Estamos vivendo uma epidemia de depressão e transtornos de ansiedade?


Imagem de Grae Dickason por Pixabay



Por Adriano Facioli
Psicólogo formado pela USP, mestre e doutor em psicologia clínica pela UnB, professor na Escola Superior de Ciências da Saúde do Distrito Federal

É importante que essa seja a pergunta inicial, porque há também a possibilidade de que estejamos vivendo um contexto em que o nível de patologização da vida cotidiana seja maior do que outrora. Ou seja: é possível que esteja ocorrendo um fenômeno de superdiagnosticalização.

Porém também é possível que nossa sociedade, nossos estilos de vida, estejam contribuindo para o aumento de sintomas de depressão e ansiedade. Se isso, em alguma medida, estiver ocorrendo, penso que existem alguns fatores que podem estar contribuindo. E os três grandes fatores que costumam estar associados a uma série de males dos quais padecemos atualmente são: o contexto histórico da modernidade, a urbanização e a industrialização.

Esses três grandes fatores possuem, cada um deles, uma miríade de extensões e consequências, sobre as quais seria impossível dar um tratamento mínimo em um texto tão breve como o que estou escrevendo agora. Porém, mesmo pecando pela brevidade, não me furtarei de enunciar alguns pontos que concebo como nevrálgicos.

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Com o advento da modernidade, houve uma diminuição muito grande do peso da comunidade e da família na determinação de como as pessoas serão, ou qual destino terão na vida. E esse processo de diluição desse peso é crescente, progressivo. Vem perdendo consistência e se liquefazendo há cerca de 500 anos.

O desamparo é o preço da modernidade

Quanto maior a força da comunidade e da família em nossa formação e na determinação de nosso destino, menor o espaço para a liberdade (na forma como a concebemos). Contudo, quanto maior essa liberdade, maior o espaço para sentimentos de solidão e desamparo. Tanto que é notória a expressão, no meio acadêmico, de que o desamparo é o preço da modernidade. Obviamente que não é o único preço, mas isso deixa claro que a modernidade, e a liberdade, não são coisas que conquistamos sem custos.

Por outro lado, quando nos atentamos mais para a questão da urbanização, por exemplo, o que atualmente mais tem me chamado a atenção é a questão da crescente diminuição de biodiversidade, a qual inclui também a microbiodiversidade. Se existe um processo crescente de extinção das mais diversas espécies, esse processo também, de alguma forma, acontece nos centros urbanos, em nível microbiológico. A microbiodiversidade das cidades é muito menor do que a existente em zonas de mata, ou zonas rurais onde existe criação de animais.

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Há atualmente todo um campo de pesquisas, o qual é usualmente denominado como ecologia médica, a tratar da importância dos microbiomas em nossa saúde. Nosso organismo depende imensamente da diversidade das bactérias que nos habitam, e provavelmente essa dependência também existe em relação a outros seres vivos, tais como algumas espécies de fungos e helmintos.

Dentre as enfermidades crônicas que infernizam o homem moderno, a inflamação crônica certamente possui também um papel importante. Há evidências de processos inflamatórios crônicos associados a uma série de transtornos mentais. E as teorias que estão unificando o campo de investigação das doenças inflamatórias crônicas são todas relacionadas à nossa relação ecossistêmica, mutualística, com micróbios e algumas espécies de helmintos.

Processos de individualização fortalecem a liberdade, mas constroem muros

E um dos grandes problemas é que os processos de urbanização e de industrialização não são benéficos à microbiodiversidade, assim como também não costumam contribuir para uma vida comunitária mais viva e ativa. Os processos de individualização fortalecem a liberdade, mas também constroem muros, facilitando o isolamento social. E os antibióticos salvam vidas, porém seu uso indiscriminado representa uma ameaça séria ao equilíbrio ecossistêmico dos microbiomas.

E a tudo isso também podemos associar a possibilidade da prevalência, atualmente, de modos de vida que valorizam excessivamente a vivência do prazer sem esforço, ou até mesmo uma desvalorização de qualquer evento que possa gerar algum tipo inevitável de sofrimento ou dor. A cultura do menor esforço, se aplicada a tudo o que existe, pode fazer com que, em muitos aspectos de nossa vida, deixemos de realizar uma série de atividades que são fortalecedoras para nosso organismo como um todo.

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Fatores importantes para a saúde, inclusive a mental

A exposição de nosso sistema imunológico a um microbioma rico, diversificado, é fortalecedora desse sistema. Nossa exposição controlada (devidamente dosada) a uma série de eventos aversivos é fortalecedora de nossa capacidade de trânsito e exploração do mundo. E a obtenção de prazer, sem a realização de qualquer tipo de esforço ou atividade física, é enfraquecedora. Porque provavelmente a melhor e mais saudável noite de sono seja aquela que foi obtida após um dia onde houve atividade física, luz solar e alimentação adequada.

E assim nos remetemos a alguns outros fatores, que julgo como muito importantes para a saúde, como um todo, que são: luz solar; espaços abertos e ventilados; o contato e a imersão em ambientes naturais; uma alimentação diversificada, rica em vegetais e fibras, e atenta para o excesso de carboidratos simples.

Concebo que os fatores enunciados nesse breve texto são todos muito importantes para nossa saúde, como um todo, e obviamente também para nossa saúde mental. Não consigo pensar em saúde mental de modo desvinculado dessas questões.

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