A alimentação viva (ou crudívora) como experiência estética

Foto: UCIS Guilherme Abath/Prefeitura do Recife/Divulgação

Por AD Luna - ad.luna@gmail.com

(Atualização de matéria, originalmente, publicada no Jornal do Commercio, em maio de 2011)

Que tal se deliciar com o prazer de preparar e consumir saladas de brotos de girassol, lentilhas germinadas e cremes de vegetais frescos? Essas iguarias fazem parte da alimentação viva, também chamada de crudívera ou crudista. Nessa prática, os adeptos abdicam em boa parte ou totalmente do aquecimento dos alimentos e os consomem crus. E tem mais: além do aspecto nutricional, a alimentação viva pode ser tomada como experiência estética.

A professora Ana Branco, do departamento de artes e design da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, desenvolve pesquisas em torno do chamado “desenho vivo”. Materiais prontos para o uso na natureza (bambu, terra, hortaliças e sementes) e encontrados em diversos ecossistemas são usados no experimento. A pesquisadora costuma montar no campus da PUC, praças públicas de capitais e cidades do interior tendas com mesas, ferramentas e utensílios com quais são realizadas a prática da arte do desenho vivo.

Com ampla e animada participação da população, nesses laboratórios/ateliês ao ar livre são construídas mandalas (figuras organizadas ao redor de um centro, comuns na cultura oriental) com o uso de pedaços e pigmentos de frutas e hortaliças, extraídos por meio de raladores, como abacate, banana, cenoura, batata, inhame, jerimum, entre muitos outros vegetais orgânicos e frescos. O contato com a consistência das substâncias naturalmente coloridas, seus cheiros, o processo de criação dos desenhos e a integração entre as pessoas proporcionam momentos de satisfação e prazer. “Todo o corpo, todos os sentidos vivenciam o fenômeno estético”, explica Ana Branco.

Crepe de Maracujá. Foto: Centro Verde Vida/Divulgação
O interesse por esse singular experimento artístico e ­gastronômico se transformou em matéria eletiva no departamento de design da PUC, intitulada “Convivência com o Biochip” – a qual é desenvolvida pelo Laboratório de Investigação em Living Design (LILD). “Matriculam-­se, por ano, uma média de 30 alunos de diferentes disciplinas como engenharia, direito, psicologia e muitos outros”, informa a docente. Entre os estudos propostos, discute­se, por exemplo, como a variação da forma dos alimentos e de como são cortados influencia na alteração do seu sabor.

Para entender melhor, tente observar os gostos que distinguem uma cenoura cortada em rodelas de uma servida ralada. A diferença é sutil, mas é possível ser identificada.

Assim como Ana Branco, o médico cirurgião, com doutorado em Medicina pela Ludwig Maximilians Universitat Muenchen (Munique, Alemanha), Alberto Peribanez Gonzalez, cuja clínica está sediada em Campos do Jordão (SP), é outro destacado percursor da alimentação crudívera no Brasil. Ele é autor do livro Lugar de médico é na cozinha: cura e saúde pela alimentação viva (editora Alaúde), no qual defende esse tipo de dieta com embasamento científico e dá dicas de diversas e interessantes receitas. Entre elas, patê de girassol, chocolate de abacate, salada de ervas daninhas, leite de nozes e caldeirada de frutos do “mato”.

Trufas de cacau. Foto: Centro Verde Vida/Divulgação

Delícia de abacaxi. Foto: Centro Verde Vida/Divulgação
Vegetariano convicto, Peribanez Gonzalez critica o enorme consumo de carnes e alimentos industrializados pela população. Segundo ele, isso é uma das principais causas da grande incidência de doenças entre as pessoas em geral e dos brasileiros em particular. “Se a maior parte da população brasileira que está nas macas de corredores de hospitais sucateados soubesse que suas doenças são originadas nas poucas escolhas que tem como alimentação, uma verdadeira revolução ocorreria em todos os níveis: agrícola, fundiário, educacional e de saúde”, adverte.

Como se sabe, o embate entre os que defendem a alimentação vegetariana e a carnívora é bastante controverso. Nos dois lados, encontramos profissionais de saúde com respeitáveis títulos acadêmicos e argumentos afiadíssimos. Qual o melhor caminho a seguir? Logicamente, Peribanez defende seu ponto de vista e diz existir na maior parte das universidades, nas áreas de nutrição, medicina e agronomia, uma grade curricular ortodoxa e cristalizada. “Mais que uma ementa de matérias ou um protocolo de procedimentos e rotinas, é uma verdadeira grade mental. Tudo aquilo que desafia o poder econômico da indústria de remédios, de agrotóxicos e de alimentos industrializados é desprezado, ridicularizado e considerado ‘anticientífico’”, critica.

