Teorias da conspiração podem matar

Imagem de John Rosa por Pixabay


Por Carlos Orsi

Parte do fascínio do estudo de teorias da conspiração absurdas vem de descobrir o que elas revelam sobre as fragilidades mentais do Homo sapiens: como relutamos em aceitar o acaso e a coincidência como dois fatores essenciais, quando não decisivos, de nossa história, como somos predispostos, por natureza, a enxergar padrões e intenções onde só há ruído. 

Para nós, é quase automático pressupor que tudo o que acontece ao nosso redor corresponde à vontade ou às emoções de algo, ou alguém: não é por outra razão que metáforas como “o carro não quer pegar” soam tão naturais. Há hipóteses que ligam essa heurística – esse “atalho mental” – de atribuir eventos fortuitos a vontades externas à evolução do ser humano como um animal social (detectar as intenções e emoções do resto da tribo é importante, afinal), mas mesmo coisas boas podem ir longe demais.

Uma limitação desse olhar biológico/psicológico/filosófico sobre elucubrações conspiratórias é que ele abstrai o fato de que, fora do laboratório de nossas poltronas e mentes, crenças infundadas têm consequências muito reais.  

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Atrocidades

Quando, em 1995, Timothy McVeigh detonou uma bomba em um prédio público de Oklahoma City, matando 171 pessoas – o pior atentado terrorista da história dos Estados Unidos, pré-11/9 – ele acreditava estar combatendo uma conspiração insidiosa, a Nova Ordem Mundial, orquestrada pelas elites econômicas globais para impor uma ditadura socialista ao mundo. O ridículo de associar as “elites econômicas globais” a “socialismo” não deve nos distrair do fato de que essa crença maluca levou a homicídio em massa.

Outros casos, mais recentes, vão do (involuntariamente) cômico ao trágico. Em 4 de dezembro de 2016, Edgar Maddison Welch invadiu uma pizzaria em Washington, DC, armado com um rifle de assalto, para libertar as criancinhas que, segundo a teoria conspiratória conhecida como “pizzagate”, estariam sendo mantidas ali, como vítimas de uma rede de pedofilia comandada por Hillary Clinton. E há um ano, em 15 de março de 2019, um australiano carregando cinco armas de fogo matou 50 pessoas em duas mesquitas da Nova Zelândia, além de ferir várias outras. 

O perpetrador desse morticínio deixou um manifesto, intitulado A Grande Substituição (“The Great Replacement”), onde denuncia uma conspiração para “substituir” a “raça branca cristã” por africanos e asiáticos. Nos EUA, teorias da conspiração que alegam que os massacres cometidos com armas de fogo em escolas seriam, na verdade, encenações – para virar a opinião pública contra o “direito” de portar armas – levaram famílias de vítimas a serem perseguidas e hostilizadas. Alguns dos propagadores dessa mentira chegaram a ser presos ou receberam pesadas multas.

Teorias e conspiração infundadas podem ter – e têm – impacto global. Em 2003, três estados do norte da Nigéria decidiam boicotar uma campanha de vacinação contra a pólio. Essa decisão representou um sério golpe contra o esforço de erradicação global da doença, que poderia ter sido a segunda praga eliminada da face da Terra por vacinação – a primeira foi a varíola, na década de 1970. Ainda hoje, 17 anos depois, a pólio não foi erradicada, e a varíola segue como a única doença apagada do mundo por iniciativa comum da humanidade. 

O boicote foi provocado por uma confluência de motivações políticas, ideológicas e religiosas, que se consolidaram numa teoria da conspiração – a de que a vacina era, na verdade, um plano genocida do Ocidente, que as doses continham ou o vírus HIV, ou iriam tornar as meninas nigerianas estéreis.

O milenar antissemitismo europeu também se alimenta de conspirações imaginárias, desde a “calúnia de sangue” medieval – segundo a qual judeus sequestravam criancinhas cristãs para finalidades inomináveis – passando pelo horror aos “financistas judeus” do século 19 e chegando aos “Protocolos dos Sábios do Sião”, uma das fraudes literárias mais notórias do século 20, segundo a qual há um plano judaico de dominação mundial. 

O texto inspirou Adolf Hitler: no Mein Kampf, ele escreve que o fato de a imprensa insistir que os “Protocolos” são falsos “representa a melhor prova de que são verdadeiros, afinal”. 

