Ouça o disco solo de Lúcio Maia, guitarrista da Nação Zumbi


O guitarrista Lúcio Maia lança disco solo. Foto: Caio Cestari


Por Alexandre Matias 
Jornalista e curador musical

O continente latino-americano ainda não se entendeu como tal - e a barreira traçada pelo Tratado de Tordesilhas antes do descobrimento da América pode até ter mudado de formato, mas ainda determina uma cisão crucial entre o Brasil e seus vizinhos que falam espanhol. O idioma ainda é considerado a principal fronteira entre as duas culturas, mas não é só nas diferenças entre português e castelhano que a cultura brasileira não se mistura com a do resto da América Latina.

Há um obstáculo cultural que mantém os dois blocos separados - embora os falantes de espanhol tenham curiosidade e mais informações sobre o nosso país do que nós temos deles. Foi incutido em nosso inconsciente que o Brasil é descolado do resto do continente como se fôssemos melhores ou diferentes do resto dos latinos. Felizmente estas barreiras vêm se derretendo com o novo século e há um interesse genuíno dos brasileiros em conhecer o canto do mundo que vivem, não apenas o próprio território nacional.

Esse desinteresse pela América Latina é desculpável na medida em que os brasileiros ainda não conhecem a própria cultura nem o sentido mais amplo do que é ser nascido aqui. Fecha-se em alguns conceitos sobre o Rio, São Paulo, o nordeste, o sul e a Amazônia e imagina-se entendedor do país. Uma arrogância cultural ainda priva o brasileiro de conhecer a essência de sua nacionalidade.

O guitarrista Lúcio Maia foi fundamental neste reconhecimento do que é a nacionalidade brasileira em termos musicais nas últimas décadas e agora parte nesta busca do autoconhecimento da Latino-América. Nesse novo projeto, ele desbrava o continente sul-americano (principalmente) num som que pesa no tempero latino sem abandonar a essência brasileña.

 


 
 
Embora conhecido e reconhecido como guitar hero da Nação Zumbi, Maia tem uma trajetória paralela que mostra suas buscas por outras paragens musicais para além da colisão afrociberdélica de ritmos e melodias da usina de som pernambucana. Ele também tocou ao lado de Seu Jorge no grupo Almaz, com o rapper Rodrigo Brandão no grupo Zulumbi e com Marisa Monte na turnê Verdade, Uma Ilusão, além de seu próprio trabalho solo com o nome de Maquinado - em cada um destes projetos buscando, com sua guitarra, explorar novas sonoridades em extremos diferentes do leque musical brasileiro.

Seus parceiros no novo álbum, intitulado Lúcio Maia são exploradores da mesma estirpe: Maurício Fleury, tecladista e guitarrista do Bixiga 70, conhece desde os inúmeros gêneros musicais africanos à toda gama de sonoridades brasileiras, passando por uma apetitosa discoteca latina, base de suas atuações como DJ, além de já ter tocado com Gal Costa, João Donato, Anelis Assumpção e Guizado. Já o baixista Fábio Sá é conhecido por seu trabalho com Rômulo Fróes e tocou com nomes tão diferentes quanto Negro Léo, Ana Cañas, Rodrigo Ogi e Lanny Gordin. 

O percussionista Felipe Roseno já esteve nas bandas de Ney Matogrosso e Maria Gadú, o baterista Hugo Carranca é o fiel escudeiro de Otto, Thiago Silva, também baterista, toca com a Black Rio e com Thais Gulin, e o baixista Dengue é parceiro de Lúcio na Nação Zumbi.
 
“Sempre fui um amante da salsa, merengue, da música cubana e outros ritmos caribenhos, além da surf music e da guitarrada paraense”, explica Lúcio.

O guitarrista e seus parceiros musicais enveredam por caminhos quentes e ensolarados, como soa o conjunto das oito faixas que formam seu disco de estreia.
 
“Comecei compondo alguns temas em casa e resolvi gravar uma demo com essas músicas”, lembra ele. “O primeiro resultado foi animador. Daí incorporamos o Hugo Carranca na bateria, que é um especialista nesses ritmos, e o percussionista Felipe Roseno, um dos melhores de sua geração.”

Além dos sete temas autorais, o grupo ainda passeia por um clássico, o standard “Lithium”, do Nirvana - que toma um inusitado e refrescante banho de latinidade.”

Ouça o disco na íntegra.

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