quarta-feira, março 25, 2015

Pitty fala sobre álbum Setevidas, ego, morte, sexualidade e machismo em entrevista

A cantora baiana Pitty lança novo disco. Foto: Pitty/Divulgação

A cantora é uma das atrações da edição 2015 do Abril pro Rock

por AD Luna

Morte, materialismo, consumismo, insatisfação, resistência, sobrevivência. Esses são alguns dos temas que permeiam o conteúdo das dez faixas de Setevidas, novo álbum da cantora Pitty, uma das atrações da edição 2015 do festival Abril pro Rock. Produzido por Rafael Ramos, mixado pelo inglês Tim Palmer (presente em trabalhos do U2, David Bowie, Robert Plant, Ozzy Osbourne, Pearl Jam) e masterizado pelo norte-americano Ted Jensen (Muse, Arcade Fire, Norah Jones, Paul McCartney), o disco chega cinco anos depois de Chiaroscuro.

Setevidas começou a ser trabalhado por volta de outubro do ano passado. “Embora algumas ideias já estivessem sendo fomentadas na minha cabeça bem antes disso”, expõe Pitty. Mesmo com material antigo guardado, a cantora preferiu usar as novas ideias que surgiram no início do processo de produção. “As letras, principalmente. Me juntei no estúdio com os meninos e fomos arranjando as músicas”, conta. 

Os “meninos” em questão são seus companheiros de banda: Martin Mendonça (guitarra), Duda (bateria) e Guilherme (baixo), que substituiu Silvano Gomes, o Joe, ex-integrante da banda baiana Cascadura e que acompanhava Pitty desde o início da carreira solo dela. “Musicalmente e em termos de convivência estamos numa fase muito boa. É massa trabalhar com gente que acrescenta, que tem ideias legais, e Guilherme tem sido ótimo nesse sentido”, comemora.

Comparado aos anteriores, Setevidas é o trabalho mais denso de Pitty.  As letras do álbum são carregadas de simbolismos, quase mensagens cifradas, que podem se transfigurar em interpretações de vários níveis. A chave para decifrar tais signos vai depender do nível de conhecimento e de proximidade que se tenha com a moça, atualmente com 36 anos.

A bonita e inspirada faixa Lado de lá, por exemplo, trata da nossa hipotética passagem para outros planos da existência, depois da morte. O lamentável suicídio do talentoso Peu Souza - primeiro guitarrista da banda de Pitty, que tirou a própria vida no ano passado - serviu de inspiração para versos como estes: “Talvez pudesse resolver (quem vai saber?)/ Será que a dor venceu?/ Pra quê essa pressa de embarcar/ Na jangada que leva pro lado de lá?”.

Ouça Setevidas na íntegra



Além do excelente registro sonoro, o disco possui uma bem-vinda riqueza de timbres e texturas, com destaque para a ótima performance do guitarrista Martin - também ex-Cascadura e que entrou na banda de Pitty em 2004. Foi com ele que a cantora montou o Agridoce. Em Setevidas, as experimentações presentes nesse projeto de folk rock e psicodelia aparecem em diversos momentos do álbum, a exemplo da citada Lado de lá

“Acho que o Agridoce já era um desdobramento dessa busca por textura, dessa pesquisa de timbres e sons. Venho nessa busca há um tempo e acho que a cada disco rola um passo nessa direção”, conta Pitty. O uso de elementos percussivos também é sentido em Setevidas. Porém, eles aparecem de maneira econômica e sutil.

Nas partes mais pesadas do disco, é difícil não notar o paralelo com o stoner rock do Queens of The Stone Age. Ainda que Pitty soe mais doce e domesticada do que o grupo norte-americano.

Setevidas serve como contraponto a temáticas festivas, hedonistas e piegas que marcam o atual cenário mainstream da música brasileira. Também é interessante pensar que tipo de transformações podem operar na mente dos fãs (em sua grande maioria, adolescentes) da ex-vocalista do grupo de hardcore Inkoma, caso resolvam se aprofundar nos temas expostos por ela nesse novo trabalho.




Entrevista Pitty

A vida e a morte parecem nortear parte do conceito do disco. Como você encara o tema da morte, das mudanças e da impermanência das coisas?
Agora, muito melhor. Depois de ter passado por coisas, e do ano passado ter sido tão duro e rico nesse aprendizado. É uma transformação pelo fogo, como na alquimia, e isso dói e queima. Mas no fim, se a gente usa isso do jeito certo, a gente vira ouro. Minha maior lição foi aprender, na marra, que a gente não manda em nada. E aí tem que tirar o ego da frente, aquele que diz "EU é que sei, EU decido". Quando o universo decide e você enxerga que isso é maior do que você, a única alternativa é dançar a dança e ficar de boa com isso.

