quarta-feira, julho 05, 2017

O longevo rock de Renato e seus Blue Caps

Capa de disco lançado em 1963, com participação de Erasmo Carlos.

por AD Luna

Formada três anos antes da Rolling Stones, banda de rock criada por Renato Barros é a mais antiga em atividade e completa 53 anos

No mês passado, o mundo comemorou meio século de vida dos Rolling Stones. A banda britânica de rock é uma das mais influentes e longevas do planeta. Porém, não é a mais antiga em atividade. Tal título tem sido atribuído a Renato e Seus Blue Caps, grupo carioca, amado pelo Brasil e pelos pernambucanos, criado em 1959 - portanto, três anos antes do conjunto do (ainda) rebolativo Mick Jagger e do (sempre) sisudo Charlie Watts. O guitarrista, vocalista e compositor Renato Barros, 68 anos (Nota: matéria publicada em agosto de 2012), é um dos principais responsáveis pela carreira de sucesso dos Blue Caps.

"Temos um título que não sabemos se é bom ou ruim. Mas que é verdade, é", reafirma Barros, por telefone, demonstrando muita simpatia e bom humor. A banda tem shows marcados para acontecer, hoje, em São Lourenço da Mata e Olinda, e, amanhã, no Clube das Pás, no bairro recifense de Campo Grande, onde deve apresentar alguns dos seus inúmeros sucessos a exemplo de Se você soubesse, Feche os olhos, Capeta em forma de guri, Não te esquecerei, Dona do meu coração, Meu bem não me quer, A primeira lágrima, Gatinha manhosa, Meu primeiro amor e muitos outros.

O grupo surgiu num tempo no qual artistas do então adolescente rock’n’roll dominavam os corações juvenis. Caso de Elvis Presley, Bill Halley, Little Richards, entre outros - numa era pré-Beatles e Stones. "Enquanto a bossa nova era preferida do pessoal da zona sul do Rio de Janeiro, os jovens da zona norte se mostravam mais interessados e influenciados por aquele som americano. Em toda esquina de subúrbios do Rio havia um conjunto de rock", relembra.

O então adolescente Renato Barros, com seus 14 ou 15 anos ("não me lembro bem"), estava empolgado com aquela nova onda. "Na época, tínhamos o Hoje é dia de rock, transmitido pela rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro. Todo mundo passava por esse programa. Vi a fila de inscrição e me cadastrei. O detalhe é que me inscrevi antes de formar uma banda", conta, sob risos.

Para se apresentar no programa, as atrações ou tocavam ao vivo ou faziam mímicas de artistas conhecidos. Por ainda não se sentirem seguros como músicos, o embrião do conjunto - Renato e seus irmãos Paulo Cezar e Ed Wilson - resolveu escolher a segunda opção.

No entanto, os ingênuos garotos não faziam ideia de como funcionavam as tais interpretações músico-gestuais que se davam no auditório da rádio. De casa, eles apenas ouviam os programas, a vibração do público, os aplausos e gritos. Chegando lá, viram que a história era outra: se depararam com conjuntos muito bem ensaiados, que executavam coreografias super elaboradas. "Era uma coisa bonita de se ver, diferente da gente. Nossa apresentação foi um desastre e acabamos sendo muito vaiados", descreve Renato.

A pancada foi grande. No bairro em que moravam, os amigos e vizinhos insistiam em comentar sobre a situação vexaminosa. "Foram vaias que até hoje ressoam na minha cabeça", brinca Renato. Mas, ao invés de minarem o entusiasmo dos rapazes pela música, a situação serviu como estímulo.

Assim, cerca de dois meses depois, eles estavam de volta ao programa. Mas, dessa vez, para tocar ao vivo. "O diretor do programa, Jair de Taumaturgo, olhou pra gente e não acreditou. ‘Puxa, de novo. Vocês são muito ruins. Não façam isso!’". Mas, dessa vez, foi diferente. Já com o nome Renato e Seus Blue Caps (que substituíra o anterior, Bacaninhas do Rock da Piedade), eles tocaram e cantaram o clássico Be-bop-a-lula, gravado pela primeira vez, em 1956, por Gene Vincent e Seus Blue Caps (daí a inspiração sugerida a eles por Taumaturgo) e que ganhou novas versões nas mãos dos Beatles, Jerry Lee Lewis, Carl Perkins, Queen, Raul Seixas.

