O grande Hólon da cena musical de Pernambuco

O álbum “Original Olinda Style”, da Banda Eddie foi lançado em 2003. Foto: Reprodução – Facebook
por AD Luna

Eu enxergo a cena cultural baseado no conceito retomado contemporaneamente pelo filósofo norte-americano Ken Wilber. Ou seja, o conceito de hólons. “Hólon é um todo que é simultaneamente uma parte de outros todos”, diz ele, em seu livro Uma teoria de tudo (Cultrix, página 145).  E esses todos se interpenetram, se tocam, ainda que aqueles que deles fazem parte não percebam ou se neguem a admitir isso.
Em seu sentido micro, uma cena cultural é formada por um conjunto de músicos, bandas, admiradores, fãs, formadores de opinião, produtores, roadies, técnicos de som, os quais se integram em torno de ideias e gostos musicais semelhantes em diversos níveis. No Recife, por exemplo, poderíamos citar a cena metal, a do hip hop, a cena da cultura popular tradicional, a do frevo, a do brega, dos forrozeiros tradicionais, entre tantas outras.
Num sentido relativo, assumir essas identidades facilita a comunicação, a interação e o estabelecimento de ações que visam ao fortalecimento de uma cena em específico. É saudável e necessário. Porém, num sentido mais próximo do absoluto, isso pode ser uma grande armadilha ególatra, uma ilusão autodestrutiva. Ela se dá quando conseguimos passar pelo estágio do Eu, chegando ao Nós, mas não atingimos o Todos Nós.
Não estou dizendo para todos esquecerem automaticamente suas diferenças, se darem as mãos e cantarem juntos “We are the world”. Mas é preciso ter um mínimo de boa vontade e esforço mental para observar e compreender interligações, pontos em comum e possibilidades mútuas de aprendizados, trocas de experiências e mesmo o estímulo e usufruto de públicos que podem até transitar por cenas diferentes.
Em determinado momento da minha vida de morador de São Paulo, acompanhei de longe uma polêmica, a meu ver vazia e, pasmem, jurássica. Uma coisa típica do pensamento “velho” de setores da sociedade pernambucana, mas estranhamente adotado por gente “jovem”, “antenada”. A saber: uma guerra entre Indies X Original Olinda Style. De longe, eu pensava: “Mas quanta ‘esperteza’, logo em cidades ovo como Recife e Olinda, vão separar justamente o que poderia estar próximo”. O que impede um fã do Eddie curtir Profiterolis? Pra mim, talvez por enxergar os pequenos e o Grande Hólon da Cena Cultural GERAL de Pernambuco, pouquíssima coisa!
Claro, a minha experiência de ter vivido com colegas adolescentes do bairro cujo desfrute musical incluía curtir da mesma forma e agrado The Cure, Slayer, Metallica, Kraftwerk, Beto Guedes, Yes, The Exploited, James Brown, Milton Nascimento, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, GBH, Kiss, deve ter me influenciado deveras a ver o mundo musical dessa forma.

“Nos anos 1980, era comum se incentivar o belicismo entre punks e headbangers de São Paulo e em cidades da sua Região Metropolitana, ao ponto de acontecerem confrontos violentos, brigas, quebra-quebras.”

O legal é que, em sua sabedoria inconsciente, muita gente do público não tá nem aí pra essas bobagens. Me parece que, às vezes, na sua ânsia e agonia de “conquistar um lugar ao sol”, músicos e defensores destes, em Pernambuco, imitam sem querer o pior de outros lugares. Por exemplo, nos anos 1980, era comum se incentivar o belicismo entre punks e headbangers de São Paulo e em cidades da sua Região Metropolitana, ao ponto de acontecerem confrontos violentos, brigas, quebra-quebras. Na época, grupos punks como Inocentes e Ratos de Porão se mostraram tão contrariados com aquele estado de coisas que resolveram pular fora dos seus guetos. O primeiro tentou adentrar no universo do pós-punk, chegando a ser contratado por uma gravadora multinacional. O segundo foi para o lado crossover, do metal.
Voltando para a cena musical pernambucana, é comum perceber que pontos diversos, pontos de ligação e retroalimentação de cenas não são devidamente observados por músicos, formadores de opinião, entre outros agentes. Alguns exemplos desse elo. Durante o pré-mangue, na cena metal punk de Pernambuco, da qual fiz parte tocando no Cruor e Putrefação, o amadorismo nas produções era comum. Tocar em bateria feita em casa era regra, técnicos de som bons nem pensar. Anos depois, essa mesma cena conquistaria um dia dedicado a ela no Abril pro Rock, com estrutura bastante superior a de tempos passados. O festival, é bom lembrar, é do produtor e ex-empresário de Chico Science & Nação Zumbi, Paulo André. Chico Science= Mangue= Demônio, na cabeça de radicais metaleiros. Depois da eclosão do mangue, um interessante fenômeno aconteceu: o número de festivais locais, fora o Abril e o Rec-Beat, cresceu. Por clara influência do Rec-Beat – festival organizado por Antonio Gutierrez e ex-empresário do Cordel do Fogo Encantado, um dos entusiastas do nascente movimento mangue nos anos 1990 – o Carnaval do Recife passou a se chamar Multicultural e até o grunge Mudhoney por aqui passou. Na cabeça do rocker radical fundamentalista: Cordel= Pernambucanidade= Demônio. Mas deixou de ir ao show dos norte-americanos de Seattle, no Carnaval?

“Nos anos 1990 – o Carnaval do Recife passou a se chamar Multicultural e até o grunge Mudhoney por aqui passou.”

O conhecimento adquirido por atores de determinada cena, mesmo que esta cause repulsa em outra, poderia servir como modelo. Exemplo: em entrevista de André Rio concedida para o Jornal do Commercio, onde trabalhei antes de entrar no Diario de Pernambuco, ele me informou que costumava mandar produtores visitarem hotéis a fim de informar aos hóspedes a respeito da realização de shows de música local no Recife. Mais especificamente, de show dele, André Rio. Ora, isso é uma estratégia que poderia ser usada por produtores de outros artistas, de outras áreas. O modo como a cadeia produtiva da música brega se desenvolve também poderia servir como inspiração para a Cena Beto, Cena Metal e por aí vai!
Enfim, é preciso entender que uma Cena engloba diversas outras cenas, cujos graus de intersecções são variados: de nível elevado à aparente incompatibilidade total. As tensões sempre vão existir, mas seria interessante que fosse desenvolvido uma percepção, um discernimento tal, que as divergências não fossem desnecessariamente amplificadas ao ponto de destruir e/ou inviabilizar o Grande Hólon da Cena Musical de Pernambuco.