Psicanálise é ciência?

Sigmund Freud, o pai da psicanálise. Foto: reprodução internet

O presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia, Ronaldo Pilati, discorre sobre o tema

Por Ronaldo Pilati*
Revista Questão de Ciência

Título original: A psicanálise e o infindável ciclo pseudocientífico da confirmação

Psicanálise. Imagino que o nobre leitor forme uma representação ou imagem mental quando esta palavra é apresentada. É provável que você já tenha assistido ou lido, em algum veículo de comunicação, uma reportagem em que um profissional, autointitulado psicanalista, é o especialista consultado para tratar de algum assunto. Quem sabe, em sua experiência pessoal, já tenha se analisado com um psicanalista, ou conheça algum parente ou pessoa próxima que o tenha feito.

No imaginário popular, profissionais de minha área de formação, Psicologia, são frequentemente confundidos com psicanalistas, e não é incomum que as pessoas imaginem que no consultório do psicólogo clínico, que trabalha com atendimentos individualizados, a principal peça do mobiliário seja o divã, aquele sofá indissociavelmente vinculado a representação coletiva da psicanálise. Não se confunda: o aspecto mais importante que a Psicologia partilha com a psicanálise é a história.

A psicanálise tem enorme apelo popular, contando com espaço de interlocução significativo em diversos setores da sociedade, como nas artes e na educação, e ainda possui, também, espaço dentro das instituições científicas. Todas essas inserções imprimem à psicanálise diversas características, dentre as quais a ideia de que seja uma abordagem científica a respeito da mente humana.

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Essa ideia é reforçada pela presença da psicanálise em diversos departamentos de universidades, ainda que o processo de formação psicanalítica ocorra fora das instituições científicas e universitárias, nos institutos de psicanálise espalhados pelo mundo afora.

Mas a psicanálise é ciência? Seria relevante responder a essa pergunta? As respostas diretas a essas duas perguntas são, respectivamente: não e sim.

Agora, explico minhas respostas. A psicanálise, com sua estrutura de concepção sobre a mente humana, bem como o conjunto de desdobramentos do pensamento que nasceu da psicanálise, o que genericamente é nomeado de abordagens psicodinâmicas, partilham do caráter não-científico dessa perspectiva de compreensão.

Já, ao menos, na década de 1940 o filósofo Karl Popper, o nome mais importante da filosofia da ciência no século 20 e o sistematizador da ideia de falseacionismo, fundamental para demarcar o que é e o que não é ciência, utilizava a psicanálise como exemplo de conhecimento infalseável e, portanto, não científico. Ou seja, essa classificação da psicanálise como não-ciência não é recente. A característica de ausência de atitude falseacionista continua sendo replicada pelos psicanalistas na atualidade.

Basta abrir qualquer revista “científica” que publique artigos psicanalíticos que fica evidente o esforço confirmatório que a maioria dessas produções possui, seja pela maneira como os objetivos de pesquisa são estruturados, pelo emprego de métodos de investigação incapazes de produzir evidências de desconfirmação ou, o que é mais frequente, pela combinação das duas estratégias.

O espírito básico do pensamento científico é a busca de formas novas e mais acuradas de compreensão da realidade, o que demanda o contínuo trabalho de confronto entre ideias, evidências e fatos, na busca de meios para testar nossas ideias e determinar se são falsas, indo aonde as evidências levem, promovendo espaço para melhoria do entendimento e para o avanço tecnológico.

A ação do pensamento psicanalítico é justamente o contrário, pois não abre espaço para testar concepções, muito menos para a produção de evidências empíricas que permitam concluir que as afirmações da doutrina foram falseadas. 

Do ponto de vista do desenvolvimento das ciências cognitivas e comportamentais ao longo do século 20, e especialmente após a revolução neurocientífica da década de 1990, é fato que a ciência reviu basicamente tudo o que se acreditava saber sobre mente, cérebro e comportamento. 

Aquilo que se sabia na época em que Freud postulou as bases do modelo psicodinâmico, no final do século 19 e princípio do século 20, é muito diferente do que sabemos hoje, graças ao avanço gradual e sequencial do conhecimento científico, calcado no pensamento falseável da psicologia e das neurociências.

Talvez o maior problema do movimento psicanalítico seja o autoalijamento do pensamento científico, ao longo desse mais de um século de história, ficando cada vez mais marginal à ciência. A concepção proposta pelo modelo psicodinâmico de Freud e seus discípulos, relevante para alguns segmentos da sociedade no princípio do século 20, perdeu seu sentido científico de existência nas últimas décadas, a não ser pelo valor histórico, como parte da evolução do estudo moderno do comportamento humano.

Como lembrava o saudoso Carl Sagan, a ciência desperta um sentimento sublime de admiração, bem como a pseudociência.

