Pitty fala sobre álbum Setevidas, ego, morte, sexualidade e machismo em entrevista

A cantora baiana Pitty lança novo disco. Foto: Pitty/Divulgação

A cantora é uma das atrações da edição 2015 do Abril pro Rock

por AD Luna

Morte, materialismo, consumismo, insatisfação, resistência, sobrevivência. Esses são alguns dos temas que permeiam o conteúdo das dez faixas de Setevidas, novo álbum da cantora Pitty, uma das atrações da edição 2015 do festival Abril pro Rock. Produzido por Rafael Ramos, mixado pelo inglês Tim Palmer (presente em trabalhos do U2, David Bowie, Robert Plant, Ozzy Osbourne, Pearl Jam) e masterizado pelo norte-americano Ted Jensen (Muse, Arcade Fire, Norah Jones, Paul McCartney), o disco chega cinco anos depois de Chiaroscuro.

Setevidas começou a ser trabalhado por volta de outubro do ano passado. “Embora algumas ideias já estivessem sendo fomentadas na minha cabeça bem antes disso”, expõe Pitty. Mesmo com material antigo guardado, a cantora preferiu usar as novas ideias que surgiram no início do processo de produção. “As letras, principalmente. Me juntei no estúdio com os meninos e fomos arranjando as músicas”, conta. 

Os “meninos” em questão são seus companheiros de banda: Martin Mendonça (guitarra), Duda (bateria) e Guilherme (baixo), que substituiu Silvano Gomes, o Joe, ex-integrante da banda baiana Cascadura e que acompanhava Pitty desde o início da carreira solo dela. “Musicalmente e em termos de convivência estamos numa fase muito boa. É massa trabalhar com gente que acrescenta, que tem ideias legais, e Guilherme tem sido ótimo nesse sentido”, comemora.

Comparado aos anteriores, Setevidas é o trabalho mais denso de Pitty.  As letras do álbum são carregadas de simbolismos, quase mensagens cifradas, que podem se transfigurar em interpretações de vários níveis. A chave para decifrar tais signos vai depender do nível de conhecimento e de proximidade que se tenha com a moça, atualmente com 36 anos.

A bonita e inspirada faixa Lado de lá, por exemplo, trata da nossa hipotética passagem para outros planos da existência, depois da morte. O lamentável suicídio do talentoso Peu Souza - primeiro guitarrista da banda de Pitty, que tirou a própria vida no ano passado - serviu de inspiração para versos como estes: “Talvez pudesse resolver (quem vai saber?)/ Será que a dor venceu?/ Pra quê essa pressa de embarcar/ Na jangada que leva pro lado de lá?”.

Ouça Setevidas na íntegra



Além do excelente registro sonoro, o disco possui uma bem-vinda riqueza de timbres e texturas, com destaque para a ótima performance do guitarrista Martin - também ex-Cascadura e que entrou na banda de Pitty em 2004. Foi com ele que a cantora montou o Agridoce. Em Setevidas, as experimentações presentes nesse projeto de folk rock e psicodelia aparecem em diversos momentos do álbum, a exemplo da citada Lado de lá

“Acho que o Agridoce já era um desdobramento dessa busca por textura, dessa pesquisa de timbres e sons. Venho nessa busca há um tempo e acho que a cada disco rola um passo nessa direção”, conta Pitty. O uso de elementos percussivos também é sentido em Setevidas. Porém, eles aparecem de maneira econômica e sutil.

Nas partes mais pesadas do disco, é difícil não notar o paralelo com o stoner rock do Queens of The Stone Age. Ainda que Pitty soe mais doce e domesticada do que o grupo norte-americano.

Setevidas serve como contraponto a temáticas festivas, hedonistas e piegas que marcam o atual cenário mainstream da música brasileira. Também é interessante pensar que tipo de transformações podem operar na mente dos fãs (em sua grande maioria, adolescentes) da ex-vocalista do grupo de hardcore Inkoma, caso resolvam se aprofundar nos temas expostos por ela nesse novo trabalho.




Entrevista Pitty

A vida e a morte parecem nortear parte do conceito do disco. Como você encara o tema da morte, das mudanças e da impermanência das coisas?
Agora, muito melhor. Depois de ter passado por coisas, e do ano passado ter sido tão duro e rico nesse aprendizado. É uma transformação pelo fogo, como na alquimia, e isso dói e queima. Mas no fim, se a gente usa isso do jeito certo, a gente vira ouro. Minha maior lição foi aprender, na marra, que a gente não manda em nada. E aí tem que tirar o ego da frente, aquele que diz "EU é que sei, EU decido". Quando o universo decide e você enxerga que isso é maior do que você, a única alternativa é dançar a dança e ficar de boa com isso.

Ouvi um "Om namah shivaya" no álbum. Influência da yoga?

(Risos) Pois é, o Om Namah Shivaya é o mantra de Shiva, e ele está ali porque a música é sobre transformação e ele é o deus (indiano) da morte e renascimento, da renovação. mais um símbolo, dentre tantos nessa faixa ;) . Todo mundo está falando que este disco é mais denso e eu acho que faz sentido, sim... porque, no final das contas, a arte pra mim serve pra isso, pra expurgar coisas da vida e o período anterior a este disco não foi lá muito fácil. Acho que isso acabou transbordando para a sonoridade como um todo. 

À medida que o tempo passa, você tem deixado transparecer mais naturalmente uma feminilidade e sensualidade que pareciam dormentes nos primeiros anos da sua carreira. De que forma essa atitude mexe com seu estado de espírito e na sua obra?
Tem sido natural e eu só estou dando passagem à uma energia que volta e meia aparece. Acho que é mais fácil deixar Eros transparecer na minha vida hoje por inúmeras circunstâncias: ser menina numa cena de hardcore não era fácil, aquele foi meu jeito de lidar com o machismo e me impor, quando gravei meu primeiro disco e fiquei conhecida só me perguntavam sobre posar nua- como se fosse um "prêmio" por ter se destacado em alguma área,  e obviamente minha reação à esse tipo de aproach foi justamente ser mais dura. Olhando hoje, acho que sempre foi uma forma de lutar contra o machismo. Mas jamais vou deixar que isso me reprima, e com o tempo eu vou aprendendo cada vez mais como lidar com isso. Acho também que isso permeia a obra. Talvez o Setevidas seja meu disco mais sexualmente feminino até hoje.  

Publicada originalmente no Diario de Pernambuco