Cristianismo é intolerante por nascença e igrejas continuam cegas, afirma pastor protestante

Pastor Alexandre Cabral, estreia Interdependente. Foto: reprodução YouTube

Olá, povo! Olá, pessoas! Bem-vindos à primeiríssima edição do programa Interdependente - música e conhecimento.  Tanto aqui quanto no blog, nas redes sociais etc e tal, a gente vai mostrar a interdependência (vejam só, que nome bonito!) que existe entre músicas do mundo e assuntos diversos.

Na estreia do programa, eu, AD Luna, converso com Alexandre Cabral. Pastor protestante que não tem medo de reconhecer os erros cometidos no passado e no presente pelo cristianismo. Na entrevista, Cabral trata da desconexão entre os ensinamentos de Jesus e as palavras e atitudes daqueles que se dizem seguidores dele.

Na parte musical, sons escolhidos pelo próprio pastor. A saber, Geni e o zepelin, de Chico Buarque e Gita, de Raul Seixas e Paulo Coelho. Aproveitando esse gancho da obra do Raulzito, o Interdependente aborda o Bhagavad Gita, um dos mais belos textos da tradição espiritual da Índia.


INTERDEPENDENTE - música e conhecimento

Apresentação e pauta: AD Luna
Trabalhos técnicos: Gustavo Augusto
Trilha das vinhetas: banda Monjolo

Ouça o programa na íntegra


Trechos transcritos da entrevista:

Pergunta - Não deixa de causar estranheza o fato de assistirmos a lideranças e pessoas comuns que se dizem cristãs apoiarem tudo o que, aparentemente, contradiz as palavras e ações de Jesus. É gente com discurso de ódio, praticando agressões contra homossexuais, defendendo o tal do bandido bom é bandido morto, entre outras atrocidades. Isso é cristianismo, pastor?

Alexandre Cabral – De certo modo, o que você tem é uma cultura de rebanho, que quer produzir réplicas de seus valores, que são por si sós narcísicos, já que cada um quer ver no outro sua própria face. Consequentemente, o cristianismo é intolerante por nascença, porque ele afirma o seu deus, no século segundo em diante, da era cristã, sempre negando outras possibilidades de compreensão do significado do sagrado. Na verdade, o deus cristão, que se tornou o deus hegemônico, pressupõe um deicídio, o assassinato de outras possíveis compreensões da palavra Deus ou das múltiplas expressões do sagrado. Isso se reflete na relação entre igreja e sociedade. A igreja não quer só ter um espaço para si como quer que não haja outros espaços que não expressem as suas compreensões (da igreja) da vida e modos de ser. Isso está se refletindo diretamente, hoje, nos fundamentalismos cristãos no mundo inteiro. Sobretudo no Brasil, com a bancada evangélica, com as intolerâncias com as tradições afro-brasileiras, com as múltiplas expressões da sexualidade, como os grupos LGBTs, como outras possibilidades de vida em família, como a expressão do poliamor. Na verdade, a violência faz parte da essência cristã. Com certeza não da mensagem de Jesus de Nazaré, mas da interpretação e da institucionalização dessa mensagem.



Pergunta – Coisa bastante curiosa é o modo como certos pastores e fieis se utilizam da Bíblia. Quando é para estimular o discurso de aversão aos homossexuais, usam-se de maneira literal trechos do Deuteronômio, por exemplo. Mas e aquela parte na qual Jesus diz que se deve abandonar a riqueza e entregar tudo aos pobres? Ninguém quer seguir ao pé da letra. Como se explica isso?

