Jack White: mais ousado do que nunca. Resenha do álbum "Boarding House Reach"

O cantor, guitarrista e compositor Jack White. Foto: reprodução


Por Erick Silva 
ericksilva15081980@gmail.com

Em época de redes sociais, onde a arte está "enlatada para consumo" do que nunca, reinventar-se é tarefa árdua. Mesmo para artistas talentosos, é sempre mais fácil ficar na zona de conforto, no óbvio, em algo que o público espera como certo. Existem artistas assim, e existe Jack White. Este, por sua vez, acaba de lançar o seu terceiro álbum solo, mas, parece o primeiro, tamanho o frescor que as composições exalam, mas, ao mesmo tempo, conseguimos enxergar um nível de amadurecimento que só alguém como White pode ter.

Boarding House Reach começa soturno, com a ótima "Connected By Love", uma daquelas canções que crescem cada vez que a escutamos. Por sinal, Jack está cantando muito bem, diga-se de passagem (algo que nunca foi lá o seu grande forte). "Why Walk a Dog?" é outra que dá sequência a esse clima a introspectivo, como se White, de repente fosse tomado pelo espírito do Portishead, com um quê de Jesus And Mary Chain nas microfonias. Em suma: uma baita sequência de abertura, bem difrenet do que se poderia esperar do guitarrista.

"Corporation", por sua vez, mostra-se mais agitada e dançante, incluindo aí alguns tribais excelentes, e é outra composição um pouco fora da curva do que White já fez em trabalhos anteriores. Essa diversificada é boa, acima de tudo, para mostrar o quanto o artista tem feeling para fazer canções de muito bom gosto, que desafiam o ouvinte a cada escutada. A curta "Abulia and Akrasia" é mais uma narração do que uma música, propriamente dita. Não chega a ser ruim, até porque o instrumental de fundo dela tem qualidade, mas, acaba sendo mais uma "ocupação de espaço", do que uma composição de grande relevância para o álbum.

"Hypermisophoniac", por sua vez, tem uma estrutura rítmica excelente, mesclando instrumentos como piano, guitarra e intervenções eletrônicas de maneira bem orgânica. Composição muito interessante, como um todo. "Ice Station Zebra" é outra que se utiliza dessa mescla instrumental para entregar um produto, no mínimo, "diferente", experimental até o talo. Se você vai gostar ou não, são outros quinhentos, mas, não dá pra negar que Jack White investe muito no não-óbvio, no não-convencional.

Talvez, a canção que melhor lembre o que White já fez em trabalhos anteriores seja "Over and Over and Over", um petardo. Mas, aí chega "Everything You've Ever Learned", mais ou menos com a mesma proposta que "Abulia and Akrasia", com mais narração do que música. Essa, ao menos, tem uma tremenda explosão de sons em seu final, quase que saída de alguma jam com o pessoal dos Stooges nos seus tempos áureos.

"Respect Commander" é outra que mostra um nível de experimentação absurdo dos músicos aqui presentes, em especial, de White, que arrebenta nas linhas de guitarra. Musicaça. A bela "Ezmeralda Steals the Show" dá um alívio, um respiro, até para preparar o terreno para "Get in the Mind Shaft", que começa em tons de música clássica, para depois, apropriar-se (no bom sentido) do que de melhor o funk norte-americano fez em décadas passadas. Mais uma canção experimental desse disco que a gente respeita.

Então, este ótimo álbum se encerra praticamente como terminou, com duas canções introspectivas lindíssimas, "What's Done is Done" e "Humoresque".

Ainda é cedo para dizer se Boarding House Reach é ou não melhor do que Blunderbuss e Lazaretto. O que dá pra notar é que se trata de um disco, diferente, instigante, cheio de texturas e camadas que só com algumas audições a mais possamos dar um veredicto definitivo. Por ora, já é sério candidato a um dos melhores do ano, o que é bastante coisa nos dias atuais, convenhamos. Um trabalho, ao mesmo tempo, experimental, bonito e cheio de energia. 

"Boarding House Reach"
Jack White
2018

Nota: 8,5/10

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