Ex-baterista de O Rappa, Marcelo Yuka expõe suas dores e lutas em autobiografia

“Doutor, olha a quantidade de tiros que ele levou, olha como ele está vestido. Isso é bandido, doutor!”. Para sorte de Yuka o médico brigou com o funcionário e o obrigou a cumprir suas orientações.

Por AD Luna
ad.luna@gmail.com


No dia 9 de novembro de 2000, uma tragédia se abateu sobre o músico carioca Marcelo Yuka. O então baterista e principal letrista da banda O Rappa, se viu no meio de uma tentativa de assalto, numa noite de quinta-feira, no cidade do Rio de Janeiro. Sua picape Hilux foi atingida por 22 tiros, dos quais nove o atingiram deixando-o paraplégico. Sua vida virou pelo avesso. O incidente é o mote principal do livro Não se preocupe comigo (editora Primeira Pessoa). A obra é fruto de uma série de entrevistas concedidas por Yuka ao jornalista Bruno Levinson.

Com textos na primeira pessoa, Marcelo Yuka abre o peito e expõe angústias, decepções e fraquezas. O texto é fluido e envolvente, apesar de sofrido na maior parte da obra. A sensação de intimidade com o biografado que o texto provoca (é como se ele estivesse conversando com amigos íntimos), também faz o leitor embarcar nas dores do agora ex-baterista. Sentimentos de compaixão (que é diferente de pena) vêm à tona.

As relações, por vezes complicadas, com a família e as diversas mulheres que passaram pela sua vida são expostas de maneira corajosa e explícita. 

Contradizendo o que muitos veículos de comunicação afirmaram à época, o músico revela que na hora do assalto não estava tentando salvar a moça que iria ser abordada pelos bandidos. “Nada disso - eu estava tentando era me salvar. Não sou esse herói que quiseram pintar. Eu a salvei, sim, mas foi sem querer”.

Já na ambulância, em momento de extrema fragilidade, Yuka pediu o amparo de uma militar, tentando segurar a sua mão. Mas ela se negou e soltou esta pérola de desumanidade. “Eu não sou paga para sentir pena de você. Sou paga para te socorrer”.

De infância humilde, Yuka cresceu acreditando que a música deve ir muito além do entretenimento. Fazer apenas o público se divertir, dançar e bater palmas não é suficiente. As leituras da juventude o fizeram não compactuar com a atitude de alguns amigos. “Suas ambições se limitavam a trabalhar para comprar um carro, juntar grana e ter uma mulher gostosa com cabelo pintado de louro. O sentido era esse”.

O fato de ter os movimentos limitados e depender de outras pessoas para executar atos outrora corriqueiros são motivos de aflição para ele. Por diversas vezes, ideias suicidas surgiram em sua mente. Yuka também se mostra bastante decepcionado com os ex-companheiros de O Rappa, os quais, na visão dele, não foram devidamente solidários com sua situação. “Os caras foram gananciosos e me tiraram. Em nenhuma outra empresa eu poderia ser mandado embora naquela situação, mas fui demitido da banda que criei”, dispara.

O compositor busca na música, na fé em Deus (porém, não o Deus dos dogmas cristãos) e nos amigos (principalmente, no carinho das mulheres) alívio para todas essas dores.

Alguns trechos

Wally Salomão (poeta carioca) 
“Sofri muito quando o Waly morreu, e o engraçado é que fui ao velório e paguei o maior mico. Chorei pra caralho e vi o Gil, o Caetano, e eles estavam bem. Deviam estar tristes pelo ocorrido, mas por serem mais velhos, já haviam superado esse tipo de perda outras vezes - eu não”.

O sexo depois do acidente e as mulheres 
“O sexo só voltou um ano depois dos tiros (...)”.

“Tomei os tiros aos 34 anos. Ali constatei que nunca tinha feito amor. Nunca, mesmo com as pessoas que eu amava. Amava as minhas namoradas, mas, na hora do sexo, era sexo. Comecei a perceber mais essa generosidade das mulheres comigo”.

“O Rappa é hoje a maior banda cover de si mesma”.

“Fui tirado da banda 50% por ganância e 50% por poder. Irônico, pois meu sucesso aconteceu justamente por me posicionar contra a ganância e o poder. Como as pessoas que cantam o que cantam, cantam o que escrevi, podem ter agido como agiram em situação tão difícil?”.

“(...) O Nação Zumbi foi fazer um show no Canecão. Eles me convidaram para participar. Quando cheguei lá, estava no letreiro: ‘Nação Zumbi, participação especial Marcelo Yuka’. (...) Saí de lá achando que dava, autoestima lá em cima, otimista, motivado”.

Confundindo com um bandido
No hospital, o médico de plantão orientou o funcionário da radiologia a proceder com os exames, urgentemente. Mas ele fez corpo mole e não obedeceu à determinação. Ao ser questionado pelo médico, o operador respondeu: “Doutor, olha a quantidade de tiros que ele levou, olha como ele está vestido. Isso é bandido, doutor!”. Para sorte, de Yuka o médico brigou com o funcionário e o obrigou a cumprir suas orientações.

Serviço:
Marcelo Yuka - Não se preocupe comigo, de Bruno Levinson
R$ 29,90 (livro físico) e R$ 16,99 (e-book)