Estado menor e bem-estar social podem conviver em harmonia?

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Por AD Luna
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Criada em outubro de 2011, a Nexo (www.nexo.is) é uma agência mineira de investimento social, cuja missão é facilitar as interlocuções entre os atores que compõem a cadeia do investimento social. De acordo com o GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), investimento social "é o repasse voluntário de recursos privados de forma planejada, monitorada e sistemática para projetos sociais, ambientais e culturais de interesse público”. Thiago Alvim, 35, nascido em Governador Valadares, interior de Minas, em 1999 chegou em Belo Horizonte para estudar e acabou adotando a simpática capital como seu lar. 

Ele é formado em Administração Pública pela Escola de Governo da Fundação João Pinheiro e fez mestrado em Administração na UFMG, com pesquisa voltada para gestão pública. A ideia de montar a Nexo surgiu depois da experiência vivida no Instituto Inhotim, prestigiada entidade do terceiro setor, localizada em Brumadinho, Região Metropolitana de BH.  Nesta entrevista, Thiago fala como seu desenrolou sua transição de servidor público para empreendedor social e das atividades e conquistas da Nexo. Thiago Alvim elogia o Bolsa Família ("é renda direta na veia de quem precisa"), mas critica o que chama de onipresença estatal. "Para o Estado no Brasil não basta definir prioridades. Ele quer bater o escanteio e correr pra cabecear. o Estado quer ser executor de política social, quer atender diretamente, quer ser empresário, de preferência com monopólio", critica. 


Por que decidiu sair do serviço público para a área do empreendedorismo social?

Me formei para ser servidor público. Meu curso é parte de um programa que forma gestores para trabalhar para o Governo do Estado de Minas. A causa pública sempre me interessou muito mais do que a ação empresarial convencional, por isso no início da carreira só cogitava sair do Governo de Minas para atuar em outra esfera da gestão pública. Com o passar do tempo no Estado, onde trabalhei por cinco anos, me sentia preso e queria ter mais autonomia sobre minha carreira. Como servidor estável, a definição da minha alocação (onde eu trabalharia e o que deveria fazer) seria definida por outras pessoas a cada quatro anos. A estabilidade tão almejada por alguns tem também esse vínculo de 35 anos em que você não tem total autonomia sobre sua trajetória. Foi aí que surgiu um convite para trabalhar no Instituto Inhotim, uma importante entidade do terceiro setor aqui da Região Metropolitana de BH. Não pensei muito e pedi uma licença sem vencimentos do Estado. Foi uma forma de suavizar a transição até pedir o desligamento do meu cargo público e trocar a estabilidade pela construção da minha própria carreira. 

Como surgiu a Nexo?

Em Inhotim aprendi o outro lado da relação da sociedade civil com o Governo e me incomodei com o que hoje defino como ensimesmamento do Estado. O Estado brasileiro faz questão de ser ator principal, destaque de todas as relações, quer sempre manter uma relação hierárquica de comando, como se não houvesse solução sem sua liderança. O Estado não sabe ser parceiro, não sabe se relacionar de forma horizontal. Dessa constatação nasceu a vontade de trabalhar do lado de fora do Estado, mesmo que atuando com "coisas públicas". A Nexo surge então de conversas com um colega de trabalho em Inhotim. Tínhamos a percepção de que o papel de investimento social das empresas ainda era tímido, que muitas tinham interesse em fazer alguma coisa, mas não sabiam necessariamente como, nem mesmo operar os incentivos fiscais existentes na área. A ideia é que muita coisa poderia ser feita com investimento privado (incentivado ou não), mas que faltava quem fizesse a interlocução entre as empresas e os empreendedores sociais.

Canção pedida por Thiago Alvim


Como a Nexo funciona e de que forma é feita a mediação entre organizações sociais e empresas privadas?

