O dono do batuque do maracatu

O percussionista Maureliano Ribeiro. Foto: Patricia Alonso/Reprodução Facebook

Aproveitando o período carnavalesco, aí vai uma matéria sobre o homem por trás dos tambores de maracatu usados por inúmeros pernambucanos, brasileiros e estrangeiros. Originalmente publicada no Jornal do Commercio, em 30/06/2012

Por AD Luna

Nos anos 1990, durante a eclosão e desenvolvimento da manguebeat, muitos jovens de classe média despertaram o interesse por manifestações da cultura popular devido à influência de grupos como Chico Science e Nação Zumbi (CSNZ) e Mestre Ambrósio. Hoje em dia, se tornou comum ver adolescentes e pessoas com seus 20 e poucos anos empunhando tambores de maracatu, durante o Carnaval e por todo o ano. E o construtor de muitas dessas alfaias é o percussionista Maureliano Ribeiro.





Mau, como também é chamado, nasceu há quase 47 anos (que se completarão em agosto), com a ajuda de uma parteira que executou o trabalho na antiga casa do luthier no bairro de Peixinhos, na divisa entre Olinda e Recife. “Naquele tempo, a estrutura de saúde da localidade era bem precária”, relembra.

Seu pai, Martiniano Ribeiro (falecido em 1989), foi um dos fundadores da comunidade de Peixinhos e o primeiro presidente da associação de moradores local. Ele era carpinteiro e marceneiro, profissões que exerceu paralelamente à de contínuo de um banco. Maureliano, que herdou o talento para trabalhar a madeira do pai, e seus dois irmãos o ajudavam com os serviços mais leves. Além dos meninos, seu Martiniano e dona Maria Mercês, 85 anos, trouxeram a este mundo mais nove meninas.

Maureliano constrói suas alfaias em uma oficina, montada ao lado de sua casa, no bairro de Jardim Primavera, em Camaragibe – município da Região Metropolitana do Recife. A feitura desses artefatos sonoros começou como um meio de suprir a carência de instrumentos de percussão dos alunos para os quais ele dava aula, no início dos anos 1990, no Centro de Educação e Cultura Daruê Malungo. O centro está localizado na comunidade de Chão de Estrelas, no bairro de Campina do Barreto, vizinho a Peixinhos.

A instituição – a qual, segundo Mau, foi fundada por ele e Gilson Santana, mais conhecido como Mestre Meia-Noite – funciona há mais de 20 anos. O Daruê atende a crianças e jovens da região, oferecendo-lhes cursos e oficinas de arte e cultura, além de formação musical e dança popular.

Também é da região de Peixinhos o Lamento Negro, bloco de percussão fundado em meados dos anos 1980 e que serviu de base e inspiração para os experimentos rítmicos de Francisco de Assis França, o Chico Science. “Eu que formei e ensinei os caras que tocavam percussão com ele no Lamento. Chico cantava apenas acompanhado pelos tambores, depois é que entrou guitarra, baixo”, conta Mau. Ele refere-se indiretamente à junção do Lamento Negro (que contava com Gilmar Bola 8) com a Loustal, que além de Science, era integrada pelo guitarrista Lúcio Maia e pelo baixista Dengue, futuros companheiros de Chico no CSNZ, junto com o percussionista Bola 8.

Tambores de macaíba. Foto: Reprodução Facebook Maureliano
Mau chegou até a recusar um convite de Chico Science para ingressar no novo projeto que se formava na época. “Não aceitei porque estava envolvido com trabalhos sociais. Foi aí que Jorge du Peixe entrou. Ele nem sabia tocar tambor direito, porém foi aprendendo e é interessante ver como ele foi crescendo até se tornar o vocalista. Parece que estava predestinado mesmo!”, reflete.

Do Lamento Negro também surgiu, em 1993, a Via Sat. Liderada pelo vocalista Pácua e com Maureliano entre seus percussionistas, a banda mistura frevo, hip hop, maracatu, funk, rock, jungle e lançou seu primeiro CD, homônimo, em 2000. Ele deixei o grupo em 2005 para me concentrar na fabricação e venda dos tambores, que vinha crescendo desde a ascensão do manguebeat. “A gente vai envelhecendo, a barriga cresce e a casa vai se enchendo de menino. É difícil ganhar dinheiro apenas tocando”, sentencia prosaicamente Mau, que possui três garotos e uma filha adolescente.

EXPORTAÇÃO

Até hoje, Maureliano fornece alfaias para a Nação Zumbi. Ele também fabrica outros inúmeros instrumentos de percussão como ilús, agogôs, pandeiros, caixas, maracaxás. Sobre o número de venda dos tambores de maracatu, ele diz que varia bastante e não consegue precisar. “Carnaval é uma época muito boa para as vendas. Sempre aparecem aqui grupos de estrangeiros querendo conhecer e comprar. Já recebi gente do Japão, Holanda, Alemanha e Cingapura”, enumera.

Alguns deles chegam até sua oficina por conta da inclusão do local em roteiro propostos por guias turísticos. Mau conta que, certa vez, foi comunicado que um grupo de seis americanas iriam visitar sua oficina. Por não falar inglês, ele pediu auxílio à Prefeitura de Camaragibe, que não contribuiu. “Quem acabou me ajudando a falar com elas foi uma garota de programa”, revela.

Normalmente, Maureliano fabrica o corpo das suas alfaias com compensado e, mais raramente, com madeira de macaíba – que é o material mais utilizado pelos batuqueiros de maracatus nação (ou baque virado) de Pernambuco. Para construir o aro dos tambores, ele usa madeira de pés de jenipapo - material que ele retira de plantações próprias em terrenos localizados nas cidades de Catende e Tiúma.

O preço das alfaias varia entre R$ 350 e R$ 400 e as caixas custam R$ 290. No Brasil, os lugares para os quais ele mais envia suas criações são as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Curitiba. Na Europa, ele tem um cliente que revende os tambores para outros países. Para informações sobre compra de instrumentos, Maureliano disponibilizou o e-mail maurelianobarravento@yahoo.com.br.

Atualização: Maureliano também pode ser contactado neste link.