Alexandre Cabral – A sua pergunta seguinte é muito boa, da seletividade dos textos bíblicos para legitimidade de certas causas eclesiásticas ou comunitárias. A sexofobia é um sintoma historicamente construído com finalidades ideológicas as mais diversas. Seja para manutenção do masculinismo no comando das instituições cristãs e o rebaixamento da mulher com práticas misóginas e de discursos extremamente discriminatórios (...). Ao mesmo tempo, você tem uma desfaçatez de tornar invisíveis questões sociais muito graves que afetam não somente a minha relação com meus prazeres, mas as condições históricas de convivência humana como se elas não fossem o eixo da preocupação da fé cristã (...). Pela teologia da prosperidade, que é de origem evangélica, (nascida) no início do século 20, sobretudo na segunda metade, e o vínculo que ela tem com o modo de produção capitalista, o que acaba (acontecendo) é que você legitima biblicamente a livre iniciativa, o lucro, a abundância material e não nota que, em vários textos dos evangelhos, a figura de Jesus aparece como aquele que é pobre. Que não é só pobre no sentido metafórico, era aquele que era despossuído. Diz o texto bíblico que Jesus não tinha onde inclinar a cabeça. É assim que ele fala a alguém que estava querendo segui-lo. Consequentemente, esse ato de abrir mão do desejo de posse e da produtividade incessante, que coordena de certo modo as culturas desse mundo globalizado são colocadas em xeque pelas práticas cristãs. O tipo de amorosidade pregada por Jesus, que é uma amorosidade incondicional... Ou seja, a gratuidade do amor, que não visa créditos e débitos, é colocada em xeque com as meritocracias em geral. E isso fomentaria outros tipos de práticas sociais. Francisco de Assim viu isso. De certo modo, Lutero viu isso. Os teólogos da libertação viram isso. O papa João XXIII viu isso. E as igrejas continuam cegas, escolhendo os textos que legitimem os status quo sociopolítico e que mantenham várias práticas de segregação. Sobretudo com aquelas que têm conotação sexual. Você está totalmente certo. Com certeza, Jesus está muito mais preocupado com a dissolução dos laços sociais, com a favelização de vários lugares da população brasileira (...). Ele está muito mais preocupado com isso do que com a masturbação, os atos de prazer, que quase sempre expressam intenções amorosas e não de destruição daqueles que se relacionam assim.


Pergunta – Sobre os ensinamentos éticos e de compaixão de Jesus, parece que os que se chamam cristãos inverteram as coisas: passaram a sustentar uma espécie de cristolatria. Exaltam o professor, mas não seguem o que ele ensina. Também há um grande apego e deslumbramento com o super-herói, com os superpoderes do “Jesus X-Men”. O que pensa sobre isso?

Alexandre Cabral – Jesus de Nazaré, como dizem os teólogos contemporâneos, não veio para pregar a si mesmo. Ele veio para pregar o reino (...).  O pronome que ganha vez e voz com Jesus não é o “eu” ou “tu”, é o “nós”. E é exatamente essa mentalidade de partilha, de entrega, de entendimento, de diálogo é que faz com que Deus reine entre os humanos. Dostoievsky chegou a dizer no (romance) Os irmãos Karamazov, quando Jesus aparece diante do grande inquisidor... Ele diz na boca do grande inquisidor que as pessoas não querem o Cristo, elas querem os milagres (...). Por isso, o cristão e sua fé devem ser medidos pelo modo como se relaciona com o outro e não pelo modo como ele diz que acredita ou que formalmente define os termos das suas crenças. A gente poder dizer: “Mostra-me como amas e mostrarei quem é teu Deus”. Essa me parece que é a expressão máxima da mensagem do Cristo.

Pergunta – Muito obrigado, pastor Alexandre Cabral. Para finalizar, o que você acha que Jesus diria, nos dias de hoje, para aqueles que se dizem seguidores dele e mesmo para os que não o seguem?

Alexandre Cabral – Eu acredito que Jesus hoje falaria, se ele estivesse em carne e osso entre nós, para cada um dos seus seguidores, exatamente o seguinte: “Esqueçam a mim e ao meu nome, se lembrem do outro e do nome do outro. E quando você acolher o outro, amá-lo, entendê-lo e favorecê-lo, em verdade você estará acolhendo a mim”. Eu acho que essa é a religião que Jesus fundaria hoje, para além da moral, a amorosidade e a criatividade dos afetos humanos. E, exatamente por isso, os seguidores de Jesus encontrariam o maior dos desafios – que não é a oração, não é leitura de textos sagrados. Mas é a sacralidade das relações humanas. E sobretudo hoje, nos ecocídios mais diversos, a sacralidade das relações dos humanos com a natureza que é a casa que nos permite viver, enquanto não findamos nessa vida. Um grande abraço, eu amigo. Conta comigo sempre!