Com V, Taurus segue em frente respeitando seu legado

A banda carioca Taurus. Foto: reprodução Facebook


Por Wilfred Gadêlha
PEsado - Lapada para todos os gostos

Se você observar direitinho, as bandas mais antigas seguem uma lógica que, em minha visão, está mais que certa: não ficam presas ao passado. Em termos de Brasil, a gente pode constatar isso na maioria dos nomes importantes da nossa cena, no sentido de artistas que lançaram discos recentemente - Sepultura, Korzus, Dorsal Atlântica. O mesmo se aplica ao Taurus. Então, pra que fique bem claro: não espere que V seja um “novo” Signo de Taurus.

O disco novo do Taurus contém um clima de “seguir em frente”. Artistas experientes, eles são sabidos o suficiente para incorporar elementos de uma sonoridade mais moderna, na falta de uma palavra melhor, mas tendo um fio condutor que os conecta com o som que querem fazer. Resumindo: V tem mais a ver com Fissura, o álbum de 2010, do que qualquer outro dos três trabalhos anteriores. 

Isto posto, V é um disco denso. Com uma ambiência carregada de ritmos mais cadenciados e, por isso mesmo, diferente do que se espera. E eu acho isso bom. Por quê? Por que surpreende. E no sentido positivo. Não, mundiça, não tem breakdown, vocais à la Cannibal Corpse (bem… tem uma participação especial que chega perto hahahaha), nem blasting beats. É Taurus, sim, mas não o de 1986. Na música que abre o disco, Nove Vidas, o Taurus já alerta: “Esqueça o passado” e “ Siga em frente/Esse é o seu legado” são alguns versos.


É interessante constatar também que a temática lírica está bem encaixada com a sonoridade. Não mais aquela coisa de “minha alma doar pelo metal” - longe de mim execrar clássicos como Massacre. Mas o que Otávio Augusto canta é mais próximo da gente do que coisas do além, demônios ou dragões. É a vida, é a morte, é a miséria, é a desigualdade batendo à porta. Ou melhor: chutando a porta e entrando sem pedir licença. Há ainda uma boa mescla de letras em inglês com português - bem em “voga” em outros discos de bandas nacionais.

Podemos também destacar as participações especiais de Alex Camargo (Krisiun), Luiz Carlos Louzada (Vulcano)  e Beto de Gásparis (ex-integrante da banda e que escreveu algumas letras - Mutation, uma das que o último participa, deu um pulinho no Trapped in Lies). O single com Alex, Existe um Lugar, é muito foda e já tem mais audições no Spotify do que clássicos como Mundo em Alerta e Damien. Distopia já vai numa linha mais groovada, com um belo solo de Cláudio Bezz - que produziu o disco. 


Um parágrafo para o que eu considero o destaque do disco: o trabalho excelente feito pelo baterista Sérgio Bezz. Ele nunca foi afeito a milhões de notas em viradas. E é disso que eu gosto no trampo dele: tá tudo lá no lugar, certinho, sem praqueisso, sem amostração. Ele toca o que a música pede e isso não é tão simples quanto muita gente pensa. 

Outro lance massa - em especial pra nós pernambucanos - é que todo o trabalho de arte foi feito por Alcides Burn, artista daqui do Recife que vem ganhando destaque na cena nacional, ao trampar com Eskröta, Krisiun, Sanctifier e outras bandas brasileiras.

Pra fechar, ouça o disco com uma coisa na cabeça: você sempre vai poder ouvir Signo de Taurus, Trapped in Lies (o meu favorito) ou Pornography. Eles têm seu lugar na história. Se você curtiu o Fissura, ouve o V sem medo. Esperamos que o quarteto volte ao Recife no segundo semestre para o Abril Pro Rock - ainda sem data definida. Eu vou lá e vou cantar Mundo em Alerta e Existe um Lugar.

PS: Não demorem mais dez anos entre um disco e outro, por favor hahahaha

Ouça o disco:
https://open.spotify.com/album/570PTGoTVl34xV2jUH8P45?si=i3aLwx7xT_eTO4aSHzPYiQ

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