O elo entre a música e a literatura brasileira

O cantor, compositor e escritor Chico Buarque. Foto: reprodução

Por Bruna Santos *

"Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.” - Manuel Bandeira 

No Brasil, a Literatura é uma fonte constante inspiração de para a música e o elo entre essas linguagens artísticas no País não é novidade. Grandes escritores, como Guimarães Rosa (1908-1967) e Euclides da Cunha (1866-1909), incorporaram essa musicalidade na literatura deles. 

Ao longo do tempo ela cresce livremente, tornando visível a frequência com que os artistas passeiam entre os dois mundos e produzem obras plurais, seja na escrita ou na inspiração para as canções. Como exemplo, temos Ana Carolina, Chico Buarque, Vanessa da Mata, Caetano Veloso, Vinícius de Moraes, Humberto Gessinger e Arnaldo Antunes, dentre muitos outros.

LEIA MAIS: A antiga e íntima relação entre música e literatura

O Samba, a Bossa Nova e o Tropicalismo são exemplos frutíferos dessa intertextualidade entre música e literatura. Na obra de Vinicius de Moraes, um dos nomes mais famosos da Bossa Nova, fica ainda mais clara a ligação. Sendo um dos criadores de ‘Garota de Ipanema’, sucesso mundialmente conhecido, Vinicius escreveu, enquanto poeta, ‘Rosa de Hiroshima’, que veio a se tornar canção com os Secos & Molhados. 


Tal procedimento acontece, também, com a música “Minha Namorada”, que foi marco na carreira do compositor. Diversos artistas usaram (e ainda usam) de sua obra como forma de intervenção ou performance durante as apresentações musicais, exaltando ainda mais Vinicius como um dos maiores nomes da música brasileira.


A literatura musical de Chico Buarque

Chico Buarque, por sua vez, além de cânone da música popular brasileira e consagrado na indústria musical do Brasil, é um premiado escritor. Em 1992, levou o prêmio de melhor romance com ‘Estorvo’, enquanto ‘Budapeste’ e ‘Leite Derramado’ lhe garantiram o de melhor do ano, em 2004 e 2010. Em 2019, foi ganhador do Prêmio Camões de Literatura, honraria concedida a nomes da literatura como José Saramago e Jorge Amado.

A habilidade do autor fica evidente quando observamos os detalhes de suas composições, com o exemplo da música ‘Construção’ de 1971, em que a opção estética de terminar cada verso com uma palavra proparoxítona, em repetição, soa forte e impactante.

A obra de Buarque, em suma, é uma amarração completa das suas habilidades como letrista. Seja nos romances ou em suas composições, esse elo é equilibrado entre o musical e o literário.


Arnaldo Antunes: um titã das letras

Essa representação não se dá apenas nos textos que foram musicados ou pelos nomes da literatura que se firmam na música. Artistas como Arnaldo Antunes, um dos maiores nomes da música e com composições de sucesso nacional, mostram diversa experiência na literatura. Os vinte livros por ele lançados, mostram que essa equação também pode funcionar de forma inversa.

Com seu livro ‘As Coisas’ de 1992, ele ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia, façanha que se repetiu no ano de 2016 com seu livro ‘Agora Ninguém Precisa Saber de Si’ que levou o prêmio na mesma categoria.

Sendo ele um compositor igualmente talentoso e tendo lançado dezoito discos solo, sua obra conta com diversos sucessos conhecidos em todo o país, como ‘Velha Infância’, ‘Socorro’, ‘Já Sei Namorar’, entre muitas outras.


A interlocução entre música e literatura é muito mais frequente nas obras brasileiras do que se pensa: as duas linguagens, ao longo da “linha evolutiva da música popular brasileira”, se encontram em muitos casos.

A cantora Ana Carolina, por exemplo, com seu livro ‘Ruído Branco’, traz de poemas e crônicas a canções de sua autoria que nunca foram lançadas. De um modo autobiográfico, a cantora expressa bem essas possibilidades artísticas.

As influências literárias que acercam a música brasileira são plurais e percorrem o mundo: algumas músicas bastante conhecidas nas rádios e na história fonográfica do Brasil perpassam obras clássicas de diversos países e culturas.

Abaixo, lista com alguns exemplos dessa variedade:

1. Admirável Gado Novo, Zé Ramalho e Admirável Chip Novo, Pitty – Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley;

2. Caçador de mim, Milton Nascimento – O apanhador no campo de centeio, J. D. Salinger;

3. Dom Quixote, Engenheiros do Hawaii - Dom Quixote, Miguel de Cervantes;

4. As Minas do Rei Salomão, Raul Seixas - As Minas de Salomão, ‎Henry Rider Haggard;

5. O Nome da Cidade, Caetano Veloso - A Hora da Estrela, Clarice Lispector;

6. Busca Vida, Paralamas do Sucesso - O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry;

7. Massarrara, Selvagens à Procura de Lei - Capitães de Areia, Jorge Amado;

8. A Revolta de Dândis, Engenheiros do Hawaii -L'homme révolté, Albert Camus;

9. Mulher, Ana Canãs - Medéia, Eurípedes; 1

10. Elegia, Caetano Veloso - Elegy: going to bed, John Donne;

11. Fanatismo, Fagner - Soneto homônimo de Florbela Espanca. 2


* Conteúdo produzido por alunas supervisionadas pelo professor Amílcar Bezerra. Visite a página do curso no Facebook.

Comentários