quarta-feira, julho 12, 2017

Nervosa: mulheres entrevistam vocalista Fernanda Lira

Prika, Fernanda e Luana. Foto: Felipe Endrehano


Vocalista falou sobre novo disco, da emoção de tocar no Abril pro Rock e machismo. Ouça ainda entrevista com Krisiun, Mystifier, Voodoopriest, Violator e One Arm Way


Por AD Luna 

“Hoje tá muito mais fácil e espero que todas as desgraças que a gente sofreu, lá no começo com as ofensas, tenha tornado o ambiente mais calmo para as outras bandas de mulheres que estão vindo”. As palavras de Fernanda Lira, vocalista e baixista da Nervosa, sintetizam o sentimento que hoje impera no trio paulista de thrash metal. Aqui e ali, elas são ainda são alvo de manifestações machistas e sexistas. Mas a carga de preconceito e ignorância agora pesa menos, a ponto de a banda relaxar e realizar grandes apresentações pelo Brasil e pelo mundo.

Foi o aconteceu na edição mais recente do Abril pro Rock, que ocorreu no Centro de Convenções, em Olinda. Fernanda, Prika Amaral (guitarra) e a mais nova integrante, Luana Dametto (bateria), foram bem recebidas pelo bom público presente no sábado (29), o qual vibrou com a garra das garotas e formou belas rodas de pogo. Na mesma noite, passaram pelo palco da vigésima quinta edição do festival pernambucano Krisiun, Violator, Matanza, One Arm Way, Evocati, Voodoopriest, Mystifier, Nocturnal, entre outros.

Aproveitando a presença das bandas no Abril, os apresentadores do programa de rádio local Pesado – Lapada para Todos os Gostos, Wilfred Gadêlha e este que aqui escreve, conversaram com alguns dos integrantes do grupos. No caso da Nervosa, algumas das mulheres que atuam na cena pesada recifense foram convidadas a fazer perguntas. Abaixo, separamos as questões levadas para Fernanda e transcrevemos as respostas dadas pela artista.

Hilda Santos, produtora de eventos e da banda de crossover Realidade Encoberta, perguntou como foi o início da carreira da banda e a diferença daquele tempo para o momento presente.

Fernanda: Foi como o começo de toda banda. Vontade de se entregar, vontade de seguir um sonho. Eu a Prika já tínhamos feito parte de várias outras bandas e aí a gente viu que tínhamos os mesmos objetivos e o mesmo "sangue nozóio". A partir daí, a gente começou a compor e abrimos mão de tudo que vocês possam imaginar, de trabalho, de faculdade... Tudo umas porralôca, né, gente? Abrimos mão de estar com a família o tempo todo, de relacionamento. Abrimos mão de tudo pra, realmente, seguir o que a gente acreditava. No começo foi bem difícil a questão de aceitação, porque tudo que é muito novo está sempre aberto para [receber] crítica. E, naquela época, um trio de thrash metal só de mina ainda era algo novo, né? Se for comparar com a quantidade de trio de homem que tem. Mas hoje em dia tá muito mais fácil. A galera já entendeu que a gente tá fazendo isso com pura honestidade, paixão mesmo, sangue headbanger. E é isso aí.

Nina Burkhardt, da confeitaria vegetariana e vegana Crânio Verde,  se diz fã da Nervosa e quis saber se ainda existe muito preconceito em relação às bandas femininas.

