Depressão e capitalismo: há relação entre ambos?

Imagem de PDPics por Pixabay


Por Adriano Facioli *
Doutor em psicologia clínica e escritor

Alguns colegas psicólogos, engajados no que eles acreditam que seja uma crítica fundamentada ao capitalismo, defendem que a epidemia atual de depressão é um problema relativo a excessos e não em relação à falta, e que o depressivo é uma pessoa que se rebelou contra esse sistema baseado no lucro e na produtividade.

Olha, desculpem-me, mas colocar as coisas nesses termos é extremamente simplista e não tem relação alguma com as evidências científicas.

A epidemia atual de depressão pode ter relação com diversos fenômenos, que provavelmente atuam das mais variadas formas. O primeiro ponto é que houve, por parte da sociedade, nos últimos 40 anos, uma apropriação maior do trabalho da psiquiatria e da indústria farmacêutica de psicotrópicos.

Então primeiramente temos de avaliar que não existe simplesmente um sujeito se rebelando contra isso. O que existe é um sistema que pode muito bem também estar superdiagnosticando as pessoas. Então não existiriam pessoas que estão se rebelando, mas sim sendo enquadradas em categorias que antes não existiam ou, se existiam, não estavam sendo valorizadas ou tomadas oficialmente como categorias de doenças.

Não é muito difícil de entender que esta hipótese é algo a ser considerado, porque as pessoas iam menos a psiquiatras, e tinham portanto menos diagnósticos de transtornos mentais. O que antes era muitas vezes considerado tristeza, desânimo ou angústia, hoje é considerado depressão ou algum transtorno similar.

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A hipótese de que antes havia uma pressão muito menor para a produtividade e para o alcance de uma série de ideais, inclusive de beleza, pode sim ser levada em conta, e faz sentido. Mas transformar isso na causa da depressão, e transformar o depressivo em alguém que está se rebelando, como se isso pudesse depois servir de combustível para uma espécie de movimento revolucionário, é deveras simplista.

Há uma variedade de situações que pode fazer com que uma pessoa passe a exibir sintomas de depressão. Uma abordagem científica possível é que essa variedade de situações pode ser classificada em alguns conjuntos.

Existe a hipótese científica relacionada à perda, de que os sintomas depressivos estariam fundamentalmente associados a alguma perda, seja ela objetiva ou subjetiva. Porque existem pessoas que estão deprimidas devido à perda de algum ente querido, perdas financeiras, ou até mesmo à perda de algum ideal ou de uma rotina, a qual estavam adaptadas, e que agora não estariam mais. Quebras de expectativas podem gerar sintomas depressivos. Porque às vezes é pior cair de um sonho, do que cair do telhado e quebrar a perna.

Enfim, quando estamos falando, por exemplo, de perdas, podemos estar falando de uma infinidade de situações possíveis, que podem gerar sintomas depressivos, e esta é uma hipótese que existe e está em debate no meio científico.

Outras hipóteses científicas referentes a genealogia de sintomas depressivos apontam para o aumento de estimulações aversivas e/ou a diminuição da quantidade e/ou da densidade de gratificações as quais alguém está sendo exposto.

Existem também as evidências relativas ao desamparo aprendido. Imagine que você esteja na seguinte situação que, na sua experiência, ou na sua percepção, tudo que você faz sempre resulta em um contexto desagradável, aversivo ou punitivo.

Seria mais ou menos como na metáfora popular de que se correr o bicho pega, e se ficar o bicho come. A pessoa simplesmente se sente sem saída. Porque no contexto em que se encontra parece que tudo o que faz sempre produz o mesmo resultado, que é basicamente doloroso. Então ela simplesmente deixa de fazer as coisas. Ela simplesmente não irá fazer mais nada, porque o custo é muito menor. Faz muito mais sentido ficar parado, do que ficar correndo atrás das coisas e obtendo sempre o mesmo resultado.

E isso obviamente não pode ser reduzido ao modelo capitalista, porque existe uma infinidade de situações que podem produzir isso, inclusive dentro de casa, numa relação doentia, excessivamente punitiva, entre pais e filhos, por exemplo.

Creio que até mesmo a hipótese científica do duplo-vínculo, para tentar dar conta um pouco de fenômenos psicóticos, pode ser aqui vislumbrada como uma possibilidade, em algumas interações mais específicas, para tratar da formulação de hipóteses referentes a alguns sintomas depressivos. O duplo-vínculo diz respeito a situações nas quais são emitidas mensagens de duplo sentido, fazendo com que a pessoa que sofre as consequências disso não consiga entender qual seria o modo mais adequado de como ela deveria se comportar.

