sábado, agosto 12, 2017

Mundo sem velhice e povoado por super-humanos pode virar realidade


O transumanismo tem como objetivo fundamental a utilização ética da tecnologia para permitir significativas melhorias na qualidade de vida, além do prolongamento e superação de nossas limitações. Isso tornaria os seres humanos de décadas à frente mais fortes e mais inteligentes.

Por AD Luna

Num futuro não tão distante, pessoas poderão viver com ótima saúde física e mental por 150, 200, 500 anos, o processo de envelhecimento seria extinto ou revertido. A morte poderia ser opcional. Viagens e colonizações espaciais iriam se multiplicar. Não estamos falando de ficção científica, mas de uma realidade que já vem sendo discutida e vislumbrada nas últimas décadas por adeptos do transumanismo .

Esse movimento cultural, científico, político e filosófico tem como objetivo fundamental a utilização ética da tecnologia que permita significativas melhorias na qualidade de vida, além do prolongamento e superação de nossas limitações. Isso tornaria os seres humanos de décadas à frente mais fortes e mais inteligentes.

Na verdade, haveria o surgimento de uma nova espécie, algo como “pós-humanos”, “super-humanos”. Não a toa o símbolo H+ é utilizado para representar tal tendência. É como se aqueles seres presentes nas diferentes mitologias e em diversos filmes de super-heróis viessem a se tornar nosso eu futuro.

"Transumanismo e colonização espacial". Na parte musical, músicas do Neurotech, Post Human Era e Kraftwerk. Ouça o programa na íntegra.


Muita gente pode pensar em robocops. Não seria incorreto diante das perspectivas apresentadas. Um exemplo que pode ajudar a clarear mais esse futuro possível talvez seja o do personagem Steve Austin, de O homem de seis milhões de dólares.

A série norte-americana The six million dollars foi produzida e veiculada entre 1974 e 1978 pelo canal ABC e também exibida no Brasil. O ex-astronauta Austin sofre um acidente com aeronave pilotada por ele. As duas pernas, seu braço direito e o olho esquerdo são gravemente avariados e substituídos por versões biônicas. Assim, o herói passa a ter grande força, correr até atingir a velocidade de 90 km por hora e enxergar 20 vezes a mais do que a visão normal. Esse é apenas uma dos várias formas do que viriam a ser os inúmeros seres vislumbrados por transumanistas.

Abertura dublada de O homem de seis milhões de dólares


“A palavra transumanismo foi inventada por Dante Alighieri, na obra A Divina Comédia (século catorze) quando, num cântico específico, durante o processo em que Beatriz, a amada dele, passa após olhar para o fogo divino. Ele diz que beatriz se transumaniza”, explica Alexey Dodsworth. O escritor e pesquisador baiano é mestre em ética e filosofia pela USP e, atualmente, está realizando doutorado tendo o transumanismo como base, na Universidade Ca Fóscari, em Veneza, na Itália.

Na contemporaneidade, a palavra aparece no texto Transumanismo, de um cientista de sobrenome famoso: Julian Huxley, irmão de Aldous Huxley, autor do livro Admirável mundo novo.  Julian foi o primeiro diretor-geral da Unesco. “Neste artigo, ele escreve que a inteligência humana, a inteligência que nós possuímos, não nos concede mais direitos diante do mundo e da vida na natureza”, resume Dodsworth. Essa qualidade superior, na verdade, confere aos humanos maiores responsabilidades, deveres e obrigações para com a natureza e seres ao nosso redor.

Na tese de doutorado, que deve ser concluída em 2019, Alexey aborda um tema específico do transumanismo, bastante presente em filmes, séries e livros de ficção científica: a colonização espacial. Entre os questionamentos contrários, já previstos por ele, está aquele levantado frequentemente por quem se opõe (ou simplesmente não entende) à importância das viagens realizadas fora da Terra. Se temos tantos problemas por aqui, por que desperdiçar recursos financeiros além? Dodsworth argumenta que tal dilema é "completamente falso". O pensamento deveria ser o inverso: "investir em exploração espacial é melhorar o nosso mundo".

Entre alguns dos exemplos que sustentariam sua tese está a sugestão de que, em vez de impactar negativamente o meio ambiente terrestre com minerações (vide casos como o da Samarco), a busca por recursos extraídos do solo poderia ser feita em asteroides. "Pra quê vou minerar o nosso planeta, e destruir a natureza para poder ter, digamos, alumínio, ferro, quando posso conseguir isso em outro mundo, onde não existe vida nenhuma?" Essa preocupação com a vida e o meio ambiente na Terra é, de acordo com Alexey, um imperativo do próprio transumanismo.

Neurotech - Transuman


Críticas ao transumanismo

Naturalmente nem todo mundo se mostra empolgado com as ideias transumanistas. Há aqueles que as acham absurdas, não naturais e outros que se mostram receosos com a possibilidade dessas tecnologias se voltarem para o mal. Como lidar com isso? Numa recente apresentação do seu projeto na Universidade Ca Fóscari, Alexey foi questionado por um professor de filosofia, já idoso, talvez já beirando os 90 anos. O senhor se mostrava indignado e afirmava ser o transumanismo contrário à natureza, entre outras observações. 

"Eu ria porque, [enquanto] ele ia falando de tudo o que era 'antinatural', eu não conseguia tirar o olho do aparelho auditivo dele", recorda. Num momento seguinte, Dodsworth lembrou ao docente do recurso artificial que a ele auxiliava e questionou: "Por que, então, o senhor não aceita a naturalidade da perda da audição, decorrente da sua idade? O senhor não aceita porque não gosta. Do mesmo modo, se houvesse uma possibilidade de reverter todos os outros problemas relacionados à senescência, à velhice, garanto que todas as pessoas (ou pelo menos quase todas) que reclamam que o transumanismo mexe com coisas que não são naturais, estariam recorrendo ao transumanismo", aposta.

Alexey ainda informa que pensar sobre as ameaças e perigos futuros do uso de avanços científicos faz parte dos fundamentos filosóficos do transumanismo. "A tecnologia pode ser mal usada? Pode. Do mesmo modo que posso pegar uma faca, posso cortar um queijo ou posso matar meu vizinho. O problema não é da faca, [mas] de como eu a uso", argumenta.

Alexey Dosworth já esteve aqui falando sobre ética na exploração espacial, ficção científica, futurismo, astrologia e falácias. Leia e ouça mais.