Consciência cidadã e qualidade de vida nos EUA: conheça as Twin Cities. Parte 1 de 3


A cidade de Minneapolis, uma das Twin Cities. Foto: divulgação

Em 2015, a dupla Saint Paul-Minneapolis conquistou o título de melhor sistema de parques públicos dos Estados Unidos pela organização não-governamental Trust for Public Land. Para moradores, governantes e empresários locais a ideia central é que as duas cidades devem se desenvolver em torno dos parques e jardins e não o contrário.

AD Luna

Miami, Nova York, Chicago, Las Vegas, Los Angeles, Washington, San Francisco. Em geral, são esses os lugares que aparecem como primeiras opções na cabeça de brasileiros e estrangeiros que pretendem viajar para os Estados Unidos. Mas que tal tentar algo diferente. Por exemplo, as Twin Cities? O termo se refere às cidades de Saint Paul e Minneapolis, separadas pelo famoso rio Mississipi, e localizadas no Minnesota, estado situado na região centro-oeste dos EUA, na divisa com o Canadá ao norte.


Matéria atualizada, publicada originalmente na Revista Continente #180, dezembro de 2015

Foi lá que surgiram os músicos Bob Dylan e Prince; os irmãos e diretores de cinema Joel e Ethan Coen (Um homem sério, Fargo, Barton Fink); o cartunista Charles Schulz, famoso pela criação do Peanuts, série conhecida no Brasil como A turma do Charlie Brown; além do escritor F. Scott Fitzgerald, autor de O grande Gatsby, seu romance mais famoso. Schulz e Fitzgerald nasceram em Saint Paul, a bela, e tranquila capital do estado.

Com seus grandes e aprazíveis espaços verdes, alto nível educacional e senso de coletividade da população, ampla programação cultural e opções de lazer, inúmeras bibliotecas, trânsito civilizado, baixos índices de criminalidade e desemprego global (ainda que alto entre as minorias negras e asiáticas), as Twin Cities se destacam no quesito qualidade de vida. “Morar nas Twins Cities é muito agradável. O principal ponto positivo é a boa vontade das pessoas daqui. São muito receptivas. O jeito ‘Minnesota nice’ de ser não se baseia apenas na educação, ele realmente vem de dentro”, expõe a arte-educadora recifense Goretti Aamott. 

Por motivos pessoais e profissionais, ela se mudou há 15 anos para Bloomington, na região metropolitana de Minneapolis. Tratar pessoas próximas ou desconhecidas com real interesse, atenção e sorriso no rosto é uma das características do “Minnesota nice” citado por ela. Para Goretti, um aspecto negativo é o excesso de formalidade nas relações sociais.

Depois de morar na Dinamarca, o casal de cariocas radicado em São Paulo Valéria Figueiredo e Paulo Telles decidiu se instalar em Minneapolis, no início de 2007. A decisão partiu da boa avaliação que fizeram em relação à qualidade de vida e o retorno financeiro que obteriam. “A cidade é muito limpa, o ar não é poluído. Há muitos parques, lagos, museus, teatros, cinemas e eventos, bons restaurantes e cafés”, destaca o engenheiro mecânico. “Quando vamos a uma cidade grande, me sinto meio caipira, mas gosto de morar aqui. Os americanos de outras cidades pensam que viver no Minnesota é o fim do mundo. Acham que é uma grande fazenda e que somos todos meio fazendeiros, usando chapéus e vivendo ao redor de bichos. Também falam muito sobre o frio. Como aguentamos?”, observa Valéria.

O casal Valéria Figueiredo e Paulo Telles. Foto: Divulgação
De fato, o frio é um dos grandes poréns de se viver nas Twin Cities: as baixas temperaturas podem chegar a incríveis 40 graus negativos. “O verão é curto e o inverno é longo. Tirar neve da frente de casa todo dia, limpar o carro na hora de sair do trabalho para voltar para casa são hábitos que não estamos acostumados”, conta Paulo Telles. Teoricamente, o inverno começa em dezembro e segue até fevereiro. “Mas, na prática, a neve começa a cair em novembro e vai até abril”, relata.



CIDADES VERDES

Em tempos de verticalização extrema e diminuição de áreas verdes, como vem acontecendo atualmente no Recife, chama atenção o modo como as Twin Cities foram projetadas - com suas vastas áreas verdes e poucos prédios residenciais gigantescos. Em 2015, a dupla Saint Paul-Minneapolis conquistou o título de melhor sistema de parques públicos dos Estados Unidos pela organização não-governamental Trust for Public Land.

Para moradores, governantes e empresários locais a ideia central é que as duas cidades devem se desenvolver em torno dos parques e jardins e não o contrário. Indagada sobre que ensinamentos habitantes e autoridades da capital pernambucana poderiam obter com a experiência das cidades americanas em questão, Goretti Aamott responde: “Recife precisa aprender que prédios históricos e os ultra modernos podem conviver! Planejar a cidade para a população e não para os carros seria a segunda lição”. E o contrário? “O pessoal daqui poderia aprender com o recifense a caminhar mais, passear pelos grandes centros comerciais. Isso é bom”, pondera Goretti.

Como Park, Saint Paul. Foto: AD Luna
Além das prefeituras, os parques e lagos são cuidados por empresas e milhares de voluntários. De acordo com dados da prefeitura, só em Saint Paul cerca de cinco mil pessoas se inscrevem anualmenteem programas de voluntariado para cuidar de áreas verdes da cidade. Nos parques e lagos, além de estrutura para piqueniques, churrascos, caminhadas, corridas, passeios de bicicleta, há realização de shows teatrais e musicais – boa parte deles gratuitos. 

Somados a tudo isso, os baixos registros de obesidade e tabagismo levaram as Twin Cities a conquistar a segunda colocação, em maio de 2015, entre as áreas urbanas mais saudáveis dos Estados Unidos. O título veio a partir de pesquisa desenvolvida pela American College of Sports Medicine (ACSM) e pela Anthem Foundation. A capital nacional, Washington, ficou em primeiro lugar. San Diego, na Califórnia, ocupou a terceira posição.

O uso de bicicletas é incentivado nas Twin Cities. Tanto nos trens do novo e moderno metrô que corta as duas cidades, quanto nos ônibus, há espaços reservados para se guardar os veículos de duas rodas gratuitamente e a qualquer hora. O trânsito é tranquilo, longe do caos vivido em metrópoles do Brasil e de cidades dos próprios Estados Unidos. Ciclistas e pedestres são bastante respeitados, ao ponto de até existir gente que cola adesivos em seus carros com dizeres do tipo “Eu paro para o pedestre”, demonstrando orgulho por esse simples gesto de civilidade.


Até junho de 2015, a prefeitura de Minneapolis havia gasto cerca de 750 mil dólares na implementação de ciclovias. Isso contribuiu para que o município fosse o único dos Estados Unidos a ser incluído na lista das 20 cidades mais amigáveis ao uso de bicicletas do mundo pela Copenhagenize Design Co. Além da capital dinamarquesa, a empresa de consultoria urbana tem escritórios em outros países. Ela elabora e divulga esse ranking desde 2011. Apesar de Minneapolis ter ficado na 18º posição, a conquista foi comemorada por moradores e pela imprensa do Minnesota. Buenos Aires foi a única cidade da América do Sul a entrar na listagem, ocupando a 14º colocação.