Ouça "Taurina", novo disco de Anelis Assumpção

Anelis é filha do lendário Itamar Assumpção. Foto: Caroline Bittencourt

Por Marianne Piemonte

Anelis Assumpção está de boca cheia. De alma lotada e coração transbordando. Está com fome, de amor, de pão, de gozo, de pensar e “jiló não”. Mas quem come se delicia, como diz a letra de Itamar, lindamente cantada por sua voz suave que preenche a cabeça, desce pela garganta, enche o peito e gruda nas entranhas de quem ouve.

Na canção composta com sua irmã Serena Assumpção, “Chá de Jasmim”, não se sabe ao certo se é a cozinha, ou a vida, ou a cozinha da vida o tema, sei que dá uma vontade danada de picar uma salsinha. Ou rodopiar uma saia rodada ao som de sua voz, seus metais, seus tambores ancestrais. Dá vontade de botar a panela de pressão pra cozinhar feijão. Do bão! Em cada nota, uma pressão.

Taurina faz referência não só ao astrologicamente conhecido signo dos teimosos e gulosos, como reflete uma sutil elaboração comparativa entre a mulher e a vaca – animal generoso que alimenta o ser humano ou endeusada, aparece como divindade em culturas orientais. Um animal que, resignado, se doa e serve. Ou ainda com o termo usado como xingamento para mulheres de atitude que incomodam. Taurina também é silêncio.

Daqueles discos impossíveis de se rotular. Música brasileira. Música. Um acerto de contas com a liberdade de criar.
Um samba aqui, um compasso ímpar ali e, claro -  um reggae, daquele doce, que nos faz ter esperança na humanidade com gosto de creme flambado. Assim é “Paint my Dreams”. Tão Anelis.

Pra rechear, há entradas de conversas de whatsapp com amigos, clareando a fresta entre o público e o privado. Estilo viagens astrais, desabafos e piadas internas que podem ser poemas. Um convite a um universo que é a cara dela, uma mistura de arroz, feijão, tesão, tão chique que dá vontade de comer com a mão.

Ela está solo, mas nunca sozinha. Russo Passapusso e Saulo Duarte são parceiros em “Amor de Vidro”, Russo também está no samba “Caroço”. Com Ava Rocha, ela divide “Mortal à toa” e Rodrigo Campos é seu par em “Água”. Em “Escalafobética”, parceria com João Donato, Anelis cria um jogo de ritmos com palavras inventadas único, ou gracilianamente típico.

Em uma boa fase com a palavra, Anelis experimenta de forma mais audaciosa a música com a poesia, com composições que sugerem amplos espaços interpretativos, saudosos nas canções populares.

O disco, que terá sua versão em vinil, é produzido por Beto Villares, co-produzido por Zé Nigro e tem direção geral da cantautora. Outras tantas participações mais do que especiais, além do filhote Benedito, Ava Rocha, Liniker Barros, Tulipa Ruiz, Thalma de Freitas e Céu temperam esse caldo pra lá de grosso. Para finalizar esse banquete, a artista visual Camile Sproesser pintou o retrato Taurina de Anelis, exclusivo para ilustrar a capa que envolve a obra.

Pra se comer com os ouvidos.

Voilá

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