Fernanda: Olha, no começo era bem pior. Porque, como eu disse, era algo muito novo e causou estranheza. Muita gente achava que só queríamos aparecer, vinham com comentários bem rudes, sabe? Do tipo: "elas só conseguem shows porque mandam nude pra promotor, porque dá pra todo mundo, namora com cara de tal banda". Então, a gente ouviu muita coisa pesada, só que a gente soube lidar porque era uma minoria que falava, era muito pouca gente, e preferimos focar na galera que realmente apoiava. Acho que esse é o caminho. Quando era um crítica construtiva do tipo "precisa melhorar nisso", a gente sempre aceitou. Agora esse tipo de ofensa gratuita a gente nunca levou em conta. O tempo ajudou a mostrar para as pessoas que a gente não tá aqui pra tomar espaço de ninguém, pra ganhar vantagem em cima de ninguém. A gente está aqui, simplesmente, porque a gente ama metal e porque esse é nosso sonho e porque a gente se sente feliz transmitindo uma mensagem, fazendo as pessoas esquecerem da vida, por cinco minutos que seja quando ouvem um som. Preconceito já não acho que tem muito. Tem um pouco de machismo, né? Porque a gente vem de uma cultura muito machista aqui no Brasil, onde a mulher não tem o espaço igual ao do homem em muitos setores. Não é muito fácil, o machismo tá aí. De vez em quando, a gente tá no palco e [alguém] fala "gostosa" e a gente fala: "não é gostosa, gente, é Nervosa, erraram o nome da banda". A gente sempre lida com bom humor. Mas, na grande maioria, a galera respeita, vê a gente como musicista, headbanger e vem trocar ideia de igual pra igual. Acho que é isso que é importante... Hoje tá muito mais fácil e espero que todas as desgraças que a gente sofreu, lá no começo com as ofensas, tenha tornado o ambiente mais calmo para as outras bandas de mulheres que estão vindo.

Dany Daena, baterista indagou sobre quantas vezes a Nervosa tocou em Pernambuco e o que elas pensam sobre a cena do estado.

Fernanda: No Pernambuco, a gente teve a felicidade maravilhosa de tocar três vezes. A primeira vez, em Caruaru, foi uma puta experiência pra gente, foi do caralho! Público absurdamente receptivo e louco pra caralho, do jeito que a gente gosta, faminto, sedento por metal, sabe? A segunda vez foi no [festival] Ecosounds, quando foi que a gente percebeu a grandeza da cena pernambucana - que é incrível, grande, forte. Onde a galera comparece e se doa 100% no show. [No nosso teve] uns puta mosh pit gigante... A gente [era] uma banda relativamente nova ainda, na época. E a galera tava lá, apoiando, gritando, curtindo, sabe? Pra fechar com chave de ouro, agora, a terceira vez, foi no Abril Pro Rock, que é um sonho antigaço que a gente tem como banda. Quando confirmou, a gente: "Caralhooo, foda!". E depois a gente ainda descobre que [o festival] é patrocinado pela Pitú (marca de cachaça produzida no estado), gente! Olha que coisa linda! Mas, enfim, hoje foi a cereja do bolo. Além de estar tocando com gente incrível como o Krisiun, mas também porque a galera estava insana. Mosh pit gigantesco, um dos maiores que a gente já teve. Pernambuco é foda!

Marcela Tiné, baterista da banda pernambucana de thrash e death metal Vocífera, perguntou quando sai o novo disco.

Fernanda: Agora [abril de 2017], vai fazer um ano que a gente lançou o Agony, que é o nosso disco mais recente. Mas a gente já tá pensando e compondo para o próximo. Temos algumas músicas prontas, já com a nova batera. Posso garantir que está um pouco mais agressivo. E quem é fã de thrash e death metal vai gostar. Previsão, ano que vem, sem falta.

Em seu perfil no Facebook, além de conteúdos relacionados ao Nervosa, Fernanda costuma publicar posts mostrando o dia a dia de moradora do Jardim São Bernardo, bairro da periferia de São Paulo, localizado no extremo sul da cidade, onde nasceu e cresceu. Um cotidiano distante do glamour de uma rock star. Para ela, o metal no Brasil é um estilo underground “e sempre vai ser”, enfatiza. Mas a vocalista diz acreditar que isso não é demérito e se mostra orgulhosa de fazer parte da cena nacional. “Todas as bandas que vocês conhecem, que estão aí tocando, já passaram perrengue. Já teve diarreia no meio da tour, já passaram fome, já quebrou van na estrada. A gente é ser humano como qualquer outro. Não tenho vergonha nenhuma de falar e mostrar que é isso aí, minhas raízes”.

