Budistas brasileiros se posicionam diante da situação política e social do país



Por AD Luna
ad.luna@gmail.com

Budistas e simpatizantes do Darma (conjunto de ensinamentos de Buda) estão se mobilizando, em diversas cidades do país, para manifestar seu descontentamento com a situação política do país. Organizado por Shokan Alves (nome civil, Leandro Vieira Alves), de São Paulo e Leandro Durazzo, de João Pessoa, um manifesto digital intitulado Rede Brasileira de Budistas Progressistas tem colhido assinaturas simpáticas à causa.

"O manifesto nasceu da necessidade de posicionamento diante da atual situação política e social do país que apresenta sinais claros de deterioração. Desde o golpe parlamentar de 2016, o Brasil vê aprofundar suas contradições,  o que tem levado à disseminação do ódio,  da violência e do desrespeito aos direitos das minorias e dos vulneráveis", expõe Alves. Servidor público, ele é budista há oito anos, recebeu ordenação monástica em 2012, do superior da ordem budista Soto-Shu para a America do Sul (Budismo Zen japonês), e tem formação em ciências biológicas, serviço social e ciência da religião. 

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Seguidor da tradição Chan/Terra Pura, o redator e antropólogo Leandro Durazzo diz que, desde as manifestações de junho de 2013, vem tentando mobilizar budistas a se engajarem em questões sociais. "Quando os indígenas Guarani Kaiowá do Mato Grosso vieram à sociedade brasileira expor as violências e violações de direitos que sofrem, em 2012, conseguimos o apoio público de alguns representantes budistas bastante reconhecidos, que hoje felizmente também assinam este manifesto", relata Durazzo. 

A relação dele com o budismo tem sido, nos últimos 15 anos, prática, religiosa e acadêmica. Na área antropológica, ele realizou pesquisa que focava nos modos pelos quais o budismo taiwanês tem apresentado seus ensinamentos a novos grupos de praticantes, como os não-chineses dos países ocidentais. "Durante o tempo desse trabalho, tive a oportunidade de circular por Taiwan, trabalhando junto a grupos de budistas leigos e monásticos em Fo Guang Shan (que no Brasil está representado principalmente pelo templo Zu Lai, de Cotia-SP), e também passei pela experiência de ordenação monástica num retiro curto que fiz em um de seus mosteiros centrais", conta.

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Para Durazzo, o principal objetivo do manifesto é quebrar um certo imobilismo político, de interesse por causas sociais, que ele considera existir na sociedade como um todo e no meio budista. "A manifestação desta Rede pretende ser um passo a mais para a comunicação entre indivíduos e comunidades budistas no Brasil, sempre tendo a justiça e a igualdade sociais no horizonte de nossas práticas", expõe.

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ÍNTEGRA DO MANIFESTO

“Sigam em sua jornada, para o benefício e alegria de muitos, cheios de compaixão pelo mundo, pelo seu bem-estar, pelo benefício e felicidade de toda a humanidade” – Buda Sakyamuni (Vinaya I, 21)

O Budismo nasce na história a partir de uma comunidade organizada em torno do Buda e seus ensinamentos. Seres humanos dedicados à busca da verdade que promove a liberação dos limites e ilusões geradores do sofrimento. Segundo o Buda, este sofrimento não se limita ao indivíduo. Os efeitos dos “venenos da mente” que o geram e que devem ser sobrepujados pela prática, se estendem sobre a vida comunitária em suas diferentes esferas produzindo a violência, a injustiça, o crime e a morte. Por outro lado, uma sociedade organizada sobre a compaixão e a igualdade, eixos da ética budista, estaria empenhada na criação de um ambiente social que proporcionaria a cada um de seus membros as condições para o pleno florescimento de suas potencialidades.

A comunidade budista primitiva serve como modelo de materialização destes valores. Inserida na estrutura de castas da antiga Índia, o Buda e seus seguidores erguem a comunidade de praticantes – a sanga – sobre os alicerces da igualdade, justiça, compaixão e não-violência, abandonando as distinções opressoras baseadas neste sistema de organização social que até hoje condena milhões de seres humanos à agonia na sociedade indiana.

