Paraíso do Tuiuti e como a cultura da "lacração" está envenenando militâncias

A escravidão no Brasil acabou mesmo? Questiona a Paraíso do Tuiutí. Foto: Paula Magalhâes/Sputinik
Por AD Luna
ad.luna@gmail.com

Caso você não esteja totalmente desligado do mundo, morando em outro país ou em algum retiro, deve ter tomado conhecimento do desfile da Escola de Samba Paraíso do Tuiuti. Nascida no Morro do Tuiuti, São Cristovão, na cidade do Rio de Janeiro, a agremiação chamou a atenção por conta do desfile de domingo à noite (11), no qual criticou a atual situação política e social, agravada com a ascensão de Michel Temer ao poder.
Aliás, o ex-vice presidente foi simbolizado no desfile como um vampiro, "embelezado" por cédulas de dinheiro e outros adereços. Tanto a performance quanto a letra do samba enredo Meu Deus, Meu Deus, está extinta a escravidão? foram e ainda continuam a repercutir nas redes sociais. Nela são evocadas a terrível situação de escravidão que assolou nossos antepassados negros e africanos, cujas raízes malignas ainda continuam a dominar a psiquê de milhões de brasileiros e brasileiras e a sustentar uma perversa estrutura socioeconômica que causa enorme sofrimento a muitas famílias no País.


Fora aquela fatia da população que luta para conservar esse nefasto sistema, uma numerosa quantidade de pessoas, de variadas classes sociais, gêneros, cores, crenças saudaram e até mesmo se emocionaram com o desfile-denúncia da Tuiuti. Entretanto, houve quem aproveitasse esse acontecimento para usar sua retórica e energia psíquica para atacar o próximo (ideologicamente falando) e potenciais aliados e aliadas.

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Algumas dessas falas lançavam raios à "esquerda classe média branca", àqueles que não possuem "lugar de fala", "vivências" e, sendo assim, precisam "se orientar", "ficar calados e aprender". Como resposta, recebiam aplausos verbalizados na expressão: "Lacrou, amiga(o)!"


Aí segue a pergunta: esses tipos de manifestações contribuem para sensibilizar e atrair mais gente para as pertinentes e necessárias causas como o combate à homofobia, ao racismo, machismo, entre outras? Pessoas ligadas a essas mesmas lutas acreditam que não. Louie Ponto, crítica feminista, youtuber, vegetariana e louca por gatos, como ela mesma se define no Facebook produziu vídeo. em janeiro deste ano, no qual fala disso. Em trecho transcrito, ela expressa sua angústia

"Eu sei que pessoas oprimidas também podem oprimir outras pessoas. Eu sei que pessoas que fazem parte de um grupo socialmente marginalizado podem (re)produzir discursos e atitudes preconceituosas e violentas. Eu sei que dentro desse grupo, como pessoas LGBT, por exemplo, muitos recortes precisam ser feitos porque somos pessoas diferentes, com vivências diferentes e que sofremos opressões diferentes. Tudo isso precisa ser debatido nos espaços de militância? SIM, POR FAVOR! Mas a questão é COMO estamos fazendo isso, e esse meu vídeo é um desabafo, porque há muito tempo os espaços de militância me fazem mal e, infelizmente, cheguei ao ponto de me afastar desses espaços e das pessoas. 

Mesmo assim, como meu trabalho no youtube também é um local de militância, comecei a ficar mal com algumas situações e entrei numa crise pessoal e profissional, então entendi que a questão não é se afastar da militância, mas tentar fazer desses espaços um lugar mais saudável e acolhedor. Repete comigo: vamos ouvir o colega, vamos conversar com o colega e vamos respeitar o colega".

O vlogueiro Américo escreveu na caixa de comentários do vídeo: '" gente tem que entender que as pessoas não nascem desconstruídas e quando a gente não entende isso acaba não trazendo mais pessoas para o nosso lado, mas as afastando. Tá uma cultura de lacração na internet e as pessoas nem procuram conversar com as outras, só querem ver quem 'lacra' primeiro". 

Abaixo os vídeos de Louie e Américo.




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