems”, o filósofo John Dewey (1859-1952) nota que “muita gente parece supor que os fatos carregam seus significados na cara. Acumulem-se fatos suficientes, e a interpretação estará lá, encarando você”.

Dewey se apressa em apontar que essa ideia — que, ao menos a mim, parece ser a filosofia rasa por trás doutrina da “objetividade indiscriminada” — é falsa. Mesmo as ciências físicas, escreve ele, requerem métodos experimentais, técnicas de pesquisa e modelos matemáticos para extrair significado dos fatos dados pela natureza.

“Tire das ciências físicas seus equipamentos laboratoriais e sua técnica matemática, e a imaginação humana poderá delirar com as mais variadas teorias interpretativas, mesmo se supusermos que os fatos brutos permanecem exatamente os mesmos”, escreveu.

O jornalismo precisa sair de sua crosta de aversão ao risco e chamar para si a responsabilidade de extrair significado do trabalho que faz. A época em que era ético promover pseudo-eventos e escândalos fabricados na capa que todos veem, a pretexto de “retratar a realidade”,  lavando as mãos das consequências ao criticá-los nas páginas internas que ninguém vai ler,  já passou. De fato, nunca existiu. 

* Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência, e é coautor do livro "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto)


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O simples fato de vivermos no século XXI já nos faz beneficiários da ciência e dos seus frutos, mesmo que a gente não se dê conta dessa verdade. Os objetos que nos dão conforto, que nos dão prazer, que nos transportam, que nos emocionam, que nos informam (até este livro) só existem da forma como existem por conta dos conhecimentos científicos. O cidadão que ignora fatos científicos básicos pode se tornar presa fácil de curandeiros e charlatões, gente que mente para os outros e, não raro, para si mesma.

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