Livro analisa imagem feminina durante os séculos

"Olympia" (1863), prostituta pintada por Manet. Reprodução

Lançada pela Editora da USP, trilogia de Isabelle Anchieta investiga a representação da mulher no Ocidente

Por Maria Laura López 
Jornal da USP

Brincando com o imaginário do leitor, Imagens da Mulher no Ocidente Moderno, trilogia escrita pela socióloga Isabelle Anchieta e publicada pela Editora da USP (Edusp), lembra outros estudos sobre a representação feminina na arte, que em sua maioria falam sobre a concepção da mulher a partir do olhar masculino. No entanto, o que se percebe já nas primeiras páginas do volume 1, Bruxas e Tupinambás Canibais, é que essa pesquisa segue o caminho contrário, apontando para a participação ativa das mulheres na formação e no uso de suas imagens ao longo da história. Desse modo, a trilogia investiga as contradições que permeiam o tema. Para comprar o livro, clique aqui.

“Mais do que uma história social inquisitória, que define vítimas e vilões, fez-se aqui uma história social contraditória, por assim dizer. Humana, demasiado humana”, afirma Isabelle no primeiro volume da trilogia. Isso não significa que ela não reconheça a grande participação dos homens na criação e sustentação da imagem da mulher ideal e não ideal. O que ela faz é elevar a discussão.
De acordo com Isabelle, embora a autoria das imagens quase nunca fosse feminina, as mulheres ajudaram a sustentar certas visões, assim como as utilizaram a seu favor. Algumas figuras deixam isso claro, como Panfleto da Coleção Wickiana (1577), presente no volume 1 da trilogia, que representa a execução de três bruxas em Baden, na qual é possível ver uma mulher ajudando a acender a fogueira. “Não seria exagerado acreditar que mulheres compactuaram em grande medida com a estrutura de crenças de seu período”, diz a autora.

Dois desenhos de Hans Baldung Grien, intitulados Aristóteles e Filis (1513), mostram outro ângulo, o poder da mulher na figura da bruxa. Inspirados num conto medieval, os desenhos retratam o mito da mulher carnal e irresistível, capaz de turvar a racionalidade masculina. As duas imagens apresentam o filósofo grego Aristóteles sendo cavalgado por Filis, como prova de amor exigida por ela. “O sábio Aristóteles tornado tolo por uma mulher representava a mais dramática inversão de posições entre homens e mulheres”, afirma Isabelle. O filósofo foi um dos fundadores do sistema de posições sociais e influenciou profundamente a concepção de papéis sexuais no Ocidente.

A autora Isabelle Anchieta. Foto: Reprodução

No entanto, para a autora, um dos maiores sinais da não passividade feminina acontece com Maria Madalena, a prostituta que vira santa e é retratada no volume 2, Maria e Maria Madalena. “A imagem de Madalena é o primeiro passo à frente (ainda que com outro atrás) em direção a uma profunda mudança das relações sociais”, escreve ela. Isso porque algumas prostitutas foram as primeiras a terem seus retratos pintados por grandes artistas, o que até então era restrito ao clero e à nobreza

Segundo Isabelle, esse privilégio concedido às prostitutas, antes de qualquer outra mulher comum, também lhes confere certa mobilidade social, fazendo delas um símbolo das relações sociais nascentes. A imagem que se torna a maior representante disso é Olympia (1863), de Manet. Na pintura, a prostituta é indiferente, não apresenta sinais de arrependimento, como faziam obras anteriores.

As estrelas de Hollywood, apresentadas no volume 3, Stars de Hollywood, são imagens da modernidade, escreve Isabelle. Elas ajudam a criar uma imagem de modernidade ao oferecer uma concepção de vida moderna, que sensibiliza os jovens e corresponde à conquista da liberdade, de privilégios e de direitos. “São imagens que irão pela primeira vez inverter a polaridade da transgressividade feminina, valorizando a sexualidade e legitimando o desvio como algo desejável”, destaca a autora. “E, em vez da fogueira, o destino do desvio é atrair milhares de olhares masculinos e femininos, a fama, o poder e o acesso ilimitado aos bens de consumo.”

