A fantástica fábrica de grooves da Orquestra Manguefônica [Memória]

Zeroquatro, da Mundo Livre S/A. Reprodução YouTube

Por AD Luna 
ad.luna@gmail.com

Colaboração de Maria Duda

Quais seriam os discos mais relevantes e influentes da música brasileira? Foi a partir de tal indagação que o SESC Pompéia, em São Paulo, passou a bola para 12 críticos musicais do país apontarem os escolhidos. Apurados os votos (120 no total), seis discos foram eleitos, e quatro deles acabaram empatados em terceiro (veja resultado e relação dos votantes abaixo). Com a eleição do clássico primeiro álbum de Chico Science & Nação Zumbi, Da Lama ao Caos, lançado em 1994, um dos sonhos do cientista pernambucano dos sons e ritmos, morto em 1997, recebeu o impulso que faltava para sua viabilização.

Originalmente publicado no Showlivre.com, em janeiro de 2005

Formada pelas duas bandas-chave do movimento que sacudiu Pernambuco e o país na década de 1990, a Orquestra Manguefônica tocou, diante de uma extasiada platéia, a sequência de músicas do "Da Lama...". Juntos no mesmo palco, Nação Zumbi e mundo livre s/a foram muito além de uma simples cópia do álbum em questão.

Zeroquatro e Jorge du Peixe falam sobre o primeiro show que reuniu os dois maiores expoentes do manguebit, no SESC Pompéia, em São Paulo



Músicas como "A praieira", "Maracatu de tiro certeiro", "Computadores fazem arte", "Samba makossa" ganharam novas roupagens, incrementadas por toques atualizados do dub, ska, rap, rock, drum'n'bass, samba e outras viagens sonoras tão comuns à inesgotável fábrica criativa dos dois grupos.

Além do time ampliado de instrumentistas (dois baixos, duas baterias, cinco percussionistas), Jorge du Peixe, Bolla 8 e Marco Matias, da Nação, Zeroquatro, do mundo livre, e o convidado paulista Rodrigo Audiolandro, do Mamelo Sound System, revezavam-se nas interpretações das canções antes cantadas por Chico.


A romântica "Risoflora" - composta por Science para uma namorada - foi ouvida em público, pela primeira vez, na voz de du Peixe. Detalhe: o antigo amor do saudoso mangueboy estava presente no local e, obviamente, estampava um sorriso ainda mais largo durante toda a execução da sua homenagem sonora.

O entusiasmo do público pôs os seguranças do Pompéia para trabalhar além do normal. Por pouco, o palco não foi tomado inteiramente pela audiência. Os rapazes da Orquestra deram dois bis, devido à insistência popular. Aliás, todos os ingressos para os três dias de show (14, 15 e 16 de janeiro) se esgotaram com antecedência.

Kraftwerk+Stooges - No camarim, Zeroquatro e Jorge du Peixe sintetizaram a emoção do primeiro concerto da Manguefônica numa frase: "É a mesma emoção de vestir a camisa da seleção brasileira". Os dois confirmaram a continuidade do projeto e a possível produção de um CD, com músicas antigas e inéditas, num futuro não muito distante.

Indagados sobre que artistas do passado ou do presente eles indicariam para interpretar, ao modo da Manguefônica, obras como o próprio "Da lama ao caos", da Nação, e "Samba esquema noise", primeiro do mundo livre, du Peixe e Zeroquatro citaram, respectivamente, os pares Kraftwerk+Stooges e Fela Kuti+Barrabás (banda underground de rock latino da década de 1970).

Confira os álbuns mais votados pelos críticos participantes do projeto Disco de Ouro:

1o - Tropicália ou Panis et Circensis, Vários artistas, 1968
2o - Acabou Chorare, Novos Baianos, 1972
3o - Canção do Amor Demais, Elizeth Cardoso, 1958
Samba Esquema Novo, Jorge Ben, 1963
Elis & Tom, Elis Regina e Tom Jobim, 1974
Da Lama ao Caos, Chico Science & Nação Zumbi, 1994

Os votantes: Carlos Calado (Folha de São Paulo), Fernando Faro (TV Cultura), Israel do Vale, João Máximo (O Globo), Jotabê Medeiros (O Estado de São Paulo), Lauro Lisboa Garcia (O Estado de São Paulo), Marco Frenete (revista Bravo!), Mauro Dias, Pedro Alexandre Sanches (Carta Capital), Sérgio Martins (revista Veja), Tárik de Souza (Jornal do Brasil), Zuza Homem de Mello.

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