Dorsal Atlântica: "Toque ao vivo, Carlos"

O jornalista e músico Wilfred Gadêlha com o novo LP da Dorsal. Arquivo pessoal

Por Wilfred Gadêlha*

Num ano em que ícones da música pesada nacional - de um lado o Sepultura, com o fantástico Machine Messiah, do outro o Cavalera Conspiracy e seu arrebatador Psychosis - lançaram discos de fôlego, um outro símbolo do metal brasileiro ressurge com força total e experimentando ser diferente em uma época em que ser diferente é ser igual. 

A banda carioca Dorsal Atlântica já estava na ativa quando os irmãos Cavalera ainda sonhavam em montar uma banda. Aliás, Carlos “Vândalo” Lopes já era foda quando o Sepultura começou a aparecer. Era ídolo de Max e Igor, assim como de uma geração de jovens ávidos por um porta-voz.

Quase trinta anos após o disco que eu considero mais impactante da banda, o Dividir e Conquistar, o trio do Rio de Janeiro lança uma obra que eu precisei sacar algumas vezes para entender - e nem sei se entendi ainda: Canudos, um petardo em forma de CD com uma proposta estética ousada, avançada e crítica, como o Dorsal sempre foi.

Já há alguns anos, Carlos, um cara que deve ter o dedão do pé direito calejado de tanto chutar o balde, se utliliza do mais que válido expediente do crowdfunding para desovar os sucessores de Straight (1996). Faz todo o sentido: para um cara que sempre reclamou de não ser compreendido, inclusive pelos fãs, nada mais lógico do que usar, no bom sentido, do poder messiânico que o Dorsal tem para produzir. Foi assim com 2012, no ano de mesmo nome - e que eu ajudei :). Foi assim com Imperium, de 2014.

Canudos é uma porrada na fuça. Se você pegar o trabalho nas mãos, ele já te impacta. Parei de escrever agora para fazer isso. Peraí.

Pronto, voltei. Fui ver a estupenda arte que acompanha o CD - em uma capa magnífica, tipo um compacto das antigas. O pôster é impressionante. Uma ilustração belíssima retratando o beato e líder revolucionário Antônio Conselheiro de um lado, do outro uma colagem e imagens da ditadura, a ficha técnica e os nomes dos caras que bancaram a aventura de Carlos, seu irmão Cláudio e do novo baterista Américo Mortágua - é, Rabicó ficou de fora dessa. O encarte, a capa e tudo mais foi feito por Carlos, que também bota pra fuder nessa parte. Ah, tem uma xilogravura de Márcio Paixão Júnior - só digo que é a capa de um outro disco foda do Dorsal.

Foi bom falar na xilogravura porque a gente vai fazer um paralelo com o tema do disco, sua arte e sua sonoridade. Lembremos, para você que talvez não saiba, Canudos é o nome de uma rebelião ocorrida no final do século 19, na Bahia, ali no comecinho da República. A brutalidade com que o jovem regime tratou os seguidores de Antonio Vicente Mendes Maciel, na verdade uma multidão de famélicos (vai no dicionário, porra!) sem eira nem beira, é nada mais do que uma prévia do que como o brasileiro pobre é tratado até hoje. 

Mas falemos da música. Não, o Dorsal não virou uma banda que mistura metal com música regional. Mas ela está lá e eu entendo isso. Muito pela temática. Seria muito difícil não se contaminar com os ritmos e a pegada da música feita no Nordeste do Brasil ao falar de Canudos. É tipo a bateria de Lars Ulrich mimetizando uma metralhadora em One. Então, apreciadores da crítica fácil, poderia ser isso, mas não é. O Dorsal criou uma trilha sonora para uma distopia borrifada de história e mensagem. É algo que a banda não fez em disco nenhum. E olha que estamos falando de quem fez Ultimatum e fez Alea Jacta Est. Tão díspares quanto Angra e Krisiun.


Em Canudos, tem de tudo. Eu diria que é um disco voltado para a guitarra. É ela quem nos conduz, por melodias que mesclam pegadas nordestinas, árabes e até mesmo resquícios de marchas militares. Tudo isso costurado por um trabalho de vocal, como sempre, muito caótico. Métrica aqui serve à mensagem e não vice-versa. Carlos canta e berra e vocifera e dispara palavras como quer. Como sempre quis. A pancada mais rudimentar tá lá também. Canções como Sonho Acabado e Gravata Vermelha são uma paulada que nos lembram do Antes do Fim, mas também cochichando no ouvido da gente: “É 2017, caralho”. Tem hora que é como, para fazer uma analogia usando bandas pernambucanas, o Cangaço sentasse numa mesa do Iraq com o Rabujos - saca a parte das letras aí embaixo que você vai entender que eu quis dizer.

Deixei para o fim a parte lírica porque ela é o que me capturou de cara. Canudos é história, é poesia, é jornalismo (dos de verdade, não esta merda que a gente tá vendo por aí), é metáfora, é a matadeira usada pelo Exército para exterminar o sonho de Belo Monte. Fazia tempo que eu não me sentia tão tocado por uma escrita - talvez, Quatro Mil Corpos, do Rabujos, se aproxime do que Canudos diz, mas em plataformas musicais diferentes. No mesmo contexto estão Moreira Cézar, Mariguella e Temer, passando por Brizola, Princesa Isabel e Apolônio de Carvalho.

Fica evidente a conexão maligna que criou bastiões de rebelião como Contestado, Canudos, Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, Complexo do Alemão, Ocupe Estelita, uma porrada de coisa conectada através do tempo e do espaço.

Eu recomendo Canudos fortemente a quem acha que o metal virou reaça. Carlos Lopes nunca mais tocou com a Dorsal ao vivo. Ano passado eu estive com ele em uma tarde num shopping do Leblon e o que eu apreendi da conversa foi um rebelde cansado de ser rebelde. Com Canudos, eu repenso a imagem e acredito que ele apenas parou para descansar.

Ele tem dito que não tocará mais ao vivo. Eu vou ser mais um dos que implora: repense, Carlos. O metal nacional precisa do Dorsal Atlântica ao vivo.

*Wilfred Gadêlha é vocalista da banda pernambucana Will2Kill e o homem por trás de iniciativas PEsadas, como livro, programa de rádio e documentário sobre a cena metal, punk e hardcore de Pernambuco.