Geraldo Júlio e a cultura no Recife. Expectativas sobre o então futuro governo. Dezembro de 2013

O atual prefeito do Recife, Geraldo Júlio (PSB). Foto: reprodução Facebook


Por AD Luna

Em dezembro de 2013, quando trabalhei como repórter do Jornal do Commercio, colhi depoimentos de pessoas ligadas à cultura a respeito do que esperavam do então prefeito eleito do Recife, Geraldo Júlio (PSB), para essa área.

Alguns foram publicados, outros editados. Seguem todos, na íntegra.

Fábio Cabral, produtor cultural e dono da loja Passadisco

Espero que a Rádio Frei Caneca saia do papel e vire realidade, para que os músicos locais tenham onde divulgar seus trabalhos. Pois Recife tem a mais rica cena musical do país e as rádios locais não tocam nossa produção.

Que na programação dos polos carnavalescos as atrações sejam mais voltadas para os ritmos da época e artistas da terra, pois o turista que vem ao Recife não vem para ouvir a música que já ouvem o ano todo nos seus Estados.

Que o Festival de Frevos seja realizado no meio do ano e que o CD seja lançado no máximo no mês de novembro e não faltando uma semana para o Carnaval; para que as mesmas possam ser divulgadas.

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Giovanni Papaleo, produtor cultural e baterista da Uptown Blues Band


Minha sugestão é que ele revitalize o bairro do Recife antigo e que consiga realmente impor um politica multicultural na area da musica, para que Recife se iguale ás grandes capitais do Brasil e do mundo, oferecendo ao nosso povo e aos turistas, todas as boas opções de shows de qualidade , sejam locais ou de fora.
Um forte abraço,


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Bruno Nogueira, jornalista, pesquisador e professor da UFPE

Acho que o maior desafio que ele deveria encarar é o de mudar o modelo de política cultural do Recife. Hoje temos um poder público que é concorrente do mercado privado. E num modelo de concorrência desleal. A prefeitura assume o papel de produtor, paga um cachê que o mercado não tem condições - alienando também o artista - e viciando a população em não pagar ingressos para shows.

Isso é uma coisa que precisa mudar. A prefeitura precisa apoiar e subsidiar a iniciativa privada. E não competir com ela. Ser um fomentador. Sem isso, temos uma cultura e um meio musical que não é auto-sustentável. Com artistas que acreditam que valem quanto a prefeitura paga, com produtores sem conseguir ter receita de ingresso para os eventos que promovem.

Em segundo lugar, ele precisa repensar radicalmente o conceito e o papel do conselho de cultura da cidade. Eu particularmente acredito que, hoje, o conselho é um aglutinador de entidades de classe de pouquíssima ou nenhuma expressão. A prefeitura precisa ter um papel de intermediador mais forte na criação dessas entidades de classe para, só então, dar poder decisivo a um conselho formado por elas.

Por fim, acredito que o terceiro ponto (e um que deve aparecer bastante pela cidade) é encerrar o modelo de mecenato do SIC e transformá-lo em fundo de cultura. Também encerrar a participação do conselho de cultura na decisão sobre esse sistema de incentivo e montar uma comissão com representações sociais indicadas num modelo similar ao que a Fundarpe tem feito. E que é como os editais sérios funcionam.

Ah... e acho que ele devia ignorar e esquecer o chororô de rádio Frei Caneca e olhar para o futuro.  :)

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Jarmeson Lima, produtor do festival No Ar Coquetel Molotov

Inicialmente, o importante é que haja continuidade em iniciativas e projetos que deram certo a exemplo do modelo descentralizado do Carnaval Multicultural. Outro ponto é a manutenção e o reforço de orçamento para equipamentos culturais como os museus municipais para que consigam trazer mostras e exposições de grande porte para o Recife. Além disso, é importante resgatar e dar vida nova a locais como o Pátio de São Pedro seja com a realização de shows semanais ou readequando os horários de funcionamentos de espaços como o Memorial Chico Science e Memorial Luiz Gonzaga com um calendário de atividades mais dinâmico. Os cine-teatros do Recife também merecem atenção especial, uma vez que o Apolo opera com equipamentos de projeção defasados e o Teatro do Parque se encontra em uma eterna reforma. Com essa defasagem de teatros, diversos espetáculos e shows de médio-porte ficam sem condições de realização na cidade, uma vez que outros locais possíveis como o Teatro Luiz Mendonça e o Santa Isabel quase não tem datas livres. 
Outro ponto importantíssimo é a reforma do SIC - Sistema de Incentivo à Cultura, que é mecanismo de captação de recursos ainda defasado, pouco atrativo para o empresariado local apoiar e com uma cota de patrocínio ainda baixo. Por fim, estabelecer critérios claros no patrocínio e apoio de projetos independentes de forma a valorizar eventos consolidados na cidade e ainda estimular os produtores iniciantes.

