Para não cair no conto de "a ciência comprovou". Entrevista com Carlos Orsi, especialista em divulgação científica



"Um avião voa, segundo leis científicas, e não importa se quem o está pilotando é cristão, muçulmano, comunista, socialista, capitalista. Os princípios da ciência, as leis descobertas pela ciência têm essas propriedades fundamentais de serem, primeiro, consequentes (elas operam no mundo) e, segundo, dessas consequências serem universais. São duas propriedades que se podem até dizer que são exclusivas da ciência".
Carlos Orsi

Por AD Luna - ad.luna@gmail.com

Seja navegando por sites, conferindo postagens em redes sociais ou mensagens enviadas por meio de aplicativos como Whatsapp e Telegram, não é incomum se deparar com títulos de "notícias" alegando que "a ciência comprova tal coisa", "está provado cientificamente que óleo da planta X cura doenças Y", entre outras alegações. Nesta entrevista, originalmente registrada em áudio para o programa Interdependente - música e conhecimento, o jornalista especializado em divulgação da ciência Carlos Orsi expõe como o método científico pode nos ajudar no dia a dia e a ficar atentos a coisas classificadas como "cientificamente comprovadas".

Orsi também aborda a falsa noção de que, em jornalismo, devemos dar peso igual a dois pontos de vistas diferentes. Ou seja: nem sempre ouvir os dois lados é algo jornalisticamente correto em reportagens sobre ciência. É o caso, por exemplo, de questões envolvendo a Teoria da Evolução e mitos religiosos como o criacionismo.

Carlos Orsi nasceu em Jundiaí (SP), é escritor de ficção científica e horror e jornalista especializado em divulgação da ciência. É graduado pela ECA-USP, mantém um blog sobre ciência (CLIQUE AQUI), cultura e atualidades. Artigos e reportagens seus sobre ciência foram publicados nas edições brasileiras das revistas Discovery e Newton, na Geek, em Discutindo Língua Portuguesa, na revista online DataGramaZero, em O Estado de S. Paulo, Carta na Escola, no Portal Estadão e no site da Galileu, também atuou como editor assistente no Núcleo de jornalismo do Centro de Estudos Avançados da Unicamp

Não é muito difícil a gente encontrar notícias, artigos e mesmo discursos de pessoas nos quais são ditas alegações como "está provado CIENTIFICAMENTE que tal coisa é verdade", "a ciência mostra que reencarnação existe", "cientista apresenta cura para o câncer e é censurado". O que há de realmente científico nessas coisas e como saber diferenciar o que é de fato ciência do sensacionalismo, busca desenfreada por audiência.

Carlos Orsi - O que acontece é que as palavras "ciência", "científico" têm um peso de autoridade que muitas pessoas gostam de se apropriar para fazer prevalecer seus pontos de vista, vender suas mercadorias etc. Mesmo porque a ciência conquistou essa autoridade até pela questão da realidade em que a gente vive, da civilização atual. Computadores, carros, satélites... Todas essas tecnologias têm como base descobertas científicas. Quer dizer, uma coisa que a ciência tem e que dá pra se argumentar que a distingue profundamente de outras, digamos assim, fontes de autoridade como religião, superstição, ou o mero senso comum, é que quando você diz que alguma coisa é um fato científico, uma verdade científica, ela pode vir a ter consequências palpáveis no mundo real. Ciência tem uma coisa que a torna uma autoridade muito forte: as verdades científicas não só têm consequências no mundo real, mas também possuem consequências que são universalmente válidas. Um avião voa, segundo leis científicas, e não importa se quem o está pilotando é cristão, muçulmano, comunista, socialista, capitalista. Os princípios da ciência, as leis descobertas pela ciência têm essas propriedades fundamentais de serem, primeiro, consequentes (elas operam no mundo) e, segundo, dessas consequências serem universais. São duas propriedades, que se podem até dizer que são exclusivas da ciência.

