Acervo histórico da gravadora Rozenblit entra na era do streaming

Fachada do antigo prédio da Rozenblit

Todo o conteúdo está sendo digitalizado e disponibilizado em diversos canais de audição e venda online

Matéria atualizada em 15/10/2015, publicada originalmente no Diario de Pernambuco, em 23/07/2015

por AD Luna

Criada em 1954 por José Rozenblit, a fábrica/gravadora pernambucana que leva o sobrenome do comerciante de origem judaica chegou a ser uma das mais importantes do país. Em especial durante os anos 1960, quando dominou quase um quarto do mercado fonográfico brasileiro. Adquirido em outubro de 1995 pelo empresário de comunicação João Florentino, o acervo da Rozenblit agora entra na era da distribuição online. Todo o conteúdo está sendo digitalizado e disponibilizado em diversos canais de audição e venda por streaming.

“Desde fevereiro (de 2014), estamos trabalhando no envio de discos inteiros de Nelson Ferreira, Capiba, Claudionor Germano, Zé Kéti, Agostinho dos Santos, Coronel Ludugero, entre outros, para plataformas como iTunes, Amazon, Spotify, Deezer, além do YouTube”, explica o técnico de som Hélio Ricardo Rozenblit (um dos filhos de José Rozenblit), que trabalha com João Florentino.

Links no Spotify:

Polydisc - https://play.spotify.com/user/polydiscmusic

Rozenblit - https://open.spotify.com/user/rozenblitmusic

O empresário foi proprietário da antiga rede de lojas Aky Discos, da distribuidora de discos Condil e do selo Polydisc - pelo qual chegou a lançar álbuns da Banda Calypso, Babado Novo (ainda com Claudia Leitte) e a série 20 Super Sucessos. As coletâneas reuniam hits de Adilson Ramos, Vanusa, Noite Ilustrada, Núbia Lafaiete, Reginaldo Rossi, Cauby Peixoto, Dominguinhos, Erasmo Carlos, Jair Rodrigues, entre muitos outros artistas populares, e estão em processo de digitalização.

Bastante tarimbado no mundo da indústria musical, João Florentino não tem expectativas em relação ao lucro por meio de vendas do acervo digital da Rozenblit. “Faço isso porque gosto da música de Pernambuco e para não deixar o acervo morrer, para se perpetuar na história”, defende. 


A distribuição internacional do acervo da Rozenblit, das coletâneas e de outros lançamentos da Polydisc está sendo feita pela Believe Digital. A empresa, sediada na França, mantém escritórios em mais de 20 países da Europa, Ásia e Américas. “Trabalhar com um catálogo como o da Rozenblit é resgatar um pouco da história da música brasileira em sua diversidade e colocá-la em destaque no país e no mundo, com todo respeito necessário”, diz James Lima, gerente da Believe no Brasil.

O acordo para lançar os discos da Polydisc foi feito recentemente e o da Rozenblit há cerca de um ano. “É quase um trabalho de arqueologia. Acredito que mais uns 50 a 100 álbuns estarão disponíveis até o fim do ano”, projeta James. Aos poucos, o conteúdo da Rozenblit está sendo publicado na redes sociais. A antiga fábrica e gravadora tem perfis no Facebook e YouTube. 

Processo
Após serem retiradas da sala onde estão acondicionadas, as fitas originais precisam ser higienizadas com bastante cuidado. Depois é preciso reproduzi-las, uma por uma, em gravador de rolo. “Algumas estão tão deterioradas que simplesmente se desmancham”, conta Hélio Rozenblit. A partir daí, o conteúdo é convertido do formato analógico para o digital e, em seguida, enviado para o computador. É preciso analisar e consertar eventuais defeitos contidos em cada uma das faixas.

Na Europa
Há dois anos, o selo inglês Mr. Bongo tem relançado discos da Rozenblit na Europa. As obras saem em LP e CD e incluem títulos raros e cultuados a exemplo do Paêbirú, de Lula Côrtes e Zé Ramalho; Flaviola e o Bando do Sol; Marconi Notaro no Sub Reino dos Metazoários; Grande liquidação, de Tom Zé; o EP Aratanha Azul, da banda pernambucana homônima, do pioneiro da bossa nova Johnny Alf, entre muitos outros. O catálogo pode ser acessado pelo link.

Documentos
O acervo de cerca de mil títulos se encontra armazenado numa sala do estúdio Somax, localizado na Rua Imperial, bairro de São José. Além das fitas originais de gravações realizadas por artistas pernambucanos, nacionais e internacionais, o local abriga antigos contratos artísticos. É o caso do documento assinado por Reginaldo Rodrigues dos Santos, integrante do The Silver Jets, que depois seguiria carreira solo como Reginaldo Rossi. Também há documentos de liberação de canções que precisavam ser aprovados pela censura instalada pela ditadura militar.

Selos
A Rozenblit lançava seus discos utilizando os selos Mocambo (de música regional), Passarela (coletâneas carnavalescas, sambas, trilhas sonoras), Artistas Unidos (gravações de músicos das regiões Sul e Sudeste do Brasil), Arquivo (coletâneas especiais) e Solar (dedicado a sons mais experimentais).

Pesquisas
A jornalista e produtora cultural Melina Hickson lançou em 1998 o documentário Rosa de sangue, que conta com depoimentos de José Rozenblit, Zé da Flauta, Claudionor Germano, José Teles, Leonardo Dantas, Kátia Mesel, Lula Côrtes e Zé Ramalho. Outra obra que trata da memória da gravadora é a monografia, escrita por Érica Lucena, Eco da Rozenblit – Memórias de uma fábrica de discos. O texto está disponível para pesquisa no Academia.edu. Além de fatores econômicos, as constantes enchentes que castigaram o Recife durante as décadas de 1960 e 1970 contribuíram para o fechamento da gravadora, que funcionou na Estrada dos Remédios, em Afogados, até meados dos anos 1980.

UFPE
Em 2010, a Universidade Federal de Pernambuco e João Florentino firmaram acordo de cessão de direitos de curadoria do acervo o qual prevê livre acesso com objetivo de pesquisa e registro cultural. A instituição educacional trabalha na preservação, restauro, valorização, identificação e segurança física do acervo da Rozenblit. A iniciativa integra o Programa de Extensão Rede Memorial de Pernambuco, aprovado pelo Ministério da Educação, por meio do Edital Proext/MEC/SESU 2015. 

Assista ao documentário Rosa de sangue, de Melina Hickson





Publicada originalmente no Diario de Pernambuco