Ouvi um "Om namah shivaya" no álbum. Influência da yoga?

(Risos) Pois é, o Om Namah Shivaya é o mantra de Shiva, e ele está ali porque a música é sobre transformação e ele é o deus (indiano) da morte e renascimento, da renovação. mais um símbolo, dentre tantos nessa faixa ;) . Todo mundo está falando que este disco é mais denso e eu acho que faz sentido, sim... porque, no final das contas, a arte pra mim serve pra isso, pra expurgar coisas da vida e o período anterior a este disco não foi lá muito fácil. Acho que isso acabou transbordando para a sonoridade como um todo. 

À medida que o tempo passa, você tem deixado transparecer mais naturalmente uma feminilidade e sensualidade que pareciam dormentes nos primeiros anos da sua carreira. De que forma essa atitude mexe com seu estado de espírito e na sua obra?
Tem sido natural e eu só estou dando passagem à uma energia que volta e meia aparece. Acho que é mais fácil deixar Eros transparecer na minha vida hoje por inúmeras circunstâncias: ser menina numa cena de hardcore não era fácil, aquele foi meu jeito de lidar com o machismo e me impor, quando gravei meu primeiro disco e fiquei conhecida só me perguntavam sobre posar nua- como se fosse um "prêmio" por ter se destacado em alguma área,  e obviamente minha reação à esse tipo de aproach foi justamente ser mais dura. Olhando hoje, acho que sempre foi uma forma de lutar contra o machismo. Mas jamais vou deixar que isso me reprima, e com o tempo eu vou aprendendo cada vez mais como lidar com isso. Acho também que isso permeia a obra. Talvez o Setevidas seja meu disco mais sexualmente feminino até hoje.  

Publicada originalmente no Diario de Pernambuco 

domingo, março 01, 2015

"Quase ninguém lê jornais na comunidade", diz Dedesso, da banda brega pernambucana Vício Louco



Dedesso, cantor e compositor do grupo Vício Louco. Foto: reprodução Facebook
Ao ser indagado sobre suas impressões a respeito do atual cenário do brega no Recife, Dedesso diz que a febre dos MCs diminuiu. Segundo ele, de maneira geral, o conteúdo das letras também tem mudado: de tons tidos como sexistas e/ou machistas para cores mais amorosas.

Por AD Luna

Não importam os problemas. O negócio é sorrir, divertir a si mesmo e aos inúmeros admiradores que possui na capital pernambucana e em outras cidades. Bastam poucos minutos de conversa para ser capturado pela alegria de viver de Leydson Santos da Silva, 33 anos, o Dedesso. Morador da comunidade da Ilha do Joaneiro, no bairro de Campo Grande, Zona Norte do Recife, ele lidera a Vício Louco. A banda brega se prepara para lançar o quinto disco, no primeiro semestre de 2015. Mas já tem música nova disponível na internet.

A divertida e dançante Chorei demais trata de um sujeito que vive pisando na bola com a mulher. O rapaz suplica para que seu suposto amor o perdoe. Mas a garota se mostra reticente e cansada de ser enrolada pelo espertinho. É o tipo de situação definida por Dedesso como “bem dia a dia”.



Até então, o mais recente lançamento da banda ocorrera em 2013, com Perdeu playboy. "Foi massa, a galera curtiu um bocado!”, festeja. A letra mostra o drama de uma moça que vai casar com um “mauricinho de Boa Viagem” (bairro de classe média alta do Recife), mas que nutre grande amor por um moço da favela. Assim como acontece em outras canções e vídeos do Vício Louco, os diálogos musicais e os personagens são interpretados pelos cantores do trio: Dedesso, Ceça e Nadja.

Ao ser indagado sobre suas impressões a respeito do atual cenário do brega no Recife, Dedesso diz que a febre dos MCs diminuiu. Segundo ele, de maneira geral, o conteúdo das letras também tem mudado: de tons tidos como sexistas e/ou machistas para cores mais amorosas. “Quem está em alta de novo é o brega romântico. É o caso da Sedutora, a banda da vez”, destaca, referindo-se ao quarteto feminino formado pelas cantoras Rhayza Fontes, Jessica Netely, Eduarda Alvez e Brunessa.



Atualmente, a Vício Louco chega a fazer uma média de dez shows mensais, principalmente em boates da Zona Sul do Recife, frequentadas por gente da classe média e alta da cidade. O número de apresentações é inferior ao que a banda realizava meses atrás. “Chegávamos a fazer 60 apresentações por mês”, relembra.