O exemplo clássico, citado pelos propositores dessa hipótese, é o da mãe que vai visitar o filho em um hospital psiquiátrico. Quando ela chega, olha para ele e pergunta porque ele está com aquele olhar diferente, frio e apático, em uma crítica ao jeito frio do filho. Ele a abraça, e logo em seguida, minutos depois, a mãe já manifesta uma mensagem contrária, de que ele seria muito dependente ou inoportuno em suas aproximações físicas.

E o duplo vínculo, veja bem, é algo que ocorre com bastante frequência em interações humanas, que irão depois, com o tempo, produzir sintomas de psicose ou até mesmo de depressão. Porque a pessoa enlouquece, ou entra mesmo em depressão, com alguém, que a controla, e que está o tempo todo lhe exigindo duas coisas contrárias.

Foro fato de que existem as mais variadas situações em que alguém é submetido constantemente a punições. E a punição, em um sentido mais técnico, não é uma situação formal em que uma pessoa simplesmente castiga a outra. O contexto punitivo é simplesmente o contexto em que a consequência de nossas ações é dolorosa.

Se tudo o que você faz resulta sempre em sofrimento, a tendência é uma espécie de desânimo generalizado, é não querer fazer mais nada. Imagine uma pessoa que tem uma doença debilitante, que produz dor crônica dia e noite. Essa pessoa, obviamente, está mais vulnerável à depressão. Podemos, e devemos, fazer inúmeras críticas ao capitalismo. Mas qual é a relação do capitalismo com isso?

Então se uma vida na qual prevalecem consequências dolorosas é mais vulnerável a sintomas de depressão, uma vida esvaziada de gratificações também não produz resultado muito diferente. Embora talvez possam ocorrer diferenças de magnitude e de oportunidades para poder se lidar com o problema.

Muitas pessoas, atualmente, não têm hábitos saudáveis, por uma série de motivos:

- Não possuem uma higiene adequada do sono, muitas inclusive em comportamentos como o que estou tendo agora, à 1 hora da manhã, de frente para um tela, com luminosidade na cara, inibindo a produção de melatonina. Não têm rotina de sono. Frequentam baladas várias vezes na semana, tendo dias em que dormem muito tarde e outros não, ou então fazendo o uso abusivo principalmente de bebidas alcoólicas e tabaco. Ou com frequência ficam jogando videogame, assistindo televisão ou na internet até 4 horas da manhã, para depois acordar uma hora da tarde.

Outras simplesmente trocam o dia pela noite e, convenhamos, trocar o dia pela noite é algo que contraria completamente uma série de recomendações para uma vida saudável. E isso não é simplesmente culpa do capitalismo. Um conservador, bem capitalista, poderia dizer que é falta de disciplina e dissolução da família, tendo como consequência a ausência da figura paterna, de autoridade, e blablablá...

- Comem muita comida processada, com uma dieta pouca variada, pouca fibra, com excesso de carboidratos simples, frituras, sal e açúcar.

- Não fazem qualquer tipo de atividade física, e se expõem muito pouco à luminosidade natural e espaços ao ar livre.

- Fora as pessoas que estão muito atribuladas, estressadas, com uma série de atividades e compromissos que tomaram para si, e não estão dando conta. É óbvio que isso não acaba bem. E fique à vontade para botar isso na conta do capitalismo, ou de quem você achar melhor.

- Sem contar uma série de situações que são produtoras de sintomas de ansiedade e depressão: desemprego, assédio no ambiente de trabalho, relacionamentos abusivos, vínculos frágeis e instáveis, conflitos familiares intensos e frequentes, ou a diminuição de vínculos comunitários, devido à intensificação da urbanidade, e consequentemente da individualização, em todo o processo de desenvolvimento da modernidade na história da civilização ocidental, etc...

Da mesma forma que algumas pessoas querem colocar tudo na conta do capitalismo, dá para um conservador tranquilamente colocar tudo na conta da dissolução da família e da degeneração dos costumes.

* Adriano Facioli é escritor, psicólogo formado pela USP, mestre e doutor em psicologia clínica pela UnB, professor na Escola Superior de Ciências da Saúde do Distrito Federal


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