Ouça a entrevista com Fernanda, da Nervosa, além de falas do Krisiun, Mystifier, Voodoopriest, Violator e One Arm Way.




quarta-feira, julho 05, 2017

O longevo rock de Renato e seus Blue Caps

Capa de disco lançado em 1963, com participação de Erasmo Carlos.

por AD Luna

Formada três anos antes da Rolling Stones, banda de rock criada por Renato Barros é a mais antiga em atividade e completa 53 anos

No mês passado, o mundo comemorou meio século de vida dos Rolling Stones. A banda britânica de rock é uma das mais influentes e longevas do planeta. Porém, não é a mais antiga em atividade. Tal título tem sido atribuído a Renato e Seus Blue Caps, grupo carioca, amado pelo Brasil e pelos pernambucanos, criado em 1959 - portanto, três anos antes do conjunto do (ainda) rebolativo Mick Jagger e do (sempre) sisudo Charlie Watts. O guitarrista, vocalista e compositor Renato Barros, 68 anos (Nota: matéria publicada em agosto de 2012), é um dos principais responsáveis pela carreira de sucesso dos Blue Caps.

"Temos um título que não sabemos se é bom ou ruim. Mas que é verdade, é", reafirma Barros, por telefone, demonstrando muita simpatia e bom humor. A banda tem shows marcados para acontecer, hoje, em São Lourenço da Mata e Olinda, e, amanhã, no Clube das Pás, no bairro recifense de Campo Grande, onde deve apresentar alguns dos seus inúmeros sucessos a exemplo de Se você soubesse, Feche os olhos, Capeta em forma de guri, Não te esquecerei, Dona do meu coração, Meu bem não me quer, A primeira lágrima, Gatinha manhosa, Meu primeiro amor e muitos outros.

O grupo surgiu num tempo no qual artistas do então adolescente rock’n’roll dominavam os corações juvenis. Caso de Elvis Presley, Bill Halley, Little Richards, entre outros - numa era pré-Beatles e Stones. "Enquanto a bossa nova era preferida do pessoal da zona sul do Rio de Janeiro, os jovens da zona norte se mostravam mais interessados e influenciados por aquele som americano. Em toda esquina de subúrbios do Rio havia um conjunto de rock", relembra.

O então adolescente Renato Barros, com seus 14 ou 15 anos ("não me lembro bem"), estava empolgado com aquela nova onda. "Na época, tínhamos o Hoje é dia de rock, transmitido pela rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro. Todo mundo passava por esse programa. Vi a fila de inscrição e me cadastrei. O detalhe é que me inscrevi antes de formar uma banda", conta, sob risos.

Para se apresentar no programa, as atrações ou tocavam ao vivo ou faziam mímicas de artistas conhecidos. Por ainda não se sentirem seguros como músicos, o embrião do conjunto - Renato e seus irmãos Paulo Cezar e Ed Wilson - resolveu escolher a segunda opção.

No entanto, os ingênuos garotos não faziam ideia de como funcionavam as tais interpretações músico-gestuais que se davam no auditório da rádio. De casa, eles apenas ouviam os programas, a vibração do público, os aplausos e gritos. Chegando lá, viram que a história era outra: se depararam com conjuntos muito bem ensaiados, que executavam coreografias super elaboradas. "Era uma coisa bonita de se ver, diferente da gente. Nossa apresentação foi um desastre e acabamos sendo muito vaiados", descreve Renato.

A pancada foi grande. No bairro em que moravam, os amigos e vizinhos insistiam em comentar sobre a situação vexaminosa. "Foram vaias que até hoje ressoam na minha cabeça", brinca Renato. Mas, ao invés de minarem o entusiasmo dos rapazes pela música, a situação serviu como estímulo.

Assim, cerca de dois meses depois, eles estavam de volta ao programa. Mas, dessa vez, para tocar ao vivo. "O diretor do programa, Jair de Taumaturgo, olhou pra gente e não acreditou. ‘Puxa, de novo. Vocês são muito ruins. Não façam isso!’". Mas, dessa vez, foi diferente. Já com o nome Renato e Seus Blue Caps (que substituíra o anterior, Bacaninhas do Rock da Piedade), eles tocaram e cantaram o clássico Be-bop-a-lula, gravado pela primeira vez, em 1956, por Gene Vincent e Seus Blue Caps (daí a inspiração sugerida a eles por Taumaturgo) e que ganhou novas versões nas mãos dos Beatles, Jerry Lee Lewis, Carl Perkins, Queen, Raul Seixas.