Daí em diante, o grupo seguiu por uma trilha ascendente. Acompanharam e gravaram com outros artistas, apresentaram-se no programa do Chacrinha, na TV Tupi, lançaram seu primeiro álbum, Twist, em 1962 (portanto, há meio século), dividido com os cantores Cleide Alves e Reynaldo Rayol (irmão de Agnaldo), chegaram a ter como crooner do conjunto Erasmo Carlos e acompanharam o rei Roberto na gravação da faixa Splish splash - do álbum homônimo, de 1963.

"Começamos todos juntos. Foi Roberto Carlos que conseguiu nos colocar na gravadora CBS - que era muito conservadora e não gostava de roqueiros. Convivemos por uns bons anos e ele gravou algumas músicas minhas", diz Renato. Uma delas é o sucesso Você não serve pra mim, presente no disco Roberto Carlos em ritmo de aventura, de 1967.

Fama na cola dos Beatles

Boa parte do sucesso e da popularidade alcançada por Renato e Seus Blue Caps se deve a suas versões em português de músicas dos Beatles. O interessante é que muitas dessas recriações até hoje chegam a ser mais populares, no Brasil, do que as originais. Isso pode ser observado, por exemplo, durante os dois shows que Paul McCartney fez no Recife, em abril. No Arruda, pessoas cantavam emocionadas a versão abrasileirada de All my loving, transformada em Feche os olhos pelos cariocas.

Ao todo, eles fizeram 17 recriações de canções dos britânicos, sendo que 15 entraram em sua extensa discografia. A primeira delas foi Menina linda, originalmente composta pelos garotos de Liverpool como I’´ve should have known better. "Ela nos foi sugerida por Carlos Imperial (ator, compositor, produtor e apresentador de TV, falecido em 1992, aos 56 anos). Até então, eu nunca tinha ouvido falar em Beatles. Ele me deu um disquinho com a música e me pediu para aprendê-la. Se meu inglês já é ruim hoje, naquela época era pior ainda, não entendia nada do que eles cantavam e resolvi escrever uma letra qualquer", explica.

Apresentada em um programa comandado por Imperial, Menina linda teve grande repercussão. "Ele nos falou para incluir a música em disco. Nós assim fizemos e só depois que o disco saiu é que pedimos autorização. Mas os Beatles nunca criaram problemas", relembra um sempre divertido Renato.

O álbum em questão era o Viva a juventude!, lançado em 1965 pela CBS. Nesse LP, há outras versões dos Beatles: Sou feliz dançando com você (I’ am so happy just to dance with you) e Garota malvada (I call your name), além dos sucessos Negro gato (Getúlio Cortes) e Gatinha manhosa (Erasmo e Roberto Carlos).



Para um amor no Recife

Renato Barros tem uma relação especial com o Estado. Ele possui parentes no Recife e chegou a ter uma namorada na cidade. A relação durou 11 anos e Renato costumava visitá-la quinzenalmente. Por conta disso, muita gente pensa que ele morou aqui.

Rubro-negro em Pernambuco e no Rio de Janeiro, onde torce pelo Flamengo, ele aceitou de pronto o convite para compor o Hino à Treme Terra, canção para uma das torcidas mais atuantes do Sport Clube do Recife.

"No fim dos anos 1970, assisti a uma partida entre Santa Cruz e Sport. Fiquei bastante emocionado com o estádio cantando minha música", relembra Renato.

Renato Barros se diz um eclético no quesito gosto musical. "Gosto de tudo que me agrada os ouvidos. Bossa nova, forró, rock, jazz, blues. De tudo!", comenta o guitarrista, que já deu uma canja no projeto Oi Blues by Night.

Atualmente formado por Cid (vocal), Renato Barros (guitarra e vocal), Gilsinho Moraes (bateria), Amadeu Signorelli (baixo) e Darcy Velasco (teclados), Renato e Seus Blue Caps faz uma média de duas a três apresentações por semana.

"Antes, fazíamos cinco, seis shows semanais. Era uma loucura! Mas, com o tempo, ficamos mais seletivos. Só aceitamos tocar em ambientes com boa estrutura de som e luz. Está muito bom assim e acredito que estamos tocando melhor", afirma.

 Originalmente publicada no Jornal do Commercio.