Além disso, de acordo com os textos sagrados (sutras) que chegaram até o presente, há uma concepção budista com relação à organização político-administrativa da sociedade – o Estado – que nos oferece elementos importantes para a reflexão. A construção de uma sociedade pacífica e justa está condicionada à existência de uma estrutura político-organizativa pautada em valores éticos que coloque limites ao egoísmo e promova o reconhecimento da preciosidade da existência humana por meio de ações concretas. Essa organização se materializaria em um governo que assumiria o protagonismo na distribuição equânime dos bens materiais, ou seja, que promoveria a justiça sócio-econômica. Neste “reino”, regido pelo Darma “o povo com alegria em seus corações, brincará com seus filhos e habitará em casas abertas” (Kutadanta Sutta – Digha Nikaya, capítulo 5). Da omissão estatal em cumprir essa função decorreriam todos os males sociais, desde a miséria até o crime e violência generalizados. (Cakkavatti Sutta – Digha Nikaya, capítulo 26). Portanto, a concepção social budista do Estado está em completa discordância com o conceito de “Estado mínimo”, hegemônico nos dias atuais, que delega ao mercado, livre das “amarras” estatais, o papel de promotor da prosperidade e do desenvolvimento.

Considerando, portanto, que o Budismo possui um conjunto de reflexões éticas e valores morais efetivos a oferecer para a harmonia e paz das sociedades de todos os tempos, bem como um modelo de Estado que consubstancia tais valores aplicados ao campo da política, nós, budistas brasileiros comprometidos com a construção de uma sociedade harmônica e sem opressões, não poderíamos nos calar diante do ambiente político vigente em nosso país e agravado nos últimos meses, que aprofunda a opressão secular aos mais vulneráveis, fomenta o alastramento de discursos e práticas de violência real e simbólica provinda de agentes estatais e de setores da sociedade civil e incita a ameaça generalizada aos direitos humanos, sociais e políticos.

O ano de 2016 foi o palco em que o drama em que estamos mergulhados começou a se aprofundar. Um grupo de parlamentares associados ao vice-presidente da República e apoiados por certos setores da sociedade civil levou a cabo um processo de impeachment que acabou por destituir a presidente eleita, por motivos claramente vazios de fundamentação jurídica e moral. O governo que a sucedeu vem implementando, desde então, uma agenda regressiva, não aprovada pela vontade das urnas, contra os direitos mais básicos da população. Neste sentido, tornou-se emblemático o corte de 95 % no orçamento do presente ano destinado aos projetos de construção de cisternas no semiárido nordestino, negando-se, assim, à população da região, o acesso à água.

No que diz respeito ao campo dos direitos dos segmentos da população historicamente oprimidos em nosso país, o proto-fascismo sempre presente nas entranhas de nossa sociedade, desde a quebra da legalidade democrática vem ganhando força e não se vê mais intimidado. Apologias ao estupro, à violência, agressões racistas, misóginas e homofóbicas se tornam cada vez mais comuns.

Dentre os fatos que se destacam neste cenário sombrio, não poderíamos deixar de citar o assassinato da ativista de direitos humanos e vereadora Marielle Franco. Todos os indícios têm apontado até agora para uma execução com motivação política. Uma mulher dedicada à proteção da vida sucumbe pela provável ação de agentes do Estado, ou, no mínimo de sua negligência. A execução de Marielle é a expressão mais extrema da realidade vivenciada pela população negra em nosso país. Abordagens policiais seletivas, encarceramentos massivos, estereótipos falsos reproduzidos no cotidiano, desigualdade no acesso à renda e ao estudo e, no extremo, execuções são as faces do racismo estrutural brasileiro ligado ao passado escravocrata que teima em manter-se presente, fazendo com que mais da metade da população do país tenha permanentemente ameaçado o direito à própria existência.

Mais recentemente, um processo judicial marcado por celeridade incomum, levado a efeito por meio de atos de ofício claramente parciais e motivados politicamente, levou à prisão o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em que pesem as divergências justificáveis que se possa ter com relação ao ex-presidente e ao seu partido, é inegável, na visão dos que assinam o presente manifesto, que Lula foi e continua sendo vítima de uma perseguição que tem por objetivo, além de sua humilhação pública, a total inviabilização de seu direito de disputar as eleições que se aproximam, já que dispara nas pesquisas de intenção de voto como o provável vencedor. À sua prisão se soma o ódio a que considerável parte da população tem se entregado com relação à sua figura. Demonstrações públicas de violência aos seus apoiadores, surtos de irracionalidade desencadeados pela simples menção ao seu nome, clamores pelo seu assassinato, entre outras situações, têm criado um quadro extremamente preocupante.

Diante desta situação grave, com base nos valores da compaixão, sabedoria e da dignidade intrínseca de todos os seres, os budistas ao final nomeados se manifestam nos seguintes termos:

Repudiamos de forma não violenta a agenda político-econômica regressiva do atual governo por não condizer com os mais básicos princípios do respeito e do reconhecimento da dignidade humana. Manifestamos nossa total discordância com programas de austeridade que neguem aos segmentos mais vulneráveis da população o direito de existir com felicidade e paz.

