Covid-19: vacina não funciona como mágica

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

A rapidez com que vacinas estão iniciando estudos de fase 3 é, por um lado, fascinante, e por outro, assustadora. Normalmente, uma vacina leva em média oito anos para chegar ao mercado. (...) Apressar as fases de testes da vacina, embora necessário, é também temerário, em particular porque efeitos colaterais graves, porém menos comuns, podem passar despercebidos.


Por Natalia Pasternak e Mauro Schechter

O estresse social trazido pela COVID-19, com as restrições e incertezas que a pandemia nos impõe, gera fábulas e mitos em alta velocidade. O mais recente, que cresce de modo alarmante, é o da vacina como uma espécie de chave mágica que vai, num instante, abrir as portas do isolamento social, uma máquina do tempo que vai nos levar de volta ao mundo pré-pandemia, restaurar o “velho normal”. Vacinas serão uma peça importante para controlar a COVID-19, mas não são mágicas, não estarão disponíveis para todos num estalar de dedos. E nem estão ali na esquina.

Os bons resultados nos testes iniciais – de segurança e resposta imune, que têm sido noticiados – são animadores e merecem ser celebrados. Mas a história da medicina está repleta de exemplos de medicamentos e tratamentos que pareciam prontos para o grande público, que haviam completado quase toda a maratona, e fracassaram na última prova crucial. Essa possibilidade precisa ser apresentada de forma clara. A falta de transparência e clareza na comunicação deste fato pode abalar fortemente a credibilidade da ciência perante a população.

Vacinas, como medicamentos, são testadas em fases. Nas fases 1 e 2, são investigados segurança e marcadores de resposta imune. Mas passar por essas fases não é garantia de que a vacina vai funcionar. Para isso existe a fase 3, em que se busca determinar a sua eficácia.

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No caso da COVID-19, os estudos de fase 3 envolvem algumas poucas dezenas de milhares de voluntários, acompanhados por poucos meses. Assim, forçosamente, não será possível determinar, em um primeiro momento, sua eficácia de longo prazo, nem a ocorrência de eventos adversos menos comuns. Por isso, são essenciais os estudos de fase 4 e de farmacovigilância, que têm, entre seus objetivos, determinar a durabilidade da proteção e os efeitos colaterais menos frequentes, se houver.

Além das etapas de produção em larga escala, que podem envolver a construção de fábricas e laboratórios especiais, não se pode esquecer que não se trata apenas de produzir dezenas de milhões de doses de vacinas: há que se produzir o mesmo número de frascos, etiquetas, embalagens, seringas, e distribuir por todo o país, para locais que devem estar capacitados para armazená-las, e vacinar milhares de pessoas de forma organizada.

É preciso ter uma dose de realidade ao examinar a real probabilidade de haver uma ou várias vacinas disponíveis para a população. Se forem várias, como escolher as que o sistema de saúde deve comprar e distribuir? Há, também, que definir prioridades para vacinação, visto que é impossível vacinar todos ao mesmo tempo. Há que se decidir quem vacinar primeiro: profissionais de saúde, populações mais vulneráveis, quem chegar primeiro ao posto de saúde?

A rapidez com que vacinas estão iniciando estudos de fase 3 é, por um lado, fascinante, e por outro, assustadora. Normalmente, uma vacina leva em média oito anos para chegar ao mercado. As mais rápidas até hoje foram as de caxumba e ebola, que levaram cinco anos cada. Apressar as fases de testes da vacina, embora necessário, é também temerário, em particular porque efeitos colaterais graves, porém menos comuns, podem passar despercebidos.

Vírus epidêmicos podem desaparecer ou se tornar endêmicos, sazonais, ou causadores de surtos eventuais. Os suscetíveis morrem ou se recuperam, dotados de imunidade parcial ou total, temporária ou permanente. À medida que o número de recuperados aumenta, o vírus circula menos, porque encontra menos pessoas suscetíveis.

