Os 40 anos do punk, por Zeroquatro e Clemente, no Interdependente #4

Zeroquatro, da Mundo Livre S/A. Foto: Divulgação
Por AD Luna
ad.luna@gmail.com

O ano de 1977 é considerado importante na história do rock e da música pop. A data marca os lançamentos de influentes álbuns como "Never mind the bullocks", do Sex Pistols, e o primeiro do The Clash, homônimo. Para falar sobre os "40 anos da explosão punk" e da repercussão dessa manifestação em suas carreiras, o Interdependente - música e conhecimento convidou Zeroquatro, da Mundo Livre S/A, e Clemente, integrante da lendária Inocentes (São Paulo) e da Plebe Rude (Brasília). 

Na parte musical, petardos do The Tubes, The Stranglers, Inocentes e Restos de Nada. Veiculada neste sábado (26), na  Universitária FM 99,9 do Recife, a edição com depoimentos dos dois artistas teve cerca de 30 minutos de duração. No player abaixo, preparamos um programa com mais conteúdos, de quase 40 minutos.



A ENTREVISTA

Interdependente - O que você fazia em 1977?

Clemente - Trabalhava como office boy e estava aprendendo a tocar baixo para montar a minha primeira banda, que culminou em 1978. Ela se chamava Restos de Nada. É louco porque a gente já ouvia o pré-punk e com o punk [propriamente dito] se identificou com a postura, porque tinha tudo a ver com o que já éramos: garotos da periferia, sem grana, rockers querendo trazer algum tipo de emoção para o rock, de novo, porque o rock estava muito chato. Então 1977 foi um ano que mudou minha vida!

Zeroquatro - Estava com 15 anos e tinha acabado de me mudar para Candeias [bairro de Jaboatão dos Guararapes, cidade vizinha ao Recife] e consumia muito disco, vinil na época, muito funk (tipo Jimmy Castor), música meio psicodélica, hard rock, progressivo, curtia Yes, Sweet - que era rock 'n' roll também e tocava muito nas festinhas dos surfistas, Supertramp, coisas que surfista colocava nos campeonatos de Maracaípe, no Paiva, e curtia Led Zeppelin. Assim o punk ainda não tinha [entrado na minha vida]... ia demorar um pouco ainda. Acho que só depois, quando eu já tava com uns  19, 20 anos. Lá por 1980 foi que, através de uma coletânea, chamada New Wave Punk, tive contato. Se não me engano, quem fez a curadoria foi Ezequiel Neves. Mas era um disco meio híbrido, tinha coisa proto punk como Patti Smith, tinha coisa meio de elo perdido entre o punk e a new wave, mas não tinha os clássicos, os antológicos, os formatadores do punk. Não tinha Sex Pistols, não tinha Clash - que eram coisas que só iria conhecer um pouco mais tarde. 

Interdependente - Que músicas vocês querem escolher para gente tocar no programa e por quê?

Zeroquatro - Pra fugir do óbvio, escolheria duas que me marcaram. Uma dessa coletânea New Wave Punk que se chama I was a punk before you were a punk, do The Tubes. É interessante essa referência porque a gente tem o marco de 77 como o início do punk, mas essa banda, por exemplo, não é inglesa, é de San Francisco, na California. E em 1975 lançaram um primeiro álbum que tinha uma música que é chamada White punks on dope. Já tinha esse conceito punk.

A outra, surgindo dos nomes mais óbvios, mas foi uma música que ouvi muito na época e que comprei num sebo de Humberto, aqui na Boa Vista [centro do Recife], o disco do The Stranglers. A música é Nice and sleazy, muito pesada, um dos baixos mais cavernosos da história do punk. Como falei, era muito fã de progressivo nos anos setenta. E o Stranglers é uma banda meio estranha até no cenário londrino porque era a única que tinha um teclado meio psicodélico, [com] um puta tecladista que usava não só os timbres como um conceito de teclado bem psicodélico. 

A INFLUÊNCIA DOS PUNKS DA PERIFERIA DE SÃO PAULO NO MANGUEBEAT

Interdependente - No início dos anos 1980, a produção punk feita em bairros periféricos de São Paulo e cidades vizinhas, também influenciou jovens de outras regiões do país. Poderiam falar a respeito?