Quanto ao que distingue uma coisa que é cientificamente verdadeira de uma coisa que só se diz que é cientificamente verdadeira, primeiro se deve conferir se ela realmente tem essas duas propriedades, quer dizer, se ela traz realmente consequências para o mundo real e se essas consequências são universais, independentes das opiniões, das crenças das pessoas em geral. E, em segundo lugar, acho que isso talvez seja o teste mais prático, é chegar a questão do consenso científico, porque a ciência não é algo que alguém diz. Quer dizer, não existe um papa da ciência, um dalai lama da ciência, um Freud da ciência. "Se Fulano disse, então é verdade". Não. A ciência se constrói com base nos consensos dos cientistas: se a maioria dos cientistas que trabalham em determinado assunto concordam que X é um fato científico, você pode, com uma boa dose de confiança, aceitar essa ideia. Eles podem até estar errados, mas essa chance é relativamente baixa. Ao contrário, se apenas um cientista diz que tem a cura do câncer, mas todos os outros especialistas na mesma área discordam disso. Aí você tem uma boa razão para duvidar desse cara. A principal fonte de autoridade desse discurso, o tal fato científico... Se você vai se basear numa autoridade pra aceitar isso, essa autoridade tem que ser do consenso dos cientistas que estudam aquele assunto. Não quer dizer que não possa acontecer de ter um cara sozinho que esteja certo e o consenso todo estar errado. Isso já aconteceu em algumas ocasiões, mas esses eventos são extremamente raros e não dá pra se confiar neles. Na esmagadora maioria das vezes, o "fato científico" é aquilo que é afirmado pelo consenso dos especialistas na área. 

Como jornalistas, a gente sabe que existe aquele princípio de "se ouvir os dois lados". No entanto, há casos em que isso não é lá tão adequado. Já li algo afirmando que, por exemplo, juntar numa mesma reportagem um cientista falando sobre evolução e um evangélico fundamentalista defendendo o criacionismo é um exemplo da mau uso desse recurso. Poderia explicar por que isso seria um erro?

A questão dos dois lados em assuntos científicos é realmente complicada. Mas dá pra explicar isso por uma questão bem simples: ciência não é uma questão de opinião. Não importa se eu ache que a aceleração da gravidade na superfície da Terra é 9,8 m/s (metros por segundo) ao quadrado ou se ache que é 15,7 m/s ao quadrado. Você pode medir isso e descobrir qual é a aceleração real e as opiniões contrárias estão simplesmente erradas. Então, não tem porque ouvir a opinião contrária. Existe uma medida objetiva de qual é a realidade e quando você tem isso, opiniões contrárias desinformam. Existem fatos científicos que são afirmados tanto pelo consenso dos cientistas que trabalham numa determinada área quanto por medições, que podem ser realizadas por qualquer pessoa, medições, verificações. Por exemplo, verificação de fatos históricos: se você tem a opinião de que nunca existiu alguém chamado Napoleão Bonaparte que foi imperador da França, você pode consultar documentos históricos, do início do século 19, e vai ver que realmente existiu um cara com ta nome, que se tornou imperador daquele país. Opiniões contrárias a isso simplesmente desinformam. E, ao desinformar, elas vão contra o espírito do jornalismo, que é levar a verdade ou a coisa mais próxima da verdade possível ao leitor. Não faz sentido você apresentar a ele um ponto de vista que é sabidamente ou comprovadamente falso. O número de pontos de vista falso é infinitamente superior aos verdadeiros. Pra cada verdade que existe, há milhares, milhões de mentiras. Então, se você for citar a verdade e citar todas as mentiras que se opõem a elas, seu texto não vai terminar nunca. 

No caso do jornalismo científico, especificamente, isso é especialmente capcioso porque, por um lado, existem verdades científicas, princípios científicos, como Teoria da Evolução, que estão estabelecidos sobre bases tão ou mais sólidas quanto à existência de Napoleão Bonaparte, o fato de que as plantas têm folhas verdes, ou coisas do tipo, mas que não tão obviamente verdadeiros para quem não estudou aquele assunto. Evolução, de repente, é uma caso desses, a eficácia das vacinas... Para o público em geral, pode haver impressão de que existe uma controvérsia e que, portanto, caberia aos jornalistas dar igual espaço aos dois lados. Como no caso de controvérsias sobre políticas econômicas ou (no caso de eleições) qual o melhor candidato para determinado cargo. Mas uma controvérsia pública não significa que ela seja "real". A responsabilidade profissional do jornalista é identificar onde a controvérsia é real - e a honestidade intelectual requer que se apresente o outro lado - e onde a controvérsia é falsa, fabricada e apresentação do outro lado presta um desserviço ao leitor. Acho que existem muitos casos, eu diria a maioria dos casos, no jornalismo científico, ou na divulgação científica, de controvérsias fabricadas - que, na verdade, não existem, são artificiais. O jornalista que está realmente interessante em oferecer a melhor aproximação possível da verdade para o seu leitor tem que enxergar isso e saber evitar essa busca por um outro lado que, no fim, dá um destaque para uma falsidade.

