Maracatu é uma coisa, grupo de percussão é outra

Maracatus estão intimamente ligados ao candomblé. Foto: Peu Ricardo/PCR

Grupos que não têm o fundamento religioso não podem ser chamados de maracatu nação e sim, grupo percussivo

“Amiga, tem um maracatu tocando, hoje, no Bairro do Recife. Vamos?” Não é incomum você ouvir ou receber esse tipo de simpático convite para apreciar uma das mais expressivas manifestações da cultura pernambucana. No entanto, é preciso entender algo bem importante: a diferença entre uma reunião de pessoas que tocam ritmos do maracatu de baque virado e um autêntico grupo tradicional.

“O maracatu nação ou de baque virado é ligado ao candomblé e aos orixás. Há uma veiculação das pessoas da direção com essa religiosidade afro-brasileira”, explica Carmem Lélis, historiadora da Secretaria de Cultura do Recife.

As rainhas do maracatu também são ialorixás, mães de santo. De acordo com Carmem, essas iyás, como também são chamadas, possuem status de liderança onde vivem. A pesquisadora cita, por exemplo, o caso de Dona Marivalda, rainha do Maracatu Nação Estrela Brilhante, do Alto José do Pinho. “Marivalda é muita respeitada na comunidade”, ressalta Lélis.

“Grupos que não têm o fundamento religioso não podem ser chamados de maracatu nação e sim, grupo percussivo. É preciso nascer e se criar dentro de uma casa de candomblé”, reforça Anderson Santos, presidente do Maracatu Encanto da Alegria, vencedor do Carnaval do Recife 2018, na categoria maracatu de baque virado.

O Encanto da Alegria foi fundado por Mãe Ivanize de Xangô, em 10 de dezembro de 1998, na Bomba do Hemetério. Atualmente está sediado no bairro da Mangabeira e é formado por cerca de 400 integrantes. Iansã e Xangô são os orixás que regem o Encanto.

“A boneca é de cera
É de cera e madeira
A boneca é de cera
É de cera e madeira”

Geralmente, quem está de fora não tem ideia da complexidade de elementos sagrados que compõem a tradição do maracatu nação. A calunga é uma boneca sempre presente nos cortejos de maracatu nação. “Ela tem relação direta com a ancestralidade negra e são sempre consagradas”, explica Carmem Lélis.

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“Há cerimônias religiosas, restritas às pessoas da religião. Fazemos oferendas e obrigações para as três alfaias mestras e para as calungas, que recebem banhos de amaci e ervas”, expõe Anderson Santos. Os batuqueiros também passam por rituais de preparação, antes de sair para os desfiles.

Vários dos temas das cantorias possuem elementos de exaltação religiosa. Instrumentos como o gonguê e as alfaias são dotados de funcionalidade sagrada. O primeiro é, originalmente, usado para executar toques sacramentais em terreiros.

Produzido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o documento “INRC do Maracatu Nação” cita que há relatos de batuqueiros que dizem entrar em estado de transe mediúnico quando o batuque atinge seu ápice.

Maracatu para todos

A estreita relação dos grupos de maracatu com o candomblé não é elemento impeditivo para a participação de pessoas sem ligação com ele. “O compromisso religioso é restrito ao presidente, rei, rainha, dama do paço e ao mestre da nação. Fora isso, quem quiser brincar é livre para participar”, diz Anderson Santos.

Ainda segundo Santos, pessoas de outros estados e mesmo países têm se integrado à nação de maracatu da qual faz parte. “Hoje a gente tem pessoas de Salvador, São Paulo, Canadá, Portugal e da França”, relata o presidente do internacional Encanto da Alegria.

Fonte: site.carnavalrecife.com 

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