Epidemia de transtornos mentais


Imagem de Free-Photos por Pixabay

Por Adriano Facioli
Psicólogo formado pela USP, mestre e doutor em psicologia clínica pela UnB, professor na Escola Superior de Ciências da Saúde do Distrito Federal

A partir de 1990 houve um crescimento exponencial das taxas de transtornos mentais nos países industrializados.

Tenho estado mais sensível a essa questão depois da leitura de * três livros (que estão citados no final desse texto), sendo que dois deles foram publicados pela Fiocruz, e um deles, que não foi publicado pela Fiocruz, é um livro de um autor que é uma referência muito forte no cenário científico mundial.

Estes três livros focam na questão do papel da indústria farmacêutica e da medicalização, implicados no aumento dos transtornos mentais. Apesar de bilhões de dólares terem sido investidos na criação, testagem e produção de diversos medicamentos psicotrópicos, os transtornos mentais somente tiveram seu número aumentado de forma assustadora.

Esses autores associam a epidemia de transtornos mentais aos efeitos dessas novas medicações, que agora são consumidas em nível alarmante. E infelizmente, em muitos casos, às vezes sinto que o trabalho psicossocial, o trabalho que eu e muitos outros profissionais do CAPS realizamos, fica muito enfraquecido diante da monstruosidade da medicalização.

E até agora o que eu pude depreender em relação às evidências científicas trazidas por essas três referências, por esses três livros, é a de que as medicações psiquiátricas deveriam ser prescritas por no máximo seis semanas. Segundo esses dados não se sustenta a alegação de que os pacientes psiquiátricos têm de tomar medicação para o resto da vida.

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E boa parte dessas evidências provém de estudos longitudinais, com grupos controle formados por pacientes que não fazem uso de medicação psiquiátrica, mesmo quando estamos falando de psicoses. Há inclusive reiteradas referências à estratégia do "Diálogo Aberto", na Finlândia, que vem ocorrendo nos últimos 30 anos, e demonstrando que é possível a diminuição da medicalização. Nas instituições de saúde que adotaram essa estratégia, no país citado, somente 1/3 dos pacientes psicóticos são medicados, enquanto que no Brasil isso deve se dar por volta de praticamente 100% dos pacientes.

Obviamente que não se trata apenas de excesso de medicamentos no tratamento de pacientes com transtornos mentais produzindo mais transtornos mentais. O termo medicalização se refere à concepção de que os transtornos mentais são somente de ordem biomédica.

O caso, porém, é que os transtornos mentais não são somente um problema biológico e médico. Quando os investimentos se concentram na perspectiva de que esses pacientes irão melhorar somente com idas esporádicas a um consultório médico e com medicamentos há toda uma deturpação da natureza multifacetada do problema.

Cidades com prioridade para carros

Os transtornos mentais são fruto também, por exemplo, de planejamento urbano. Cidades com prioridade para carros, com poucos espaços para que as pessoas caminhem e se encontrem, com poucas áreas verdes, centros comunitários e de lazer facilitam enormemente o surgimento de transtornos mentais.

Às vezes em um CAPS é necessário muita paciência e um esforço muito grande para mostrar aos pacientes que a cura não está nas medicações, e que absolutamente nenhuma medicação psiquiátrica cura. As medicações psiquiátricas servem, no máximo, para que o paciente possa tolerar um pouco mais os sintomas de uma crise ou que uma crise possa talvez ser cortada. E, como qualquer medicação, possuem efeitos colaterais. Ou seja: não faz sentido pensar que devem se transformar em primeira linha de tratamento para transtornos mentais.

Visão medicalizante atrapalha compreensão da complexidade dos transtornos mentais

As medicações psiquiátricas servem para aliviar sintomas. Os determinantes dos transtornos mentais não são combatidos por essas medicações. Os determinantes estão na infinidade de estímulos com os quais o mundo nos bombardeia. Esses estímulos podem estar no ar que respiramos, na água que ingerimos, nas pessoas com as quais interagimos, na qualidade na quantidade de horas de sono, na luz solar (o quanto ela nos estimula e o quanto fazemos uso disso ou não), em nossa dieta (que precisa ser a mais variada possível, com o menos possível de açúcar), no sedentarismo, nos agrotóxicos (que podem estar contaminando nosso alimento e nossa água), na quantidade de alimentos processados que ingerimos, etc.

Ou seja: há uma infinidade de estímulos que nos afetam. E aí é que estão os determinantes dos transtornos mentais, do que somos. A medicalização atrapalha essa compreensão, porque concentra esses determinantes na concepção de que tudo isso é um problema médico, que poderia ser resolvido com medicamentos, que os transtornos mentais são como quaisquer outras doenças, que possam ter nos acometido sem qualquer participação nossa.

* Os três livros aos quais me referi acima são: "Medicamentos mortais e crime organizado", de Peter Gotzsche; "Medicalização em psiquiatria", de Fernando Freitas Paulo Amarante; e "Anatomia de uma epidemia", de Robert Whitaker.

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