Sepultura: "Chaos AD" completa 25 anos e se mantém atual

Paulo, Max Cavalera, Igor Cavalera e Andreas Kisser. A formação que gravou o álbum

Chaos AD: 25 anos de um álbum seminal, cuja mensagem segue (lamentavelmente) tão atual

Por Emanuel Leite Jr.

19 de outubro de 1993. Há 25 anos, era lançado um dos álbuns mais impactantes da história do metal mundial. O Sepultura apresentava ao mundo um de suas obras-primas: ‘Chaos AD’. Um divisor de águas na carreira dos brasileiros, que, depois dos sucessos de “Beneath the Remains” e “Arise” na gringa, criavam algo que soava único: pesado, agressivo, visceral, mas com groove e toques de ritmos brasileiros. 

Na música pesada internacional, o disco tornou-se referência para toda uma geração que viria a seguir, sendo um dos trabalhos de maior influência em bandas que tomariam o mercado de assalto, como Korn e Slipknot, anos depois. Mas o ‘Chaos AD’ não foi apenas álbum à frente do seu tempo. 

O quinto trabalho de estúdio do Sepultura se tornou atemporal e é impressionante (e lamentável) perceber como, passado ¼ de século, o ‘Chaos AD’ segue sendo tão atual. Suas letras faziam eco à trilha sonora do caos que vivíamos em 1993, mas seguem, infelizmente, refletindo o Brasil (e o mundo) de 2018.



O álbum quase foi intitulado ‘Propaganda’, como sua sexta faixa. E o fato de suas letras ainda refletirem muito do que acontece nos dias atuais mostra que o nosso país (e planeta) evoluiu pouco, regredindo em alguns aspectos. 

‘Chaos AD’ é um manifesto: um álbum protesto, que foi buscar nas influências punk e hardcore do Sepultura a inspiração para gritar, em alto e bom som, contra as injustiças de um mundo desigual, marcado pela luta de classes, por conflitos em nome do capital, distúrbios causados por religiões e a repressão do Estado opressor.


“Territory” retrata a disputa entre palestinos e israelenses, mas fala sobre o “controle da escolha, por trás da propaganda”, a “informação pobre, que controla a sua ira” – ou seja, não apenas palestinos e israelenses seguem até hoje em conflito (numa disputa desigual, frise-se), mas vemos um pouco por todo o mundo o controle da informação servindo de manipulação da opinião, criando uma espécie de indignação seletiva. 

Aliás, esse controle “teleguiado” é um tema explorado na faixa seguinte, “Slave New World”: a censura que escraviza as pessoas e mantém o domínio através da fraude na construção da percepção da realidade e da violência generalizada. 

“Amen” nos alerta para o perigo de como o discurso religioso, misturado com a ascensão de um líder profético pode nos levar à extinção: a letra é sobre o massacre de David Koresh, no Texas, mas sua mensagem segue contemporânea quando vemos milhões de pessoas olhando para um falso messias, à procura de um mito salvador.


"Kaiowas" fala sobre a tribo Guarani-Kaiowá e é um alerta da permanente ameaça a nossos índios e suas terras: um drama em 1993, uma catástrofe que pode vir a ser ainda pior quando se fala que os índios não vão ter “mais nem 1cm de terra”. 

“Propaganda”, que deveria ser a faixa-título, nos faz refletir sobre a contemporânea tentativa de manipulação (através da fraude e da mentira) covarde de quem não tem coragem de debater olhos nos olhos. 

“Biotech Is Godzilla”, de autoria de Jello Biafra (Dead Kennedys) mostra-nos como a Amazônia e nossa biodiversidade seguem em risco, graças à ganância daqueles que pretendem destruir nossas riquezas naturais em nome do capital. 

“Manifest” é o grito dos oprimidos contra a violência e a barbárie institucionalizadas, contra a opressão estatal de uma lógica que defender que a polícia “atire primeiro e pergunte depois” e que, como “bandido bom é bandido morto”, pouco importa a perda de vidas de inocentes. 

Até os covers gravados naquela altura soam proféticos: “Polícia” (Titãs) e “Crucificados pelo Sistema”, do Ratos de Porão.


Porém, como o próprio Sepultura já anunciou, “We Who Are Not as Others”. Nós não somos como os outros. Sempre tivemos que nos rebelar contra os preconceitos e as repressões. Sempre tivemos que nos manifestar e nos impor para sermos aceitos. 

Nós que não somos como os outros sabemos perfeitamente que o momento, mais do que nunca, pede que todos nós “Refuse/Resist”!





PARA COMPRAR E LER

"Relentless. 30 Anos de Sepultura"
por Jason Korolenko 


Em 1991 o Sepultura abriu o dia de metal da segunda edição do Rock in Rio. Chamada na última hora, a banda, aparentemente, não foi levada muito a sério pelos promotores do show. Com um sistema de som terrível, sob um sol escaldante de janeiro, esperava-se uma apresentação sem alardes. Mas, contrariando todas as previsões, Max, Igor, Andreas e Paulo detonaram no palco e levaram a plateia ao delírio. 

Um dos pontos marcantes do show foi a reação dos fãs após o término da apresentação: a atração seguinte foi recebida com garrafadas e aos gritos de “Sepultura! Sepultura!”. Esse feito, agora lendário, acordou o país para uma pequena banda de Belo Horizonte que desde 1984 vinha lutando para deixar sua marca. Contra todas as probabilidades, o Sepultura conseguiu projeção internacional, e hoje seu nome é lembrado entre os principais do rock e metal, ao lado de Metallica, Slayer e Pantera. 

Relentless apresenta a história da banda: o seu começo, tendo como pano de fundo a ditadura militar e a censura; os inocentes anos 1980; a turbulência que a banda enfrentou na década seguinte com a saída de dois de seus fundadores; e como ela se reinventou para continuar criando sucessos até hoje. Relentless, acima de tudo, celebra a persistência inabalável do Sepultura diante das adversidades – que não foram poucas. (Textp da Amazon)




Comentários