No Recife, cidadãos (e, principalmente, cidadãs) de baixa renda usufruem das experiências gastronômicas e estéticas da alimentação viva por meio de cursos oferecidos na Unidade de Cuidados Integrais à Saúde Prof. Guilherme Abath, mantida pela prefeitura e localizada no bairro do Torreão. A iniciativa partiu da nutricionista paranaense Thaísa Santos Navolar, que trocou o frio curitibano pelo calor recifense. Ela ressalta o grande interesse das pessoas pelas receitas e da alegria de participar da preparação dos alimentos, a qual inclui atividades lúdicas como cantos e danças. Interessante também o modo como elas resolveram o dilema descrito anteriormente nesta reportagem: a alimentação viva é integrada à dieta regular, aquela com feijão e arroz cozidos, e carnes.

Sushis variados de legumes, frutas e pastas de amêndoas. Foto: Centro Verde Vida/Divulgação

Colega de profissão e assistente de Thaísa Santos, a pernambucana Shirley Montenegro defende a atividade de preparo da alimentação viva como uma maneira divertida e participativa de se promover saúde. “As pessoas se encantam, mexe com a vida e a autoestima delas”. A professora Josely Martins, 47 anos, confirma as palavras da nutricionista Shirley. “Para mim, a mudança foi radical. Estou mais pacífica, mais tranquila para enfrentar turbulências”, festeja.

Assim como a professora Josely, a terapeuta Ana Vasconcelos diz ter passado por notáveis e positivas transformações ao adotar a alimentação viva. . “As pessoas não pensam muito nisso, mas alimentação saudável vai além do aspecto físico: ela também pode nos proporcionar bem-estar emocional e espiritual, além de clareza mental”. Depois de anos sofrendo com doenças não curadas por meio da medicina convencional, mudou a dieta e foi obter mais informações sobre a culinária crudista nos Estados Unidos. Lá, fez cursos com a Dra. Ann Wigmore e o Dr. Gabriel Cousens, dois destacados pesquisadores do assunto e resolveu aplicar e divulgar os conhecimentos obtidos na criação e manutenção do Centro Verde Vida.

Localizado no Vale do Catimbau, em Buíque, interior de Pernambuco, o espaço oferece cursos durante fins de semana e feriados prolongados onde os alunos realizam atividades teóricas e práticas relacionadas à alimentação viva. A beleza e a tranquilidade do local devem amplificar todas as experiências sensoriais e estéticas envolvidas no processo.

SAIBA MAIS





RECEITAS

MANDALAS DE FRUTAS

Ingredientes: uma manga, meio mamão formosa, um abacate, meio abacaxi, três goiabas, dez bananas, três colheres de sopa de girassol descascado germinado, duas colheres de sopa de uva passa, canela e limão, frutas para enfeitar: carambola, uva etc.

Modo de fazer
Bater no liquidificador (sem água): um creme de manga (não precisa coar), um creme de abacaxi com goiaba (coar no coador furadinho), um creme de abacate com limão, creme de banana (sem água). Fatiar as carambolas e as uvas. Misturar o girassol sem casca germinado, passas, limão e canela (granola viva). Desenhe sua mandala e bom apetite!

SUCO DE CLOROFILA

Ingredientes: maçãs (duas por pessoa), folhas diversas, semente germinada (um punhado por pessoa). Uso de pepino, cenoura ou jerimum é opcional.

Modo de fazer
Bata no liquidificador as maçãs sem sementes e coe. Não precisa colocar água, basta prensar as maçãs, o que pode ser feito com um biossocador (cenoura, pepino, etc). Devolva o suco ao liquidificador, acrescente as folhas verdes e um punhado de sementes germinadas. Coe novamente no coador de pano para retirar as fibras, pois, desse modo, a clorofila pode ser melhor absorvida. Folhas recomendadas: couve, chicória, folha de cenoura, beterraba, abóbora, serralha, grama de trigo, hortelã, erva­doce, salsinha.

TORTA SALGADA DE MAÇÃ

Misturar a polpa da maçã (resíduo que foi coado no suco de clorofila) com cebola picada, tempero verde, açafrão, sal, azeite e limão. Montar em uma travessa. Recheio: gergelim preto germinado, chuchu e jerimum ralados, temperado com azeite, sal e tempero verde.