Mas por que seria relevante classificar e diferenciar ciência de psicanálise? Ao longo do século 20, alguns pensadores psicanalistas defenderam a ideia de que não seria necessário classificar a psicanálise como ciência, ainda que Freud tenha esposado essa necessidade em diferentes textos. Tentativas históricas de classificação da psicanálise como ciência, algo defendido por seu pai fundador, e a ampla vinculação dessa perspectiva a instituições científicas sempre fecundaram, no imaginário popular, uma concepção científica da psicanálise. E isso ainda perdura.

Quando, por exemplo, boa parte da população associa a psicologia diretamente à psicanálise, então há consequências relevantes na classificação implícita feita, de que psicanálise se trata de ciência. Como lembrava o saudoso Carl Sagan, a ciência desperta um sentimento sublime de admiração, bem como a pseudociência.

População e o baixo grau de como opera o pensamento científico

Tendo em vista o baixo grau de compreensão pública de como opera o pensamento científico em nossa população, os efeitos de práticas e pensamento pseudocientífico são amplamente difundidos. Quando a psicanálise ocupa nichos e espaços na sociedade, então torna-se relevante responder à segunda pergunta desse texto.

Muito temos discutido, inclusive aqui na Revista Questão de Ciência, sobre o impacto social do emprego de práticas pseudocientíficas nas mais diversas áreas das atividades humanas. Por exemplo, todo o tipo de escolha sobre estratégia terapêutica, visando a prevenção ou o tratamento da saúde, deve ser baseado em evidências. Isso vale para a homeopatia, cromoterapia e as tantas outras práticas pseudocientíficas que ganham os “simpáticos” qualificativos de complementares e integrativas. Na verdade, esses qualificativos escamoteiam o fato científico relevante de que tais práticas não possuem evidência empírica favorável de eficácia.

O mesmo raciocínio deve ser aplicado à psicanálise. A população deve ser informada de que, quando alguém opta por uma psicoterapia com essas características, a opção feita é por algo que não tem evidências de efetividade a apresentar.

A presença de evidências científicas, metodologicamente robustas e favoráveis ao funcionamento de uma prática, infelizmente, nunca foi condição necessária para o seu sucesso de público. Mas uma coisa que caracteriza essas práticas é sua constante tentativa de parecerem científicas, com discursos e formas de organização social que mimetizam as formas e aparências da ciência, em busca daquele “sublime sentimento de admiração”. A psicanálise não é diferente, com suas associações locais, nacionais e internacionais, revistas e outras estratégias para manter sua comunidade mimetizando comunidades científicas.

No caso da psicanálise, inclusive, há um processo de formação que envolve milhares de pessoas e muitos milhões de reais anualmente, perfazendo um enorme mercado. Como toda prática pseudocientífica, especialmente na área de saúde e adjacências, existe um ávido público consumidor que alimenta a cadeia, incentivando a entrada de novos profissionais e a ampliação do mercado.

*Ronaldo Pilati é doutor em Psicologia. Presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia. Professor do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB). Autor do livro “Ciência e Pseudociência: Por que acreditamos apenas naquilo em que queremos acreditar.”


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"Ciência e pseudociência: por que acreditamos naquilo em que queremos acreditar"
por Ronaldo Pilati


Você, ser racional, já se pegou acreditando em superstições ou qualquer coisa sem nenhuma evidência científica? Pois é, isso é muito mais comum do que se imagina, pois somos máquinas de crenças, que antes de analisar criticamente, acreditamos ou desacreditamos de forma automática e só mais tarde procuramos raciocinar sobre a questão. 

E como combater essa tendência e não passar vexame espalhando fake news por aí? A resposta está neste livro do psicólogo e pesquisador Ronaldo Pilati: adquirir uma postura científica de compreensão do mundo. 

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por Carl Sagan


Assombrado com as explicações pseudocientíficas e místicas que ocupam cada vez mais os espaços dos meios de comunicação, Carl Sagan reafirma o poder positivo e benéfico da ciência e da tecnologia para iluminar os dias de hoje e recuperar os valores da racionalidade. 

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por Michael Shermer 


Poucos podem falar com mais autoridade pessoal das crenças humanas do que Michael Shermer. Ele conta que se tornou cético depois de uma odisseia de dez anos pelo mundo da saúde alternativa e das terapias para melhorar a aptidão física. 

Em seu livro, Shermer aborda sob uma ótica estritamente científica temas como a negação do Holocausto, o criacionismo, as experiências de quase morte e a paranormalidade. Segundo ele, nada supera o método científico, que envolve a obtenção de dados para formular e testar as explicações dos fenômenos naturais, desenvolvido inicialmente nos séculos XVI e XVII. 

Para Shermer, as pessoas acreditam em coisas estranhas porque faz parte da natureza humana procurar padrões, conexões de eventos, mesmo onde na verdade não existe nada. (Texto da Amazon)

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