Dessa forma, a imagem se apresenta como uma ferramenta para a promoção de certos pensamentos e estereótipos, mas ela não está restrita a um grupo apenas. “Uma arma que passa de uma mão a outra, ou mesmo escapa a todas elas, adquirindo relativa autonomia”, afirma Isabelle, podendo servir a propósitos para os quais não foi pensada inicialmente.

Panfleto de Coleção Wickiana (1577), com mulher acendendo fogueira para queimar bruxa

É o caso das imagens negras de Virgens, que surgem em grande quantidade a partir do século 16. As imagens de Guadalupe (1531), no México, Chiquinquirá (1560), na Colômbia, Caridade do Cobre (1612), em Cuba, e Aparecida (1717), no Brasil, são algumas delas. De acordo com a autora, provavelmente foram feitas por negros, índios e mestiços, motivados pelo sincretismo religioso. Essas imagens acabam servindo aos propósitos econômicos e religiosos dos colonizadores. “Nesse sentido, a Igreja não nega a existência dessas Virgens negras, mestiças e pardas – contudo, não confirma a sua cor.”

A pesquisa de Isabelle buscou entender as fusões e contradições por trás dessas imagens ao longo da história moderna. Segundo ela, essa construção se deu através de um primeiro processo de humanização e depois de individualização. “Esse duplo movimento, que se entrelaça e se complementa, denominei ‘individumanização’”, diz ela. Por fim, Isabelle ainda questiona a suposta ruptura com os estereótipos dizendo que nós não tiramos a máscara, só colocamos outra em seu lugar. 

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De acordo com a autora, a imagem da mulher é a representante perfeita desses processos, sendo a primeira a entrar na modernidade, antes mesmo da imagem do homem. “Foi seu lugar ambíguo e simultaneamente ‘modernizante’ que me impelia a compreendê-la”, conta ela. O recorte temporal e geográfico se deu pela própria cultura ocidental moderna, que está amplamente ligada ao aumento do reconhecimento da individualidade humana, ponto investigado na obra.

A trilogia teve como base a tese de doutorado de Isabelle, defendida em 2014 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, que exigiu oito anos de pesquisas. Quase todas as imagens presentes nos livros foram analisadas pessoalmente pela autora, o que demandou cinco viagens ao exterior, com duração média de seis meses cada. “Apesar de conhecer as reproduções dessas imagens por meio de livros e pela internet, foi de especial valor ter contato com seu suporte original para entender seu sentido social”, conta a autora, acrescentando que entender a relação das imagens com o espaço em que foram produzidas era igualmente importante.



Cada um dos volumes da trilogia Imagens da Mulher no Ocidente Moderno tem uma apresentação e um posfácio em comum, além de uma introdução e uma conclusão individuais. No posfácio, Isabelle se pergunta qual das imagens analisadas ao longo da pesquisa foi mais significativa e marcante. “Tive então a viva lembrança da riqueza de redes que cada imagem abre para outras infinitas imagens e histórias. Uma teia que poderia ser tecida sem fim e na qual eu prazerosamente me deixei capturar.”

Ela conclui a obra com uma imagem que até então não tinha sido citada, mas que de certa forma resume todas as outras. Em As Fiandeiras ou A Fábula de Aracne (1655-1660), de Diego Velázquez, está representado o mito de Aracne e Atena. Tendo conhecimento dele, Isabelle traça um paralelo entre Aracne e a sociologia, na medida em que enxerga ambos os trabalhos como um eterno fiar, mediar e cortar. Assim, a autora elege Aracne como musa da sociologia, em contraponto a Clio, considerada musa da história.

Entrevista

Rodrigo Simon ouve Isabelle Anchieta sobre a tese Imagens da mulher no Ocidente Moderno. Defendida no Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a pesquisa realiza uma sociogênese dos estereótipos femininos no Ocidente Moderno. 

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