Declaramos nosso apoio a todas as iniciativas sociais e políticas em curso, de pessoas e instituições, que promovam a defesa dos direitos de todos os seres à existência plena e gratificante. Postamo-nos, como filhos de Buda, ao lado daqueles que lutam e resistem para que todos possam usufruir plenamente a dádiva do momento presente.

Conclamamos todos os budistas brasileiros a não cederem aos clamores irracionais da violência e do ódio. Que possamos usar as ferramentas da liberação ensinadas pelo Buda para questionarmos nossas ideias e uma vez certificados de sua legitimidade, que possam ser expressas com respeito e compaixão.

Convidamos todos os brasileiros das diferentes posições político- ideológicas para renunciarem a qualquer forma de ação violenta, mesmo sob os argumentos aparentemente mais nobres, uma vez que os atuais conflitos poderão ganhar proporções que nos lançarão a todos em um cenário de dores cuja solução escapará completamente ao nosso controle. Que o respeito à democracia seja a garantia para a manutenção do mínimo de paz social de que necessitamos e que a proximidade das eleições, ainda que limitada pelas peculiaridades trágicas de nossa infantil democracia, ofereça oportunidade para optarmos por projetos políticos sintonizados com a construção de uma sociedade mais justa e pacífica. Nesse sentido, que os discursos de soluções pautadas na intolerância e violência não nos iludam.

Confiantes na capacidade humana de reencontrar-se continuamente com a fonte de paz e lucidez que está a seu alcance, assinam o presente:

Monge Shokan Alves (Leandro Vieira Alves) – Tradição Zen Budista, São Paulo/SP (redator)
Leandro Durazzo (普道) – Tradição Chan/Terra Pura, João Pessoa/PB (redator)
Rev. Shaku Shoshin (Joaquim Antônio Bernardes Carneiro Monteiro) – Tradição Shin Budista/Jodo Shinshu Honpa Honganji), Porto Alegre/RS (revisor)
Rev. Shaku Riman (Ricardo Mario Gonçalves) – Tradição Shin Budista, São Paulo/SP (revisor)
Rev. Monja Coen Roshi – Tradição Zen Budista/Zendo Brasil, São Paulo/SP
Rev. Monge Sato – Tradição Shin Budista, Brasília/DF
Rev. Monja E-gen Cris Sato – Tradição Shin Budista, Brasília/DF
Eisen dos Santos (Simone Mendes dos Santos) – Tradição Zen Budista, São Paulo/SP
João Holanda – Tradição Zen Budista, São Paulo/SP
Daniela Alineri de Araújo – Tradição Zen Budista, São Paulo/SP
Hosei Fernandes (Paulo Rogério Fernandes) – Tradição Zen Budista, São Paulo/SP
Celso Trigo Mandeep – Rio de Janeiro/RJ
Derley Menezes Alves (Jeyyadhamma) – Tradição Theravada, Aracaju/SE
AD Luna, jornalista e músico – Tradição Zen Budista, Recife/PE
Sandra S. F. Erickson – Tradição Tibetana, CEBB, Natal/RN
Fábio Fernandes – Tradição Theravada, São Paulo/SP
Felix Antonio de Medeiros Filho – Tradição Soto Zen Budista, Patos/PB
Klara Maria Schenkel (Djampa Tseten) – Tradição Vajrayana Gelug, João Pessoa/PB
Mairen Mascarenhas (Fernanda Cayres Mascarenhas) – Tradição Zen Budista. São Paulo/SP
Jikai Gosch (Gil Cafrune Gosch) – Tradição Zen Budista, São Paulo/SP
Seika Martínez (Angélica Figuera Martínez) – Tradição Zen Budista, São Paulo/SP
Daihou Confortin (Daniel Confortin) – Tradição Zen Budista Soto-shu/Jisuiji, Passo Fundo/RS
Lilian Cordeiro – Tradição Soto Zen Budista, Passo Fundo/RS
Bianca Deon Rossato – Tradição Zen Budista, Passo Fundo/RS
Etsudo Sasaki (Clara Mitiko Sasaki) – Tradição Zen Budista, São Paulo/SP
Monge Mansei Wada (Marcelo Hideki Wada) – Tradição Zen Budista, Curitiba/PR
Joshin Satake (Mari Satake) – Tradição Zen Budista, São Paulo/SP

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