A queda não desanima Dedesso. Ele diz amar o que faz e afirma que até seria possível viver só da música. No entanto, não o faz porque tem três crianças para criar. “A vida de artista é muito instável, cheia de altos e baixos. Então, prefiro manter o emprego (de digitador) na Secretaria de Educação, que é algo um pouco mais seguro”, pondera.

Da união de cinco anos com a atual companheira, Roberta Lira da Silva, a Balu, ele teve dois filhos: Lucas, de 3 anos, e Luan, de apenas 11 meses. O mais velho, Júnior, 11 anos, é fruto do casamento anterior e mora com Dedesso.

MÍDIA ALTERNATIVA
Assim como outros artistas da cena brega, Dedesso procura divulgar seu trabalho em veículos de comunicação alternativos, a exemplo de blogs especializados (como o Blog dos Bregueiros) e outros recursos. “A gente usa principalmente o WhatsApp e o Imo (aplicativo de bate-papo). É por onde a galera se informa”. E o Facebook? “Não tá com nada, tá muito devagar”, desdenha. Perguntado se o pessoal da sua convivência lê jornais, o artista dá uma baita gargalhada e complementa: "Quase ninguém lê jornais na comunidade. A não ser o Aqui PE, e olhe lá!", conta.

O coordenador estadual da Central Única das Favelas (Cufa) em Pernambuco, Cesar Cronenbold, confirma essa tendência apontada por Dedesso. "Pela nossa expertize de quatro anos de ações em mais de 80 comunidades percebemos que a população de comunidades (favelas, vilas, palafitas), têm pouco habito de leitura, mas um bom acesso à internet via celular", explica. "As mídias sociais são realmente um bom veículo de informação para quem é da comunidade. Ainda vejo que, em relação à música, a forma de ouví-la é via rádio para os adultos (pelo celular também), mas os jovens usam o whatsapp e outros aplicativos", complementa Cronenbold.

Em Pernambuco, a Cufa está presente em mais de 20 municípios, incluindo, Recife, Olinda e Jaboatão dos Guararapes. O maior número de ações ocorre na capital, onde são realizadas ações em parceria com o poder público, ONGs, associações, empresas.

DJ DOLORES
Dedesso tem mantido uma produtiva relação musical com Helder Aragão, o DJ Dolores, com o qual chegou a se apresentar no projeto Stank, também integrado pelo multi-instrumentista Yuri Queiroga. “Sou fã de Dolores. É parceirão, um cara muito legal e inteligente, que escuta de tudo. Aprendi muita coisa com ele. Principalmente a ser ousado”, elogia.

“Essa linha que Dedesso e outros pessoas fazem é o pop brasileiro. Ela fala para as pessoas que vivem no lugar onde moram”, destaca Helder. O produtor e DJ lembra de uma festa onde tocou e que teve a participação do vocalista da Vício Louco. “Aconteceu há alguns anos, num Reveillon no terraço do edifício Tebas (. As meninas eram de classe média, que é mais o meu público. Mas todas ficaram encantadas por Dedesso”.

FILME
Dirigido por Renata Pinheiro, Amor, plástico e barulho aborda o universo da cultura brega presente na periferia recifense. No elenco, Nash Laila, Maeve Jinkings (O som ao redor), Rodrigo Garcia. Além de atuar, Dedesso também contribuiu com a trilha sonora da obra. A obra foi lançada nos cinemas nacionais em janeiro de 2015.

LETRA CHOREI DEMAIS (Dedesso/Jorginho Silva)

Pra quem erra é fácil pedir pra esquecer
Você no meu lugar o que ia fazer?
Queria que fosse eu que tivesse traído você
Só pra ver se você ia esquecer

Ouvi falar, amor, que você anda tão morgada
E com as amigas comentar que sente minha falta
Então por que não deixa, amor, de ser ruim e volta pra mim?

Se eu fosse ganhar um centavo por cada perdão
Já estava rica e dava pra comprar outro coração
Pra te esquecer

Também não é assim, amor, você exagera demais
Você que perdeu a noção, de quantas vezes me deixou pra trás
Eu chorei, chorei demais
Bota a aliança, amor, eu juro que eu vou mudar
Pega nossa foto, amor, e bota no mesmo lugar
Deixa a cama perfumada e a porta aberta
Eu vou voltar

Eu não sei se vale a pena fazer isso por você
Toda vez que eu tento, lembro das vezes que me fez sofrer
E isso é o que me faz sentir raiva de você

Pra quem erra é fácil pedir pra esquecer
Você no meu lugar o que ia fazer?
Queria que fosse eu que tivesse traído você
Só pra ver se você ia esquecer