Veja dicas de como monetizar 'lives' e shows musicais

Imagem de Karolina Grabowska por Pixabay

Por Léo Feijó* - Via UBC
leofeijo@esp.puc-rio.br 

Diante do cenário de casas de shows fechadas e festivais adiados por conta do coronavírus, artistas aderiram de vez às performances ao vivo nas plataformas digitais. A popular live, no entanto, também exige planejamento e técnica. Instagram, Facebook e YouTube concentram a maior parte das performances, mas há outras soluções — principalmente para quem quer monetizar durante a transmissão. 
Stageit.com sede nos Estados Unidos, tem boas ferramentas para monetização de conteúdo. No Brasil, a Netshow.me atua no campo de transmissão, e há startups surgindo nesse horizonte, como o aplicativo OpenStage, “feito de artistas para artistas”, além de agências como a Clap.me, especializada em engajamento via live streaming.
Fábio Silveira, especialista em marketing e distribuição digital, ex-Deckdisc e Altafonte e editor-chefe do podcast Fast Forward, avalia que a motivação atual das performances é uma necessidade de expressão dos artistas e de apoio aos fãs nesse momento delicado. “É um movimento de solidariedade, mas há, sim, uma demanda por inovação. Em breve, o mercado apresentará novas soluções para esse segmento”, aposta.
André Izidro, Head de Marketing e Inteligência da KondZilla, produtora, gravadoras e um dos maiores canais musicais do YouTube no mundo, reflete sobre a necessidade de simplificar as produções diante das regras de distanciamento social. “As lives  são uma ótima forma de entreter e de o artista se comunicar com o seu público. Porém, diante da situação, está complicado dispor de equipe e aparatos técnicos para produções grandiosas”, pondera Izidro. 
“Por isso, o Instagram oferece um perfil mais pessoal e intimista, que mostra o artista como ele é no dia a dia, com voz e violão”, completa. “Se ele tiver disponibilidade para montar uma produção maior, com mais músicos e iluminação, acho que o YT funciona melhor”. 
O caso Stageit: em uma semana, 50% do faturamento total de 2019
A Stageit registrou resultados inesperados em meio aos cancelamentos de shows e festivais de música. Na última semana, passou de 25 shows para mais de 200 performances disponíveis. Todas com data e horário marcado, algumas sold out, ou seja, esgotadas. O tráfego, receita e novos usuários cresceram exponencialmente: em só uma semana, faturou 50% de tudo o que ganhou em 2019. Em 2014, seu melhor ano, a empresa faturou US$ 274 mil (cerca de R$ 1,4 milhão).
Evan Lowenstein, fundador e CEO da Stageit, projeta um crescimento ainda maior nos próximos meses. “Estamos muito gratos por estar em posição de ajudar os artistas durante esse período louco”, diz o fundador e CEO Evan Lowenstein. Segundo ele, grandes agências de booking de shows já fizeram contato e terão seus artistas na plataforma em breve.
A plataforma remunera da seguinte forma: o artista recebe entre 63% e 83% da venda de ingressos para a live, dependendo da faixa de vendas. A partir de R$ 1,5 mil em receitas brutas, o valor é transferido no mesmo dia para a conta bancária informada. 