A Nexo trabalha nas duas pontas do investimento social. Assessoramos empresas na definição de políticas de investimento social, no planejamento, seleção e monitoramento dos projetos sociais apoiados. Na outra ponta, apoiamos organizações sociais na elaboração de projetos e captação de recursos. Estamos no mercado desde 2011 e já conectamos essas duas pontas em um volume que já se aproxima de R$ 250 milhões, que beneficiaram mais de 70 organizações em 12 Estados. Embora nossa trabalho não esteja limitado a programas que permitam incentivos fiscais para empresas que fazem doações para projetos, esses programas representam mais de 90% de todo nosso trabalho. Isso aumenta a responsabilidade pela boa aplicação dos recursos, uma vez que caso não fossem utilizados para o investimento social das empresas, seriam recolhidos na forma de impostos.  

Quais as principais dores e delícias de tocar um negócio como esse?

Trabalhar com o terceiro setor nos aproxima da realidade das pessoas que mais precisam de apoio do Estado e da sociedade. A satisfação em apoiar a sustentabilidade de organizações que fazem muito pela sociedade com pouco recurso é enorme. Então quando conseguimos canalizar recursos para projetos que acreditamos, podemos ver a transformação das organizações e da comunidade atendida de forma muito rápida e direta. E conseguimos fazer isso sem abrir mão da nossa remuneração e da sustentabilidade da própria Nexo. Conseguimos conciliar nossa atuamos de forma profissional, lucrativa, mantendo uma equipe de 23 pessoas com o apoio às organizações do terceiro setor. 

As dores vêm em parte da relação com o poder público que cria muitos obstáculos para a ação empreendedora na área social. Em vários momentos nosso serviço seria até desnecessário se o Estado não criasse tanta barreira. Vem do Estado também a instabilidade das regras que aumenta incrivelmente o risco da nossa atividade. Na relação com o Estado a regra vale apenas para um lado e pode mudar a qualquer momento.

Música pedida por Alvim


Estado menor e bem-estar social podem conviver harmonicamente? 

Existem várias formas de medir o tamanho do Estado. Eu não me incomodo com o tamanho da nossa carga tributária, por exemplo. Só acredito que ela poderia ser mais progressiva, incidir menos sobre os mais pobres. O grande problema pra mim é como o Estado executa esse recurso, como faz com que esse recurso chegue aos mais pobres. E aí temos desde modelos como o Bolsa Família que é renda direta na veia de quem precisa, até programas que demandam um aparato estatal enorme. Para o Estado no Brasil não basta definir prioridades. Ele quer bater o escanteio e correr pra cabecear. o Estado quer ser executor de política social, quer atender diretamente, quer ser empresário, de preferência com monopólio. 

Na área social não é incomum que o Estado concorra com as iniciativas da sociedade. Ao invés de apoiar o que a sociedade já faz, ele resolve prestar os mesmos serviços e concorrer com a sociedade civil pelos recursos. E onde tem Estado demais, a sociedade civil não floresce. Veja a herança do Rio de Janeiro, ex-capital federal. Compare a sociedade organizada no Rio e em São Paulo e verá a falta que uma sociedade civil organizada faz. Quando a prefeitura do Rio resolveu mudar o modelo de prestação de serviços de saúde e buscou parceria com entidades do terceiro setor precisou recorrer a organizações de São Paulo. E isso pra mim é um grande problema. 

Até na cultura o Estado quer ser produtor e acaba ficando com a maior parte dos recursos para operação de suas próprias unidades. O Estado adora criar museus, fazer concurso pra músico e bailarina, ter rádio estatal, tv estatal... e aí sobra muito pouco recurso para fomentar as iniciativas da sociedade. Então não acho que devemos esquecer o Estado de bem-estar social. Mas não precisamos ter um estado onipresente pra isso. Não precisamos ter Eletrobras, Correios, Caixa, Petrobras, Infraero e mais de 100 outras estatais para garantir o Estado de Bem-Estar social. O Governo da Bahia tem ou tinha até pouco tempo uma rede estatal de supermercados!!! Isso não se compara em nada com a eficiência do Bolsa Família. 

Tem ainda que os servidores públicos, principalmente os federais, são grandes concentradores de renda. A proximidade do poder garante que primeiro se remuneram os servidores e depois é feita a política pública com o recurso que sobrar. Então mais aparato estatal não significa mais bem-estar social.