Mulheres ampliam participação em bandas e orquestras de frevo

Orquestra 100% Mulher. Imagem: reprodução YouTube

O Carnaval do Recife ganhou um dia dedicado às mulheres no Marco Zero, em 2020. No sábado de Zé Pereira, a programação do principal palco da folia da capital terá como atrações a banda A Dita Curva, Nena Queiroga, Gaby Amarantos e Elza Soares. No universo das bandas e orquestras carnavalescas, o espaço ainda é dominado pelos homens. Mas a situação está mudando com a crescente participação de mulheres entre as instrumentistas e mesmo como regentes. 

É o caso de Carmen Pontes, clarinetista, musicoterapeuta e maestrina da Orquestra 100% Mulher, criada em 2003. Carmen está na música há 35 anos, concluiu o curso de regência no Conservatório Pernambucano de Música e licenciatura em música e pós-graduação em musicoterapia, na UFPE. Já trabalhou com os maestros Duda e Ademir Araújo - grandes nomes do frevo. Atualmente, além de estar à frente da 100% Mulher, tem sido convidada pelo maestro Spok a dividir a regência no Orquestrão que anima o Arrastão do Frevo e marca o encerramento oficial do Carnaval do Recife, quando o dia já está raiando, no Marco Zero.

Orquestra 100% Mulher em ação


O nascimento da 100% Mulher surgiu como desdobramento do trabalho que Carmen Pontes e a também clarinetista Elizabete Bezerra realizavam com o quarteto feminino Lá Menor. “Sentimos a necessidade de formar uma orquestra feminina de frevo porque, até então, as mulheres não tinham espaço. No início foi difícil. Fomos buscar musicistas no interior, nas bandas marciais e até nas igrejas”, recorda. O esforço foi recompensado com o convite para, em 2004, integrarem a programação Carnaval do Recife. “A partir daí, mais instrumentistas e grupos femininos foram surgindo. Hoje, trabalho com 17 meninas durante o ano todo e com 30, durante o período carnavalesco. As idades variam de 20 a 45 anos”, pontua.

Lourinha Nóbrega é saxofonista e maestrina. Foto: Facebook da artista

Saxofonista e líder de orquestra

Lourdinha Nóbrega é outra que vem batalhando para garantir mais espaço para mulheres no universo musical e carnavalesco do Estado. A saxofonista de 43 anos se apresenta no carnaval desde os 13. Ela já tocou com Claudionor Germano, Pastoril do Velho Xaveco, Comadre Fulorzinha e maestros Ademir Araújo, Júlio Rocha e Spok (regendo o Orquestrão, por dois anos). A moça comanda seus próprios conjuntos: a Maestrina Lourdinha Nóbrega e Orquestra - acompanhada por músicos da Banda da Polícia Militar de Pernambuco - e a Orquestra Só Mulheres, a qual completa 14 anos em 2020.

MAIS sobre o Carnaval do Recife

Ao falar sobre seu envolvimento e das companheiras da música, dois sentimentos se destacam em seu discurso: o de satisfação, por estar contribuindo para a valorização da cultura pernambucana e o de resistência, por atuar em um meio ainda muito dominado por homens e por visões bastante machistas.

“Os grupos femininos sofrem preconceito e somos desacreditadas até o momento em nosso trabalho seja visto. Só assim para receber um crédito mínimo. Somos espelhos, exemplos para outras mulheres e deveríamos ter mais atenção e apoio”, enfatiza Lourdinha.

No ritmo do frevo

Nira Santos toca bateria há 24 anos e há uma década no carnaval - no qual já dividiu o palco com Luciano Magno e Kelly Oliveira. Este ano, ela se transformará em muitas para poder dar conta da agenda recifense de Momo, empunhando as baquetas com Andreia Luiza, Denis Faz, Orquestra 100% Mulher, Orquestra Só Mulheres, Banda Viruz. Nira ainda encontrou tempo para dar um pulinho em Salvador, para cantar com a cantora Claudya Costta. A baterista e cantora também integra o quarteto recifense de rock e blues Vanilla Blues, formado só por mulheres.

A baterista, cantora e compositora Nira Santos caindo no frevo


Para Nira, tocar no Carnaval do Recife é estar em casa. Sobre a participação das mulheres na festa, ela faz questão de mencionar a quantidade crescente de ótimas instrumentistas. Para ela, essas profissionais merecem e devem ganhar mais espaço em bandas e orquestras. "Se em cada grupo (musical) com cinco pessoas, duas fossem mulheres, já seria muita coisa. Daria uma cara, um sentimento diferente à própria música. O caminho a percorrer ainda é muito longo. E eu tô dentro. Sou mulher, sou brasileira, guerreira que não desiste e não vai desistir nunca."


Lourdinha Nóbrega, Carmen Pontes e Milla Bigio tomam a frente de orquestras de frevo itinerantes no carnaval do Recife, Brasil, onde a música é dominada por homens. As musicistas são tema do artigo da edição de fevereiro de 2018, n. 206, da revista Continente.



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