Não é exagero afirmar que fantasias conspiratórias absurdas pavimentaram o caminho para o Holocausto. Relembrando a frase de Voltaire, sempre muito citada, mas que nunca parece ser levada tão a sério quanto deveria, quem induz as pessoas a acreditar em absurdos também pode induzi-las a cometer atrocidades. 

Nerdologia explica como nascem as teorias da conspiração


Política e Mídia

O nazismo representou um caso extremo de manipulação política via confabulação conspiratória, mas não é preciso ir tão longe para ver a técnica funcionando. O uso deliberado de conspirações na política costuma envolver uma acusação feita sem provas, e o subsequente uso da falta de provas como evidência positiva – “se as provas não existem, é porque eles as destruíram” ou, “as provas existem, mas não posso apresentá-las agora por causa deles”.

Quando o senador americano Joseph McCarthy (1908-1957) fez seu famoso discurso afirmando ter uma lista de comunistas infiltrados no governo federal, a verdade era que a lista não existia: em seu discurso inicial sobre o assunto, ele afirmou que seriam mais de 200 os tais comunistas ocultos, mas ao registrar a fala nos anais do Senado, usou outro número, 57. Em outras ocasiões, disse 81. E assim por diante.

A sombra da conspiração comunista evocada por McCarthy manteria a sociedade americana sob tensão – e provocaria diversas injustiças – por muitos anos. Em seu livro “Post-Truth”, o jornalista britânico James Ball critica a imprensa americana da época por dar ampla repercussão às acusações de McCarthy, amplificando seu impacto. 

“McCarthy constantemente buscava – e conseguia – manchetes baseadas no material mais tênue: promessas de novas alegações que ainda seriam feitas, números inventados, calúnias e ofensas contra quem tentasse embaraçá-lo”, escreve Ball.

Todas essas técnicas, claro, continuam em uso pelo mundo, inclusive em Brasília, e a imprensa segue tão vulnerável a elas quanto antes, presa ao cacoete de que “repercutir” a fala de autoridades é mais importante do que determinar se as autoridades falam a verdade.

A vulnerabilidade estrutural das mídias tradicionais às elucubrações conspiratórias, principalmente as que partem de autoridades públicas, é agravada pela dinâmica própria das redes sociais e da chamada “nova mídia”.  

Ética da crença

Enquanto as sociedades modernas buscam soluções sistêmicas para o problema, indivíduos podem colaborar informando-se sobre os sinais do jeito conspiratório de ser e de pensar. 

Os mais salientes são as acusações vagas, sem provas ou com a promessa de “provas futuras” que nunca chegam; a unção de grandes vilões universais responsáveis por “tudo isso que está aí”; a aceitação de “fatos” duvidosos só porque todo mundo ao nosso redor parece aceitá-los; e as conexões, de lógica vaga e sem evidência, elaboradas a posteriori, entre eventos desconexos que teriam sido orquestrados para redundar num certo estado de coisas (“o cara morreu de camisa vermelha, e dizem que foi acidente, mas veja só, em 1976 ele tinha brigado com um sujeito no bar e deixado o outro com a camisa toda ensanguentada!”). 

É ainda necessário fazer o esforço de detectar esses sinais nas comunicações que recebemos, e em nós mesmos. O chamado “viés da terceira pessoa” – “eu” e “você” somos espertos, “eles” é que são tontos e se deixam manipular – é insidioso.

Quando o matemático e filósofo britânico William K. Clifford escreveu, em seu ensaio de 1876, A Ética da Crença, que “é sempre errado, para qualquer um e em qualquer lugar, acreditar em algo com base em evidência insuficiente”, seus contemporâneos acharam que ele estava exagerando. Hoje, o imperativo de Clifford talvez tenha se tornado um requisito civilizacional de sobrevivência.

Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência


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O simples fato de vivermos no século XXI já nos faz beneficiários da ciência e dos seus frutos, mesmo que a gente não se dê conta dessa verdade. Os objetos que nos dão conforto, que nos dão prazer, que nos transportam, que nos emocionam, que nos informam (até este livro) só existem da forma como existem por conta dos conhecimentos científicos. O cidadão que ignora fatos científicos básicos pode se tornar presa fácil de curandeiros e charlatões, gente que mente para os outros e, não raro, para si mesma.


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