O monge zen brasileiro que vive num templo japonês

O monge zen budista Bruno Shōei. Foto: arquivo pessoal

Por AD Luna
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O monge Taiko Shoei, 32 anos, nasceu em Duque de Caxias, Rio de Janeiro. Foi durante o tempo da faculdade que ele começou a estudar o budismo. Mais especificamente, textos do Mestre Eihei Dogen.

Dogen Zenji nasceu em 1200, na cidade de Kyoto, quando esta era a capital do então Japão imperial. Ele foi o fundador da escola Soto Zen, da qual Monge Taiko faz parte. Dogen faleceu no ano de 1253. No YouTube está disponível filme sobre a vida do mestre, com legendas em português.

O então leigo Bruno Baptista do Nascimento praticou zazen por alguns anos, até que tomou os votos monásticos, em 3 de novembro de 2011. A palavra japonesa zazen significa, basicamente, meditação sentada - prática principal do zen budismo.

A Ordem Soto Zen tem dois principais mosteiros de treinamento de monges no Japão – Eiheiji e Sojiji. O primeiro fundado pelo Mestre Dogen e o segundo por Mestre Keizan, ambos no século 13.

Vídeo sobre o Mosteiro Sojiji


O monge Bruno Shoei foi o primeiro brasileiro enviado para treinamento em Sojiji e o segundo estrangeiro a entrar lá. Antes dele, apenas um suíço que mora no Brasil atualmente passou pelo treinamento por mais ou menos um ano e meio, sendo que isso aconteceu há cerca de duas décadas.

[RETIFICAÇÃO: Na verdade, conforme informações obtidas pelo monge, após a publicação desta matéria, o estrangeiro citado é brasileiro, neto de suíços].

Shoei chegou ao Sojiji no dia 13 de março de 2014. Nessa época, não sabia falar praticamente nada de japonês. No primeiro mês, apenas repetia "hai" (sim em japonês). "Até que me deram um livro de inglês-japonês e disseram: 'te vira'", relembra com humor.

Depois de atuar como secretário litúrgico de um dos abades responsável pela prática e treinamento monástico, Monge Shoei agora coordena a cozinha do mosteiro juntamente com o tenzo - uma espécie de "chef", cargo muito importante dentro da formação monástica.

A duração desse treinamento pode variar de seis meses a até dez anos. "Isso depende da avaliação direta do professor de ordenação e da titulação almejada", explica o monge.

De acordo com Shoei, o aluno pode receber o título de professor "nível 2" entre o período de seis a 12 meses.

O nível 1 é alcançado entre um ano e meio a três anos e meio. A partir de quatro anos e meio de treinamento, o monge é considerado professor com formação plena. Ainda assim, é preciso possuir educação de nível superior. Se o aluno tiver apenas nível médio, poderá levar ainda mais tempo.

Para Monge Shoei, isso mostra o cuidado especial que é preciso ter na formação e autorização para ensinar dada aos professores do zen.




ROTINA DE UM TEMPLO ZEN

No templo, o dia dos monges começa bem cedo, às 4h da madrugada. A primeira atividade é o zazen, em seguida se dedicam ao ofício da manhã (choka) no qual são lidos sutras (textos com ensinamentos budistas), dedicações à paz mundial e aos mestres ancestrais. Depois do desjejum, hora de realizar uma das mais importantes práticas de um templo zen: a limpeza do local.

"Isso ocorre duas vezes, regularmente, logo depois da primeira refeição e do almoço", explica Monge Shoei. No decorrer das horas, há várias atividades como aulas, práticas cerimoniais e (mais) zazen. No final da tarde, ocorre o ofício do período, chamado de "banka". A última refeição do dia é servida às 16h45. Quinze minutos depois, os monges tomam seu banho diário.

"Às 19h, sentamos para o zazen da noite (yaza) e vamos dormir às 21h. Essa é a nossa rotina", finaliza.

O brasileiro Bruno Shoei orientando crianças japonesas a meditar. Foto: arquivo pessoal

ZEN BUDISMO NO JAPÃO E NO BRASIL

Indagado sobre se há diferenças entre o zen praticado no Brasil e no Japão, Shoei confirma que sim. De acordo com a visão dele, no Brasil há basicamente dois tipos de prática: a étnica e a exercida por uma classe média intelectualizada.

"Na primeira, observamos templos e comunidades fundados pelos imigrantes japoneses, cujos ritos têm forte caráter devocional, mais voltados para o culto aos antepassados. Na segunda, temos um movimento nascido da contracultura e que é focado principalmente no zazen", explica.

No Japão, segundo Monge Shoei, há uma mistura das duas características observadas em terras brasileiras, mas com certa ênfase no aspecto devocional. "Os templos da ordem Soto Zen funcionam quase como um sistema de paróquias católicas, se comparadas à realidade brasileira", expõe.


VIVER NUM MONASTÉRIO NÃO SERIA UMA FUGA?

Essa indagação - e, em diversos casos, afirmação - é proferida por muita gente ao tomar contato com histórias de gente que decide morar num templo. "Morar num monastério não é uma fuga", responde Bruno. Ele explica que o local é destinado à prática incessante de um treinamento da mente, com o objetivo de se viver o momento presente de forma plena. 

Esse "viver o momento" se estende além da meditação sentada, o zazen. A meditação continua com o esforço de se manter a mente conectada com todas as nossas ações do dia a dia. Quando se lava pratos e panelas, por exemplo, o praticamente deve se esforçar para ter consciência da ação em si. O que não é algo fácil. 

Nessas horas, geralmente as mentes de boa parte de nós começa a viajar para o passado, muitas vezes se estressa com eventos que ainda não aconteceram e a pensar em várias outras coisas desassociadas do desafiador ato de se concentrar na higienização daqueles utensílios da cozinha.

Quando encerram seu período de treinamento, os monges voltam para seus templos de origem onde trabalham junto à população do entorno ou são enviados para cuidar de outras comunidades. "Uma das características do Soto Zen é estar em constante interação com a comunidade. Os monásticos são treinados para uma vida de constante interação", completa Shoei.




ZEN BUDISMO E ATUAÇÃO SOCIAL

Nos mosteiros da ordem da qual Monge Bruno Shoei faz parte, há aulas sobre temas como direitos humanos, discriminação e desigualdades. A elas acrescenta-se a realização de simpósios e encontros que visam discutir medidas para a promoção de uma cultura de paz e de um mundo sem preconceitos de qualquer espécie.

"Entendo que a atuação social deva ser maior e mais abrangente. Temos discutido a respeito disso em âmbito nacional - dentro do Japão, e a nível mundial. O pilar básico do budismo Soto Zen é colocar a iluminação em ação', como nos ensinou o Mestre Dogen", disserta.

MÚSICAS APRECIADAS POR UM MONGE ZEN BUDISTA

Convidado a ilustrar esta matéria com músicas de sua preferência, Monge Bruno Shoei mostrou ter um gosto diversificado. Vejam (e ouçam) por si mesmos.









Comentários

  1. Parabéns meu qrido !! Acompanhei um pouco de sua trajetória, vi sua dedicação . Que o Universo te banhe com muitas bênçãos!!
    Grande bjo

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