A triste e preocupante situação do "Brasil Consumo Marabraz"


"Riqueza e nobreza não se fazem apenas com celular das Casas Bahia, mas também com dignidade, resiliência, educação, cultura e instrução. E nisso, parece, falhamos bem. Nem tentem atribuir a um partido só, é histórico e conjuntural"

Texto de Lázaro Freire, publicado originalmente no Facebook, como comentário aos depoimentos de Frei Beto registrados aqui!

CONSUMISMO X EDUCAÇÃO? HUMILDADE É SINÔNIMO DE DESONRA? ARROGÂNCIA É SINAL DE PODER, OU MECANISMO DE DEFESA NA FALTA DELE?
O pior dos anos de consumo no Brasil foi ter criado uma legião de pessoas pobres sem acesso à educação, mas que se sentiram empoderadas - e, não raro, arrogantes - por terem conseguido alguns bens de consumo - genéricos, obsoletos e descartáveis. Riqueza e nobreza não se fazem apenas com celular das Casas Bahia, mas também com dignidade, resiliência, educação, cultura e instrução. E nisso, parece, falhamos bem. Nem tentem atribuir a um partido só, é histórico e conjuntural.
Historicamente, arrogância costumava ser marca (negativa) de muito conhecimento. Já a humildade, até há algumas décadas, era a marca principal e mecanismo de defesa mais presente nos menos favorecidos. Não estou falando em desonra, ao contrário, pobres eram bastante honrados, fiéis aos seus valores e crenças. Humildes na escola, dispostos a aprender.
A meu ver, a PIOR herança desse "Brasil Consumo Marabraz", dando bens (descartáveis) sem educação, foi conseguir inventar o pobre arrogante - e pior, na maioria das vezes, sem honra. Porque a honra não está na truculência, nem numa pseudo auto-estima agressiva e bipolar, nem numa estampa Hollister de camelô. Eu via honra em velhinhos crentes de minha infância, via benzedeira na beira do fogão de lenha, via honra no senhor do boteco e mercearia do bairro, no olhar das pessoas "carentes" que eu visitava nos asilos. Via honra e respeito na humildade de meus colegas mais pobres nas escolas públicas em que sempre estudei. E brilho nos olhos deles, a cada vez que iam em minha casa brincar com meus brinquedos, ou pesquisar em milhas enciclopédias, ou quando na vida tinham acesso à algum bem ou informação. Este brilho, não vejo mais.
Tentei dar aula no Estado de SP, para retribuir a educação pública de qualidade que recebi, e quase apanhei. Alunos com amplificadores MP3 tocando funk, bullying para cima do professor, adolescentes grávidas, tráfico de drogas em pleno corredor, e nós sem podermos fazer nada, e ainda recebemos ameaças. O que mais ouvi foi adolescente de pescoço levantado, me empurrando e dizendo que "nóis tem us nosso direito". Uma vez chamei os pais - a mãe tinha 30 anos, não morava no bairro (falsificam documentos), era da favela de Heliópolis, muito mais barraqueira que o filho, inverteram tudo, aprontaram na diretoria, e ainda levei advertência do diretor. Pobreza sem humildade, vamos longe. E ainda obrigados a PASSAR todo mundo, "aprovação automática" (e Piaget se revira no túmulo) pois os empresários amigos de Alckmin os querem todos na ETEC feito gado para virarem logo mão de obra barata.
Ainda por cima, a diretora me perguntou o que eu estava fazendo ali, eu que tinha um certo nível. Disse que estava retribuindo à sociedade, já que a educação pública havia feito de mim o que sou. Ela, ríspida, disse pra eu deixar de ser idealista, pois "a sociedade não estava nem um pouco interessada na sua retribuição". Um colega professor, sábio, me aconselhou: "finja que ensina, eles fingem que aprendem, passamos todo mundo, ninguém cria problema para ninguém". Outra professora, péssima, disse que odiava a escola, os alunos, que era bem casada, mas que estava ali copiando fichas no quadro porque "não pega bem uma mulher não ter uma ocupação". Um aluno brigou comigo por eu ter dado uma boa aula, e me questionou. Eu disse que queria colaborar com a educação do meu bairro, que um dia milhas sobrinhas ou filhos poderiam precisar estudar ali. Ele deu uma gargalhada Fundação Casa, me chamou de trouxa e disse que eles não são do bairro. Eles falsificam endereços e cominam as escolas de bairros melhores, praticamente EXPULSANDO os alunos do bairro para outros lugares.
Desisti.
Portanto, o pior para mim não foi o consumo, mas a falsa sensação de falo e arrogância que o consumo trouxe àqueles que carecem de educação. E não confundamos humildade com desonra. As pessoas mais humildes que conheci tinham um caráter, uma fé e até uma auto-estima (dentro de seu modelo de vida) de dar inveja na geração fake-narcísico-hedonista dos tempos atuais.
Fico imaginando quantas gerações e assaltos serão necessários para, com o passar das décadas, os filhos e netos dos pobres arrogantes e consumistas de hoje percebam que TALVEZ uma certa humildade, educação, simplicidade e disciplina possam ser ARMAS a seu favor, na escola e na vida - e que isso não significará perder sua honra, mas, antes, resgatá-la.
Ninguém se entope de VIAGRA preventivo se acha que dá conta do recado. Toda e qualquer PRÉ-potência é SEMPRE um mecanismo de defesa neurótico contra uma assumida IM-potência.
Confio na atual equipe do ministério da Educação. Acredito que em 20 ou 30 anos podemos ter pessoas integralmente formadas, trabalhando dignamente e reconstruindo seus bens. Mas fico pensando como a classe pobre mais arrogante - aquela mãe barraqueira de meu aluno, por exemplo - conviverá com a perda dos bens de consumo e chegará no futuro à tal humildade, resignação e educação sem assistir antes, durante década ou mais, a um aumento gigantesco da violência organizada em um nível que jamais conhecemos aqui. Evidentemente nem todos farão isso. Mas é muita inocência acreditar que, sem bolsa e em crise, todos do PCC e funk ostentação passarão da noite para o dia do consumismo plástico chinês à resignação humilde de nossos avós.
Esqueçam PCC. Esqueçam narcotráfico Colombiano. Pessoas já começam a ser esfaqueadas sem motivo ou resistência. Tratores já são usados para arrombar lojas. Aguardem tiros aleatórios nas principais avenidas. Quando essa bolha de consumo e arrogância explodir, aí sim veremos o caos e crueldade criminosa sem registro no Brasil. Corram todos para as "montanhas" da Flórida - vem aí a Guerra Civil.
Tenho três profecias para o Brasil.
1) Vai dar merda
2) Infelizmente, a merda não vão ser suficiente para todo mundo.
3) Deve faltar lata pra carregar a sua porção.

Láz
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Lázaro L. T. Freire, via iPad
Psicanálise e Filosofia
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