Clemente - Essa identificação do punk com a periferia do Brasil [aconteceu] porque, na verdade, essas situações sempre foram muito parecidas, né? E o punk tinha uma proposta que te permitia fazer coisas... o "faça você mesmo" te deu aquele sentido de urgência, dizendo que você não precisava ficar esperando alguém fazer alguma coisa por você, você não precisava tocar pra caramba pra poder ter uma banda, que você não precisava ter um mega festival pra poder apresentar várias bandas legais. Acho que isso se espalhou pelas periferias do mundo e deu um start nas pessoas. Isso não quer dizer que precisavam fazer punk, elas tinham que fazer alguma coisa, cada uma fez alguma coisa que achava mais legal. Então essa coisa de influenciar o manguebeat e tudo é porque as pessoas se sentiram capazes de, mesmo sem ter grana, sem ter uma estrutura financeira e técnica bacana, souberam que poderiam fazer. Adoro Devotos, que é um grande exemplo de que se pode fazer com muito pouco.

[Nota do Interdependente: Em 1982, foi lançada a coletânea "Grito suburbano. O disco reúne músicas de três bandas paulistas: Inocentes, Olho Seco e Cólera. Gravado de maneira bastante precárias, o álbum é considerado o primeiro do punk nacional. O líder da Mundo Livre S/a comenta.]

Zeroquatro - Renato [Renato L, o "ministro da informação do mangue"], que era meu colega de curso de comunicação na Federal (UFPE) foi pra um congresso em São Paulo e obviamente a gente já tava super antenado com esse negócio dos punks da periferia e já tinha esse objetivo de procurar material da galera nas galerias em São Paulo. Quando Renato trouxe [a coletânea], eu tinha uma banda chamada Trapaça e ela se desfez porque a gente ficou totalmente fascinado com aquele conceito: de pegar equipamento tosco e descarregar toda a rebeldia e anarquia de forma virulenta e agressiva, da forma mais direta possível, em músicas de poucos minutos. A galera de Candeias, que era do Trapaça e tal... Cada um formou um núcleo diferente como Serviço Sujo, que eu montei, Sala 101, que Renato montou, Defectos, acho que Caos também... Tudo com o mesmo equipamento, todos ensaiando juntos, no mesmo local, foi uma influência direta e imediata da periferia de São Paulo.

Interdependente - Tanto no exterior quanto aqui, no Brasil, o movimento foi um oceano de contradições, de paradoxos. Que lições positivas a gente poderia dizer que sobreviveram e servem até hoje a partir daquela explosão de 40 atrás?

Clemente - Acho que o maior legado desses 40 anos de punk é o "faça você mesmo". Esse modelo serve até hoje, a cena independente mama desse modelo, até o modelo dos festivais que os punks adotaram como uma ferramenta muito forte é muita usada hoje. O punk, claro, não é um movimento completamente coeso e certinho, porque é feito por jovens em ponto de ebulição - e que cada um interpreta de uma maneira. É uma confusão mesmo, mas é uma confusão positiva no final, porque, apesar de ter certos pontos negativos, o que acabou ficando, ganhando força foram os positivos. 

Zeroquatro - Na época, [a informação] era muito difícil de chegar. Havia uns fanzines que a gente trocava via correio com pessoas de várias partes do Brasil e núcleos punks da Europa. Me lembro até que tinha um cara da Finlândia que mandou um fanzine pra gente. Tinha as seções de cartas das revistas de pop e de rock, com contatos de fanzines e tal. Eu mesmo cheguei a editar um fanzine que se chamava Contingente Zero. Era tudo feito de forma bem tosca, com xerox, com diagramação totalmente anárquica e tal. E tem um livrinho que saiu pela Editora Primeiros Passos, O que é punk, do jornalista Antônio Bivar, que também trazia muita informação. 

[Bivar foi] um cara que viveu o surgimento da cena na Inglaterra. Era importante a gente contar com esse tipo de referência. Enfim, acho que essa lição ficou, permaneceu... isso é uma coisa pioneira: do punk ter conseguido driblar primeiro a lógica das grandes gravadoras que investiam milhões, com cifras astronômicas e tentavam massificar a divulgação e o punk soube muito bem reagir a isso com aquele slogan do "faça você mesmo". Isso aí foi um grande legado que o punk trouxe não só para o rock'n'roll mas para a forma de trabalho da eletrônica, muitos outros gêneros de gueto, de periferia, que souberam aproveitar esse exemplo, a referência do punk. Essa foi uma das principais heranças que a gente conseguiu manter da forma de trabalho, da lógica punk de atuar e de se relacionar entre si e com o público também.