Gostaria que você explicasse como funciona o método científico e de que forma ele pode ajudar o cidadão comum, que não é cientista no dia a dia. 

Essa questão de método científico é bem cabeluda, né? Há até quem negue que exista um método científico, ou quem chame atenção para o fato de que as diferentes ciências têm diferentes métodos: a história tem um método, a física tem outro, a biologia tem outro... Apesar de tudo isso, o construto, o modelo mais geralmente citado que o do método hipotético dedutivo é ainda bastante útil. 

Ele funciona assim: você observa um fenômeno na natureza, formula uma hipótese sobre o que causa esse fenômeno, daí deduz conclusões, coisas que devem ser verdades, se sua hipótese for verdadeira, e aí você testa os resultados da sua dedução. Se X é verdade, então Y tem que acontecer. Aí você vai procurar para encontrar Y. Logicamente, o que os lógicos chamam de modus tolens: se A, então B. Se eu quero saber se A é verdade, tenho sair por aí procurando B. A estrutura lógica é de que, sempre que tenho A, B aparece em seeguida.

Essa estrutura é um modelo altamente abstrato, nem todas as ciências funcionam dessa forma, mas acho que ela é aplicável sim dentro de seus limites, a uma grande gama de empreitadas científicas. 

Uma coisa que é especial na ciência é que a parte de teste das consequências deduzidas tende a preferir fortemente os testes negativos. Quer dizer, se eu levanto a hipótese de que, por exemplo, "se choveu, a rua vai estar molhada?". O fato de eu achar a rua molhada é menos importante do que se eu achar a rua seca. Porque os testes negativos são fundamentais, são muito mais importantes. porque se você diz A, então B, se o evento X aconteceu, então o evento Y se seguiu, não existe nenhuma garantia de que o evento Y requer o evento X. A rua pode estar molhada, por exemplo, porque passou um caminhão pipa ou estourou uma adutora.

Então, acho que o que marca o método científico além desse estrutura hipotético-dedutiva, é o fato de que o teste da conclusão dedutiva tem mais valor quando ele é um teste negativo, quando ele procura provar que a conclusão dedutiva é falsa do que quando é um teste positivo. Quando ele simplesmente busca confirmações da conclusão dedutiva. Tanto que uma das minhas definições favoritas de ciência é que ela é uma caixa de ferramentas para ajudar as pessoas a escapar do viés de confirmação - que é a tendência de colecionar instâncias confirmatórias e fazer pouco caso das negativas, das desconfirmatórias. 

Isso pode ajudar as pessoas no dia a dia de uma infinidade de maneiras: desde de analisar as promessas de candidatos em campanhas eleitorais - se o candidato X é honesto, então não deve haver determinadas consequências Y, Z, W na ficha dele, nas contas bancárias dele, nas doações de campanha. Se estiverem, isso depõe contra. Acho que a principal contribuição para raciocínio no dia a dia são primeiro, esse foco nas provas negativas (elas precisam ser levadas em consideração) e o ceticismo fundamental. Quer dizer, toda afirmação tem que ser ou deve ser sujeita à teste.

Outro exemplo muito comum sobre teste científico é o da criança chorando no quarto ao lado. Você está num quarto, você escuta a criança no quarto ao lado... Você imagina que a televisão está ligada, que o choro tá entrando pela janela, que a criança está num prédio vizinho, ou que realmente tem uma criança chorando no quarto ao lado. A atitude científica é você ir ao quarto ao lado e ver o que está acontecendo de verdade. Esse tipo de atitude - que é científica - as pessoas deveriam cultivar mais.

Ouça a entrevista no programa Interdependente - música e conhecimento