Por Marcus Preto
Desde que incluiu a música Rock‘n’Roll, de sua autoria, no repertório de seus shows, há cerca de seis meses, Nando Reis experimenta a sensação mais cara a que têm direito os grandes atores de teatro: o aplauso em cena aberta. Nos mais diferentes estados do país e em contextos diversos, o cantor vem sendo invariavelmente ovacionado pelas plateias que escutam a canção em primeira mão.
O fenômeno aponta identificação imediata do público com as múltiplas reflexões - políticas, sociais, comportamentais, afetivas - expostas pelo artista nos quase nove minutos de duração da música. Agora, Rock‘n’Roll ganha sua gravação oficial.
Produzida por Pupillo, a faixa foi registrada por Alexandre Fontanetti nos estúdios Space Blues, em São Paulo, em julho passado. Tem o próprio Pupillo na bateria, Jack Endino e Walter Villaça nas guitarras, Lucas Martins no baixo e Alex Veley no hammond e no piano.
O mote de Rock‘n’Roll surgiu em uma noite de domingo, a partir de um diálogo de Nando com o psicanalista Luiz Tenório Oliveira Lima. O amigo comentava do baixo astral que o momento sombrio do país tem imposto sobre as pessoas, individual e coletivamente. Tenório tinha passado aquela manhã imerso em seus livros de filosofia, à procura de alento.
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“Pelo menos eu ainda tenho meus gregos. E você, o seu rock‘n’roll”, concluiu. O roteiro começava a nascer ali: “Uns creem no Gênesis, outros na Teoria da Evolução/ Buscando sossego, ele lê os gregos, Hesíodo e Platão/ Mas eu ainda tenho o meu rock‘n’roll”.
Embora haja muito amor espalhado por suas bem costuradas 32 estrofes, Rock‘n’Roll não é propriamente uma canção romântica como as que se tornaram os maiores sucessos de Nando nos últimos anos. Mas o estilo tão pessoal do compositor fica evidente aqui por outras duas características.
A primeira é de ordem estética: trata-se de uma canção longa-metragem. E é possível chamá-la assim não somente pela fartura da letra, mas também - e sobretudo - pela narrativa absolutamente cinematográfica. É um filme que o ouvinte acompanha do começo ao fim.
Nando é mestre no assunto, como já ficou comprovado em “Diariamente” e “Pré-Sal”, entre outras grandes canções que evidenciam seu amor por Bob Dylan e pelas músicas longas de Caetano Veloso, como “O Estrangeiro” e “Ele me Deu um Beijo na Boca”.
A segunda característica é de ordem conceitual: trata-se de um petardo, de alto teor crítico, com filiação em clássicos como “Igreja”, “Nome aos Bois” e “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas”, compostos nos tempos de Titãs.
ROCK 'N' ROLL
(Nando Reis)
Em algum momento virou o tempo
um deslizamento
derramou cimento
entre a loucura e a razão
já não há silêncio
tudo é barulhento
muito movimento
pouco pensamento
sobra opinião
todos similares
carregam nas mãos seus celulares
rostos singulares
se tornam vulgares
em meio a multidão
Mas eu ainda canto o meu rock ’n’ roll
Eu ainda canto o meu rock’n’roll
detritos nos mares
nos rios nos lagos
todos infestados
com enxofre, chumbo e ácido
o imundo Licor Preto
garrafas pet
cápsulas de Nespresso
como espectros
durante séculos
vagarão boiando pelos oceanos
seus esqueletos
Não há nenhum ninho
na Grande Ilha de Lixo do Pacífico
como um urso-polar flutuando
num bloco de gelo
a beira da extinção
eu ainda canto o meu rock ’n’ roll
eu ainda canto o meu rock ’n’ roll
Conservadores e liberais
usam as redes sociais
pra divulgar os seus boçais
ideais medievais
como se fossem Os Dez Novos Mandamentos
em presídios superlotados
homens trancafiados
sendo decapitados
seus corações arrancados
já não causam mais nenhum
estranhamento
perdeu seu emprego
quando revelaram seu segredo
morrendo de medo foi crucificado
com desprezo como traidor
mas ele ainda tem o seu rock ’n’ roll
ele ainda tem o seu rock ’n’ roll
pastores e censores
delatores, promotores
senadores, corruptores
grandes trocas de favores
na maior hipocrisia e desfaçatez
as transações tenebrosas
das obras portentosas
roubam somas vultosas
bocas gananciosas
esperando cada uma a sua vez
é crime o aborto
mas não é o roubo
de um bilhão
por um pacote de biscoitos
ele passou mais de 20 anos na prisão
mas ele ainda tem o seu rock ’n’ roll
ele ainda tem o seu rock ’n’ roll
todos de vermelho
comungam de joelhos
são fartos em conselhos
mas não olham pro espelho
evitando o constrangimento
da própria contradição
vaca amarela
guardou a panela
e a camisa amarela
saiu da janela
Onde foi parar aquela balela
da fúria e indignação?
não tenho as certezas
dos hinos que grita a multidão
mas finco a bandeira do arco-íris
viva a liberdade de expressão!
sertanejo, gospel, hip-hop, choro
samba, funk e pagode, rap, rock ’n’ roll
a polícia dos costumes
chafurdada no estrume
manipula o seu cardume
acendendo o vagalume
aumentando o volume
da sirene odiosa da repressão
Com uma mão na Bíblia outra no coldre
repetindo seu slogan
“dente por dente, olho por olho”
“bandido bom, bandido morto”
parece um contrassenso o argumento que armamento é proteção.
tudo é transgênico no alimento que comemos
mas negros, travestis e transgêneros
são assassinados, humilhados,
e tratados com discriminação
com eles que eu canto esse rock ’n’ roll
é com eles que eu canto esse rock ’n’ roll
toda nudez é inocente
até que a mente indecente
dessa gente doente
de língua maledicente
transforme a inocência
da nudez da gente
somente em perversão
se deus fosse consultado
qual seria o resultado?
escolheria algum dos lados?
dos inimigos tresloucados
Lunáticos, fanáticos
por suas crenças ou religião
Uns crêem no Gênesis
outros na Teoria da Evolução
buscando sossego
ele lê os gregos
Hesíodo e Platão
mas eu ainda tenho o meu rock ’n’ roll
eu ainda tenho meu rock ’n’ roll
na Primavera
me disse a vera
“eu vou, não me espera”
abriu-se uma cratera
onde havia terra
ela era a atmosfera
e o meu chão
e eu sonho com ela
eu preciso dela
sou louco por ela
a vida sem ela
É incongruência, desolação
o mundo não é mais o mesmo
em que eu nasci
mas eu continuo curando a tristeza
com a beleza de uma canção
por isso ainda canto o meu rock ’n’ roll
eu ainda canto o meu rock ’n’ roll
eu canto, eu canto o meu rock ’n’ roll
eu ainda canto, eu canto o meu rock ’n’ roll
e eu ainda canto, eu canto, eu canto o rock ’n’ roll
eu ainda canto, eu canto, eu canto.
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FICHA TÉCNICA:
Nando Reis - voz
Pupillo - bateria
Lucas Martins - baixo
Walter Villaça - guitarra
Jack Endino - guitarra
Alex Veley - hammond e piano
Produzido por Pupillo
Gravado e mixado nos estúdios Space Blues por Alexandre Fontanetti
Engenheiro Adicional: Leandro Henrique
Masterizado por Carlos Trilha no Estúdio Órbita

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