Daí em diante, o grupo seguiu por uma trilha ascendente. Acompanharam e gravaram com outros artistas, apresentaram-se no programa do Chacrinha, na TV Tupi, lançaram seu primeiro álbum, Twist, em 1962 (portanto, há meio século), dividido com os cantores Cleide Alves e Reynaldo Rayol (irmão de Agnaldo), chegaram a ter como crooner do conjunto Erasmo Carlos e acompanharam o rei Roberto na gravação da faixa Splish splash - do álbum homônimo, de 1963.

"Começamos todos juntos. Foi Roberto Carlos que conseguiu nos colocar na gravadora CBS - que era muito conservadora e não gostava de roqueiros. Convivemos por uns bons anos e ele gravou algumas músicas minhas", diz Renato. Uma delas é o sucesso Você não serve pra mim, presente no disco Roberto Carlos em ritmo de aventura, de 1967.

Fama na cola dos Beatles

Boa parte do sucesso e da popularidade alcançada por Renato e Seus Blue Caps se deve a suas versões em português de músicas dos Beatles. O interessante é que muitas dessas recriações até hoje chegam a ser mais populares, no Brasil, do que as originais. Isso pode ser observado, por exemplo, durante os dois shows que Paul McCartney fez no Recife, em abril. No Arruda, pessoas cantavam emocionadas a versão abrasileirada de All my loving, transformada em Feche os olhos pelos cariocas.

Ao todo, eles fizeram 17 recriações de canções dos britânicos, sendo que 15 entraram em sua extensa discografia. A primeira delas foi Menina linda, originalmente composta pelos garotos de Liverpool como I’´ve should have known better. "Ela nos foi sugerida por Carlos Imperial (ator, compositor, produtor e apresentador de TV, falecido em 1992, aos 56 anos). Até então, eu nunca tinha ouvido falar em Beatles. Ele me deu um disquinho com a música e me pediu para aprendê-la. Se meu inglês já é ruim hoje, naquela época era pior ainda, não entendia nada do que eles cantavam e resolvi escrever uma letra qualquer", explica.

Apresentada em um programa comandado por Imperial, Menina linda teve grande repercussão. "Ele nos falou para incluir a música em disco. Nós assim fizemos e só depois que o disco saiu é que pedimos autorização. Mas os Beatles nunca criaram problemas", relembra um sempre divertido Renato.

O álbum em questão era o Viva a juventude!, lançado em 1965 pela CBS. Nesse LP, há outras versões dos Beatles: Sou feliz dançando com você (I’ am so happy just to dance with you) e Garota malvada (I call your name), além dos sucessos Negro gato (Getúlio Cortes) e Gatinha manhosa (Erasmo e Roberto Carlos).



Para um amor no Recife

Renato Barros tem uma relação especial com o Estado. Ele possui parentes no Recife e chegou a ter uma namorada na cidade. A relação durou 11 anos e Renato costumava visitá-la quinzenalmente. Por conta disso, muita gente pensa que ele morou aqui.

Rubro-negro em Pernambuco e no Rio de Janeiro, onde torce pelo Flamengo, ele aceitou de pronto o convite para compor o Hino à Treme Terra, canção para uma das torcidas mais atuantes do Sport Clube do Recife.

"No fim dos anos 1970, assisti a uma partida entre Santa Cruz e Sport. Fiquei bastante emocionado com o estádio cantando minha música", relembra Renato.

Renato Barros se diz um eclético no quesito gosto musical. "Gosto de tudo que me agrada os ouvidos. Bossa nova, forró, rock, jazz, blues. De tudo!", comenta o guitarrista, que já deu uma canja no projeto Oi Blues by Night.

Atualmente formado por Cid (vocal), Renato Barros (guitarra e vocal), Gilsinho Moraes (bateria), Amadeu Signorelli (baixo) e Darcy Velasco (teclados), Renato e Seus Blue Caps faz uma média de duas a três apresentações por semana.

"Antes, fazíamos cinco, seis shows semanais. Era uma loucura! Mas, com o tempo, ficamos mais seletivos. Só aceitamos tocar em ambientes com boa estrutura de som e luz. Está muito bom assim e acredito que estamos tocando melhor", afirma.

 Originalmente publicada no Jornal do Commercio.