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Antonio Gutierrez, Gutie, produtor do RecBeat Festival

1. Radio Frei Caneca. Precisamos urgentemente resolver isso, tá virando piada. A musica pernambucana (ainda a melhor do Brasil) necessita de um veiculo que leve para o grande publico essa riquissima e diversificada producao musical. Hoje a divulgaçao da nossa musica para o grande publico esta limitada a apresentaçoes ao vivo. Temos que ampliar essa divulgaçao. Para resolver a questao da Frei Caneca basta vontade política.

2. Oferecer melhores condiçoes para a musica tradicional. Durante os grandes festejos, como o carnaval, por exemplo, a gente observa uma vasta programaçao que inclui maracatus, ciranda, caboclinho, etc, etc mas se apresentando em estruturas precárias. Dar mais visibilidade e condioes tecnicas para essas manifestacoes nos grandes festejos. Ainda voltado para este segmento da musica, criar projetos para apresentacoes no Marco Zero, e em outros pontos turisticos,  nos finais de semana, voltadas para o publico visitante. Essa iniciativa poderia movimentar o ano todo esses artistas, com pagamento de cache, evidentemente.

3. Abrir dialogo com a Orquestra Sinfonica, ver quais sao os pleitos e investir nesse segmento. Existe espaço para Recife ser bem representado na musica erudita.

4. Reformular a lei do mecenato, e nesse caso nao apenas para a musica, mas para todos os segmentos da cultura. Criar um Fundo de Incentivo, com mais recursos. Selecao de projetos via editais, que atendam um calendario pre-definido para que os artistas e produtores possam planejar a curto, medio e longo prazo suas açoes.

5. Estabelecer regras claras para pagamento de caches de artistas locais. Acabar com os atrasos de pagamentos de caches e serviços, que colocam em xeque a credibilidade da administraçao e, principalmente, afetam muito a vida dos artistas.

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Leonardo Salazar, produtor

DESAFIOS
- atraso no pagamento de cachês
- preenchimento de cargos com critérios partidários
- desrespeito ao músico como servidor público municipal
- abandono da úníca escola municipal de arte do nordeste
- sistema de incentivo à cultura deficiente e ultrapassado
- calote no Ecad desde 2002
- política de patrocíno de balcão (direcionamento político)

SUGESTÕES
- profissionalização e organização da gestão pública da cultura
- plano de cargos/salários e realização de concurso para a Secult e a FCCR.
- valorização da Banda Sinfônica e da Orquestra Sinfônica
- reforma estrutural e contratação de professores da Escola de Arte João Pernambuco
- criação de um fundo de incentivo à cultura com recursos vinculados à receita tributária
- pagamento da dívida junto ao Ecad
- editais públicos de patrocínio coordenados pelo conselho municipal de cultura

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Sérgio Pezão, produtor cultural

eu acho que a responsabilidade do governador Eduardo Campos com a cidade do Recife aumentou. Insisto na formação de técnicos de som, luz, palco, produtores, dentre outros. Escolas não faltam, basta usar os nossos teatros com essa finalidade. E mais: numa parceria com o Governo do Estado, espero que a Torre Malakoff seja o principal centro de formação desse tipo de mão-de-obra (localização estratégica, proximidade de cinco centros culturais, ao lado de toda a requalificação portuária). Num futuro próximo, quem sabe, poderíamos pensar na Universidade da Tacaruna/Fábrica da Cultura. O Recife seria o coração desse projeto que, ao longo do tempo, correria pelas veias de todo o estado. É preciso começar. Ontem. Torço para que Geraldo Júlio seja corajoso e encare esse desafio com toda a classe artística.