No caso de artistas que não estão sediados nos EUA, cabe ao artista ou empresário fazer a declaração para efeito de tributação após o repasse. A plataforma também recolhe direitos autorais. 
“Adoraríamos receber artistas brasileiros em nossa plataforma! Somos totalmente licenciados com direitos de autor, e o artista pode executar legalmente uma música que não é dele”, afirma Lowenstein. O público pode comprar “notes”, a moeda criada pela Stageit, e depois adquirir os ingressos para os shows. A plataforma foi premiada no Midem, em 2013, na categoria “Direct To Consumer Sales & Content Monetisation”.
No Brasil, a Netshow.me nasceu em 2013 como uma plataforma exclusiva para shows ao vivo pela internet. Mas, como a ideia demorou a gerar receitas mais expressivas, desde 2016 optou por manter esse serviço e ampliar as transmissões ao vivo corporativas e de eventos. O software, diferente de uma live no YouTube ou Facebook, restringe o acesso e também tem opção de monetização (pay per view). Toda a tela de transmissão é 100% personalizada com a identidade visual da marca ou do artista e recursos como chat ao vivo e vários outros. 
Depósito bancário e outros métodos
O músico pernambucano Juvenil Silva idealizou o @aovivoemcasa e convidou o parceiro gaúcho Wander Wildner (ex-Replicantes e autor de “Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro”), para participar da estreia. Os fãs interessados eram orientados a fazer um depósito em conta bancária antes do show. A sugestão da colaboração era de R$ 18 por pessoa. Esse recurso é possível porque o Instagram permite a transmissão apenas para um grupo selecionado de amigos. O resultado, segundo eles, foi financeiramente melhor do que muitos shows em espaços físicos. 
“Essa live foi mais rentável que qualquer outro show que fizemos juntos em palcos, porque havia pessoas de todo o Brasil colaborando”, conta Juvenil. “Tenho pensando muito sobre isso, sobre como vamos nos movimentar. Eu nunca tinha feito uma live, nem o Wander. Fizemos numa pegada de pensar em como o artista pode se sustentar nesse momento. Precisamos de novos meios para nos manter. Diversos shows cancelados, e semana que vem temos contas a pagar”, diz ele, que teve preocupação especial com a qualidade do som, iluminação e repertório. 
Se você não apenas canta e domina um instrumento ou técnicas de composição, pode dar aulas e workshops online. Utilizando SkypeHangoutsZoom ou outras plataformas, a hora é essa. Caso queira buscar financiamento dos fãs, além das plataformas de live streaming há outras como Benfeitoria, Catarse e Kickante. Se você tem um público ligado em games e se interessa em conversar enquanto joga, na plataforma Twitch também é possível arrecadar.
Por que vender só 'ingresso'? Venda camiseta, caneta, boné...
O merchandising é outra fonte interessante, uma vez que patrocínio de marcas nesse momento parece complicado, analisa Rodrigo Tavares, CEO da MangoLab. A agência e produtora atua no desenvolvimento de estratégias, eventos e lançamento de clipes de artistas como Letrux e Minha Luz é De LED, e está posicionada como um “laboratório cultural e vitrine artística”. Ao longo dos últimos anos, criou novos palcos, em plataformas físicas e digitais, para aproximar os artistas do público. 
“Se fosse um problema apenas no mercado musical, acho que as lives poderiam passar a ser um tipo de conteúdo patrocinado. Porém, entendendo que todos os mercados (com exceção ao farmacêutico e da indústria alimentícia, talvez) estão sofrendo drasticamente, não imagino investimentos expressivos em marketing sendo feitos agora, quando não temos previsão de uma volta concreta das máquinas girando”, diz Rodrigo.
No sentido de gerar receitas adicionar ao ingresso, a Stageit funciona também como uma loja. Além de pagar pelo ingresso para assistir ao show online, o fã pode comprar camisas, canecas e outros produtos de merchandising do artista. É um suporte importante. Quanto mais fãs e mais organizado o trabalho do artista, maiores as chances de atingir a sustentabilidade para todos os músicos e profissionais que trabalham com esse artista.
Lives geram crescimento de 40% em novos inscritos no YouTube
Os dados das principais confirmam o crescimento e acessos, mesmo antes da pandemia. De acordo com o Think With Google, os usuários do YouTube passam 4 vezes mais tempo assistindo a conteúdos em tempo real do que assistindo vídeos on demand. Ainda segundo o YT, canais que transmitem ao vivo pelo menos uma vez por semana apresentam um crescimento de 40% em novos inscritos e de 70% no tempo de exibição do canal.
Nessa briga de gigantes com novos participantes do mercado de live streaming, surge a OpenStage, com sede em Porto Alegre. O aplicativo, desenvolvido “de artistas para artistas”, pretende ampliar e facilitar as chances de remuneração das bandas. No momento pré-coronavírus, a proposta era utilizar um QR Code em camisetas, cartazes ou em qualquer lugar em que a audiência pudesse escanear e oferecer a tip, ou uma colaboração espontânea. Agora, a proposta é concentrar tudo em links e no ambiente digital. 
O artista cria um perfil, onde estarão concentradas todas as redes sociais, e os dados bancários para ativar a ferramenta de processamento e pagamentos com cartão de crédito. A pessoa que acessar pode utilizá-la para contribuir com o trabalho do artista deixando gorjetas de R$ 5, R$ 15 ou R$ 25. 
“Estamos baixando a taxa de processamento para 10%, de maneira a ajudar durante esse momento em que a contribuição do público passa a ser a principal fonte de renda. Esse valor foi reduzido ao máximo para que seja possível cobrir as despesas com taxas bancárias e custo de transações para repassar os valores para todos”, informa a OpenStage.
Existem vários caminhos. Importante é planejar, botar a sua live na rua e receber as pessoas, digitalmente, na sua casa.
E a execução pública?
Perguntamos ao Ecad a situação de algumas dessas plataformas no que toca ao pagamento de execução pública. A licença concedida ao YouTube e ao Facebook/Instagram contempla lives. Isso significa que não há necessidade de artistas (ou produtores) pagarem direitos autorais pela execução pública musical nessas plataformas. Porém, para que o Ecad faça a distribuição, precisa receber essas informações nos relatórios de uso disponibilizados pelas plataformas. 
Na hipótese de um artista criar sua própria plataforma para transmissões, ao vivo ou não, é necessária a licença do Ecad. O responsável pelo pagamento é o dono da plataforma em que a transmissão irá ocorrer.
O processo de dispensa de cobrança para eventos ao vivo em outras plataformas digitais que não pagam o Ecad deve ser realizado da mesma forma como acontece nos demais eventos (artistas filiados devem procurar sua associação, e artistas não filiados devem pedir a dispensa diretamente ao Ecad. O pedido precisa ser feito com antecedência mínima de 2 dias úteis da realização do evento). 
Plataformas como Twitch, Clap-me, Stageit e Netshow.me ainda não fazem o pagamento. Algumas estão em negociação para regularizar sua situação. 
*Leo Feijó é jornalista, pesquisador e coordenador executivo do programa Música & Negócios da PUC-Rio

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