Quando o número de suscetíveis numa área cai muito, o vírus para de circular ali. Mas isso não que dizer que o vírus desapareceu. Ele pode continuar a circular em outros locais onde haja pessoas suscetíveis ou em reservatórios animais, caso não seja um vírus exclusivamente humano, podendo ser reintroduzido no mesmo local e voltar a circular, caso haja um número adequado de suscetíveis. Ou seja, para continuar a existir em uma comunidade, é necessário haver pessoas suscetíveis para replicar e transmitir para outra pessoa suscetível. Se isso não ocorrer e o vírus for exclusivamente humano, ele desaparece.

Há várias maneiras de interferir com esse ciclo. Uma é vacinando a população para diminuir o número de suscetíveis. Outra, impedir que o vírus encontre pessoas suscetíveis. Uma parte disso ocorre naturalmente, pessoas morrem ou se recuperam, e esse número diminui. Outra maneira, o distanciamento físico, é “esconder” do vírus os ainda suscetíveis.

Por isso, quarentenas bem feitas funcionam e os países que a implantaram com sucesso já podem reabrir. No entanto, pessoas nascem, mudam de endereço, viajam. Assim, o equilíbrio em determinado local entre suscetíveis e imunes muda com o tempo, e daí pode haver surtos. Mas em algum momento o vírus deixará de ser pandêmico. Não é possível prever quando e como isso acontecerá. Não existe um número mágico de pessoas infectadas que possa determinar quando relaxar as medidas de prevenção.

Então, como saber? Quando será atingida a sonhada “imunidade coletiva” que vai diminuir a circulação do vírus? Será sabido acompanhando a curva de casos. E por isso, assim como para vacina, é necessário  ter paciência.

O que virá primeiro, a diminuição natural do número de pessoas suscetíveis ou a vacina? Não há como saber. Isso depende do comportamento das pessoas e das informações que serão obtidas na fase 3 de testes. No entanto, essas informações não podem ser obtidas em dois ou três meses de acompanhamento de indivíduos vacinados.

“Vacina em setembro”, ou “vacina em dezembro”, como alguns representantes de empresas e políticos vêm alardeando, não quer dizer “vacina no posto de saúde para todo mundo ainda neste ano”, e muito menos COVID-19 erradicada num piscar de olhos. Estes são apenas cenários otimistas – extremamente otimistas, no limite da irresponsabilidade – para a conclusão dos processos de teste e aprovação das vacinas atualmente em fase avançada de desenvolvimento. Mesmo para essas, muitas perguntas ainda permanecerão sem resposta, como, por exemplo, a duração da proteção, a eficácia e a segurança em grupos populacionais que não participaram dos estudos, como crianças, idosos, mulheres grávidas e indivíduos com imunodeficiências ou em tratamento para câncer.

Não há razão para  perder a esperança, pois há mais de uma centena de candidatas a vacina para COVID-19. Tampouco deve-se planejar a vida em torno dessa possibilidade. Ser esperançoso não é o mesmo que ser irresponsável. Até que uma grande parcela da população seja vacinada com um produto que tenha sido demonstrado ser eficaz, o que não acontecerá em poucos meses, é essencial contar com as medidas de contenção já conhecidas. Com isso não vamos eliminar o vírus, mas podemos controlá-lo.

Natalia Pasternak é pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, presidente do Instituto Questão de Ciência e coautora do livro "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto)

Mauro Schechter é pesquisador principal, Projeto Praça Onze, professor titular de Infectologia, UFRJ; professor adjunto de Saúde Publica, University of Pittsburgh, e professor associado, Johns Hopkins University, EUA

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O simples fato de vivermos no século XXI já nos faz beneficiários da ciência e dos seus frutos, mesmo que a gente não se dê conta dessa verdade. Os objetos que nos dão conforto, que nos dão prazer, que nos transportam, que nos emocionam, que nos informam (até este livro) só existem da forma como existem por conta dos conhecimentos científicos. O cidadão que ignora fatos científicos básicos pode se tornar presa fácil de curandeiros e charlatões, gente que mente para os outros e, não raro, para si mesma.

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