As interlocuções entre a música e a literatura

Imagem de Peter H por Pixabay


O texto A antiga e íntima relação entre música e literatura, produzido por alunas de Comunicação Social do Campus Agreste da Universidade Federal de Pernambuco, está entre um dos mais acessados aqui do Interdependente. Agora, dando continuidade ao tema, Luiz Ribeiro, também estudante do mesmo curso e vocalista da banda caruaruense Rasga Mortalha, apresenta entrevista que realizou com Artur Almeida de Ataíde, doutor em Teoria da Literatura pela UFPE, que entra em mais detalhes sobre esse intercâmbio artístico.

Quando se deram as primeiras interlocuções entre música e literatura?

“Primeiras” é uma palavra que já nos põe em certos apuros, e a própria simplicidade aparente no que os termos “música” e “literatura” queiram dizer é exatamente o que diz o adjetivo – é aparente. Mas pensando na velha Europa, que é de onde herdamos os nomes e a feição geral dessas duas práticas (a música e a literatura), na arte dos rapsodos, na Grécia Arcaica, há já um exemplo de orquestração dos sons de uma língua acompanhada de uma orquestração dos sons de um instrumento. 

Há pesquisas mundo afora que reconstituem esse evento; na recitação dos poemas homéricos, três notas (se bem lembro) de uma espécie de lira eram tocadas ao longo da emissão de cada um dos versos, numa curva tonal descendente. A segmentação em versos, que a um fluxo verbal que seria indiferenciado torna uma longa fala de incansáveis reinícios (cada verso é uma célula rítmica), é acompanhada pela repetição monótona da célula melódica. 

O modo como esses dois aspectos se irmanavam talvez fique ainda mais patente se lembrarmos que, nas reconstituições mais modernas da pronúncia do grego clássico (todas hipotéticas, porque ninguém pôde voltar no tempo para ouvir como soava exatamente o grego dos rapsodos), considera-se que ele tenha sido uma língua de acento tonal: os picos de tonicidade em cada verso, por isso, eram também picos tonais, como acontece noutras línguas hoje na face do mundo (o chinês é uma delas). Falar o grego, para nossos ouvidos, era já um pouco de cantar; na orquestração do verso isso também terá tido um papel expressivo. 

Quer dizer, resumindo tudo: nesse exemplo do rapsodo, muitos seriam os cruzamentos entre literatura e música, para um ouvido de hoje. Mas há mais exemplos. O trovadorismo medieval é o exemplo sempre lembrado, e com muita razão. Basta lembrar o interesse que há quando lemos Dante discutindo – discutindo consigo mesmo, no De vulgari eloquentia, obra que escreve como defesa da composição de poemas em língua vulgar, isto é, em língua que não o latim – se a palavra “canção” pode ou não dizer respeito às palavras do poeta elas mesmas, sem o acompanhamento musical, ou se apenas à música diz respeito, ou apenas à execução dos dois num só tempo. 

“Harmonizantes verba” é como Dante chamava aos poetas: “harmonizadores de palavras”. Os cruzamentos terminológicos (e deve haver mais exemplos bons além desses, que agora esqueço) já são um sinal de como ambas as artes se fizeram juntas.

Quando elas começaram se separar?

De certo ponto de vista, prefiro dizer que nunca houve separação. Ainda que a música instrumental tenha possivelmente uma história capaz de fixar sua origem, como prática independente de práticas composicionais dedicadas à linguagem verbal, eu tenderia a dizer que o inverso nunca ocorreu: ainda que haja exemplos de poesia apenas visual, ou muito pouco preocupada com as relações sonoras entre vocábulos (seja de que natureza for), acredito ser possível dizer que não houve época ainda em que os grandes poetas tenham deixado de ser, digamos de novo, “harmonizantes verba”, como dizia Dante.

O que representa para a arte da escrita um nome como Bob Dylan ter ganhado o Nobel de Literatura?

Ouvi muitas críticas, no sentido de que há escritores, em termos mais tradicionais, que poderiam ter recebido o prêmio, e que mereceriam, assim, ter recebido a notoriedade e o destaque recebido então por alguém que o já tinha, em termos midiáticos. É um bom ponto. Ocorre-me também que dar a Dylan o Nobel também serviu como publicidade para o próprio prêmio. Quanto ao que diz respeito à oposição poeta vs. cancionista, não me senti particularmente melindrado. 

Já me emocionei muito com a arte de Dylan. Se um prêmio não é exatamente o tribunal que definirá de uma vez por todas, e indefectivelmente, o juízo sobre a melhor literatura (e, definitivamente, não é assim que eu, pessoalmente, tendo a olhar para prêmios, e isso pode até ser um erro meu), eu não sei se há razão para tanto desgosto diante da escolha, arbitrária ou não, da Academia.

Tomando em questão os debates acerca do que é literatura hoje, influenciada por linguagens artísticas como o cinema e fenômenos como a Internet, qual seria, na sua opinião, a natureza da literatura? Ela deve se misturar com outras linguagens artísticas?

Um primeiro detalhe talvez seja frisar que não há “natureza” da literatura: a literatura é um prática. Desde os primórdios do que se queira hoje chamar de literatura, haverá como identificar imbricações que a tornem, e quase corro o riso de dizer sempre, simultaneamente também dança, também música, também prazer pictórico. 

Poderíamos nos manter apegados a uma diferenciação das artes baseada em seus respectivos suportes, por um amor a definições claras, mas, se assim o fizermos, teremos sucesso no campo teórico até certo ponto, mas correndo o risco de perder de dar explicações melhores sobre fenômenos estilísticos no interior de cada arte. Sem deixar de serem verbais, há poéticas que logram maior apelo à música ou a visualidade do que outras. 

Rudolf Arnheim argumenta sobre como nosso prazer composicional, isto é, a disposição harmônica de formas seja no tempo ou no espaço, em cada uma das variadas artes, parece ter uma raiz comum, qual seja, o equilíbrio cinestésico que nos permite ficar de pé. O “dever” ou não “dever” em arte é sempre um pouco tolhedor e inexato. A arte tem de ser boa, e as modalidades para isso são infinitas, e permanecerão sempre em discussão. 

Porque arte boa e má arte existem; pode não ser ponto pacífico o quem é o quê, mas, sem o gostar e o não gostar, sem o sentir-se convencido ou não diante de um acontecimento artístico (no palco, na tela ou na página, não importa), simplesmente não haveria sentido em se fazer arte. Misture-se com o que quiser, mas seja boa.


* Conteúdo produzido por aluno supervisionado pelo professor Amílcar Bezerra. Visite a página do curso no Facebook.

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